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Mirante

É só tascar Deus, que tá tudo bem!

TEXTO Débora Nascimento

29 de Junho de 2022

Ilustração Rafael Olinto

O título deste texto parece uma daquelas frases bordadas em quadrinhos vendidos naquelas lojas de objetos decorativos “afetivos”, ou uma atualização do lema “Segura na mão de Deus e vai”. Mas se refere a um comportamento amplamente disseminado no Brasil, principalmente neste contexto em que caminhamos para o estabelecimento de uma República de Gilead, o regime autoritário e teocrático de The handmaid's tale, cenário que vem se fortalecendo desde a campanha eleitoral de 2018.

Naquele famigerado ano, antes da eleição, recebi um áudio encaminhado por um Tiozão do Zap. O arquivo repleto de fake news trazia a voz de um homem de meia-idade dizendo asneiras e barbaridades contra aqueles que considerava “inimigos do país”, os “esquerdistas”. Do começo ao fim, incitava a violência verbal e até física em quem votasse contra o Capitão. No desfecho, dizia com voz cândida: “Fiquem com Deus”. Aqueles que, para ele, deveriam ficar com Deus, eram os que pensavam igual a ele e, mais precisamente, votavam no mesmo candidato dele.

Depois de ouvir todas aquelas barbaridades (sim, ouvi até o fim; infelizmente é necessário conhecer a fundo os nossos opositores) compartilhadas por supostas pessoas de bem, como o tal Tiozão do Zap que me enviou, constatei mais uma vez: no Brasil, qualquer sujeitinho desqualificado pode dizer as maiores atrocidades, mas é só tascar Deus no meio, que tá tudo bem. Terá o passaporte para continuar vivendo em sociedade, não ser considerado um psicopata ou não ir direto para atrás das grades, por incitar – ou mesmo cometer – violência.

A tática não é nova, claro. Ao longo da história, o ser humano vem cometendo crimes em nome de Deus. Muitos já utilizaram essa estratégia. É "natural", no Brasil, por exemplo, que assassinos e criminosos com fichas hediondas se transformem até em pastores – essa palavra perdeu o seu teor originário, que significava apenas um guia espiritual ou indivíduo que levava os animais ao pasto; hoje parece designar exatamente o contrário, e talvez possar até virar xingamento.

O caso mais famoso é o do ex-ator Guilherme de Pádua, acusado pelo assassinato da atriz Daniella Perez, vítima de um crime bárbaro, que, em dezembro de 2022, completa 30 anos. Alguns anos após ter assassinado a tesouradas a colega de novela por motivo torpe, virou pastor, casou-se novamente e defendeu o voto em Jair Bolsonaro.

Pela estratégia não ser nova, não deixa de surpreender o fato de, em 2022, ainda funcionar. Ouvi da boca de uma pessoa de bem a seguinte teoria, que tem a ver com isso: quem abraça uma religião tem chance de se tornar invariavelmente uma pessoa melhor. Por diversas razões, que não cabe aqui colocar, não levei adiante a discussão com quem proferiu esse bom-mocismo de rascunho, de perfil de quem prefere fazer doações a, de fato, ser contra as causas da fome, como o aprofundamento da desigualdade social provocado pelo governo Bolsonaro.

A teoria dessa pessoa “bolsonarista bem-intencionada” também trouxe reforço a outra constatação: o comportamento de muitos frequentadores de determinadas igrejas faz parecer que eles sentem uma espécie de superioridade moral sobre quem não as frequenta. Assim como, por outro lado, há ateus que se acham intelectualmente superiores a religiosos.

Mas, seguindo o caminho do meio, não deixa de surpreender que pessoas com bom nível de escolaridade e informação caiam sistematicamente na lorota de alguém apenas porque coloca o nome de Deus em tudo, seja lá qual for o contexto. Desde a sua posse, Bolsonaro é o exemplo máximo disso. Não é à toa que, em seu discurso de posse como presidente da República, a palavra mais usada tenha sido “Deus”. Ele sabia que ia precisar da ajuda de uma força superior para conseguir burlar a ausência de um programa de governo e a mais pura falta de competência (no plano material, em Brasília, essa força superior é conhecida como PGR a seu favor e Orçamento Secreto).

Sendo assim, para alimentar a simpatia e a empatia de seus eleitores, toda vez que acontece um problema, um escândalo, uma crise em seu governo, Bolsonaro apela para Deus, como um péssimo aluno que nunca estuda para as provas e espera que as respostas certas caiam do céu. Quando não pode “colar”, “chuta”. Mas, como estamos testemunhando, não dá para governar um país na base do improviso ou do faz-de-conta-que-não-é-comigo.

Em outubro de 2020, em plena pandemia, para defender o uso do medicamento que justificaria o fim do isolamento social, agradeceu: “Deus nos deu a hidroxicloroquina para quem se acometer da doença”. Em maio de 2022, com 33 milhões de brasileiros passando fome, colocou a economia nas mãos de Deus. “Aqui não tem desabastecimento, temos dificuldades. Mas qual a solução para isso [inflação e crise econômica]? É a resiliência, ter fé, ter coragem, acreditar. Por muitas vezes, ou quase sempre, é dobrar os joelhos e buscar uma alternativa. Pedir uma alternativa.”

Portanto, se a solução não chegar aos 45 do segundo tempo desse governo, logo saberemos que Bolsonaro e a equipe econômica não rezaram o suficiente. Mas, segundo vozes da cabeça do presidente, a situação não é tão ruim. Para ele, o Brasil é um dos países que menos sofreram com a alta dos preços e outros problemas durante a pandemia. Os números discordam. De acordo com a Trading Economics, a inflação brasileira é a quarta maior entre as nações do G20 e a sexta pior do continente americano.

E o uso do nome Deus segue a todo a vapor na reta final do mandato bolsonarista. Em junho de 2022, Michelle Bolsonaro, para salvar a pele do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, afirmou: “Deus provaria que é uma pessoa honesta”. Seu amigo foi acusado de esquema de corrupção para beneficiar pastores (atendendo a pedido de Bolsonaro, o sensitivo, cheio de pressentimentos de buscas e apreensões da PF), com verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Para referendar a (oni)presença de seu principal “cabo eleitoral” na sua intenção de ser presidente, Bolsonaro O mencionou diretamente em seu slogan. Se, em 2018, foi “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, em 2022, ele já ensaia um novo: “Sem pandemia, sem corrupção, com Deus no coração. Ninguém segura esta nação”, tomando emprestado dos militares o lema “Ninguém segura este país” (alguma mensagem subliminar?). Em maio deste ano, diante de pesquisas que apontam a vitória de Lula no primeiro turno, Bolsonaro afirmou, abrindo uma brecha para várias interpretações: “Só Deus me tira daquela cadeira”. Como diria o vereador-chefe-de-gabinete-marketeiro-02 Carluxo, “Tirem suas próprias conclusões”.

Usar o nome de Deus é batata! Até uma criança pode perceber isso. O filho de uma amiga, dia desses, fez um comentário, em um canal infantil do YouTube, com uma linguagem que não integra o cotidiano de sua família. O menino escreveu: “Tenham todos uma tarde abençoada!”. A mãe leu, riu e questionou por que ele havia escrito aquela frase incomum para um garoto que não convive com beatos. A resposta: “É porque eu vi que alguém escreveu isso e ganhou muitos likes”. Com nove anos, ele já notou que Deus sempre encontra um tempinho para colaborar com a biscoitagem no Brasil.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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