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Mirante

2021: a única certeza é o vírus

TEXTO Débora Nascimento

30 de Dezembro de 2020

Arte sobre foto Yellow

Assim que ocorreu a virada do ano, no dia 1º de janeiro de 2020, fomos olhar, da varanda do apartamento de minha mãe em Campo Grande, os fogos de artifício estourados, ao longe, no Recife Antigo e em Boa Viagem. Lembro que, em um momento, depois de todos os brindes e abraços, retornei sozinha à varanda. Não sei se era a nuvem carregada que havia se formado, contrastando com o colorido das luzes dos fogos espaçados, mas senti uma sensação estranha, algo que eu nunca havia sentido em um Réveillon. Um mau pressentimento. Tive a impressão de que o ano que apenas iniciava não ia ser bom. Embora nunca tenha sentido isso numa virada de ano, minha intuição costuma ser afiada. Muitas vezes a ignoro, mas geralmente ela acerta.

Dois mil e vinte começou e lá fomos nós, esperançosos, tentando renovar a vida e pôr em prática as "resoluções de ano novo". Lembro agora que, nos primeiros dias do ano, nos divertimos com discussões em festas, no trabalho e em grupos de WhatsApp sobre se Adam Driver seria feio ou bonito. Mas 2020 acabou sendo um ano tão difícil que esquecemos até da existência de Adam Driver – o então novo queridinho da internet por causa de História de um casamento (Netflix) e o terceiro filme da última (última?) trilogia de Star Wars. Hoje discutimos coisas das quais depende nossa sobrevivência: o afrouxamento da quarentena, do uso das máscaras e a obrigatoriedade da vacina para uma doença, que, até pouco tempo atrás, tratávamos mal até no pronome, confundindo o masculino do vírus com o feminino da enfermidade. Para quem se encontra em uma das baladas do universo paralelo brasileiro, alheio às quase 200 mil mortes no país, estamos falando do novo coronavírus e da Covid-19.

No mês de fevereiro, já havia uma ameaça pairando sobre as nossas cabeças. Mas estávamos muito preocupados com nossas fantasias e nos esbaldando no Carnaval, período em que ignoramos até a possibilidade do vírus se espalhar nas aglomerações dos blocos. Logo ao chegar o fim dos dias de folia, caiu a máscara da ilusão, como canta o compositor Moacyr Franco na enfadonha marchinha Turbilhão. Começaram a pipocar mais e más notícias sobre o novo coronavírus. No começo de março, antes da quarentena, enquanto cantávamos o velho hit This is the rhythm of the night, da cantora Corona e ainda brincávamos com o nome da cerveja, não sabíamos das mudanças que estavam prestes a se impor sobre nós. A pandemia, que apenas começava, iria transformar e marcar as nossas vidas. Fomos colocados, à força das circunstâncias, no meio de um acontecimento histórico, sem nenhum preparo social, psicológico, financeiro e comportamental para ele.

Como forma de nos prepararmos para a pandemia que se iniciava, revimos Contágio (2011). A propósito, se todo mundo tivesse visto esse filme de Steven Soderbergh, talvez a quarentena fosse levada mais a sério. Essa ficção científica foi, de certa forma, premonitória de como tudo se deu em 2019/2020.

E por falar em premonição, em maio de 2019, estávamos eu, meu filho e meu marido em nosso contumaz (e agora muito saudoso) passeio no bairro, no meio da tarde, quando encontramos uma antiga colega de colégio dele, não vista há muito tempo. Depois de uma conversa animada, em que os dois lembraram de professores e ex-alunos, ela revelou fazer parte de uma organização religiosa mística e começou, do nada, uma conversa espiritualista: "Se preparem, porque, no próximo ano, vai acontecer um evento em escala mundial, em que vai desencarnar muita gente". Nos entreolhamos e rimos. Perguntei: "O meteoro vai vir mesmo ou os ETs finalmente vão finalmente invadir a Terra?". Até então, a ideia de pandemia era algo que jamais passaria pelas nossas cabeças. Seria mais fácil imaginar uma invasão de extraterrestres. Ela repetiu o que dissera e argumentou que isso iria acelerar a evolução espiritual no planeta e que, ao final desse período, o mundo se tornaria um lugar melhor. Pensamos: OK... Não levamos a previsão a sério e imaginamos que se tratava de uma pessoa um pouco lunática. E esquecemos o ocorrido, até começar a pandemia.

A pandemia mal iniciou e as pessoas começaram a alimentar a ideia otimista, parecida com a que aquela colega de colégio afirmara, de que este período, pelo menos, serviria para evoluirmos como seres humanos. Se isso vai ocorrer, não se sabe. Mas o certo é que ninguém quer morrer ou encarar o sacrifício de perder alguém querido dessa forma ou continuar a assistir, de mãos atadas, a um governante desprezar sistematicamente a dor de milhares de famílias para que, ao final, aconteça uma suposta aceleração na evolução dos terráqueos. O planeta está à beira de um colapso ambiental sem precedentes na história, o que pode significar a nossa extinção como espécie. Mas boa parte da população terrestre ignora e permanece, em sua maioria, votando em políticos que não estão comprometidos com o meio ambiente. O que mais de ruim será necessário acontecer para evoluirmos de vez?

Além de todos os problemas decorrentes da pandemia, esses nove meses ainda nos presentearam com diversas situações que serviram como testes para medir o nível da nossa civilidade. E muita gente vem sendo reprovada. Questões básicas de convivência em sociedade, como o respeito e o direito do outro, vêm sendo desprezadas. Não é difícil ver pessoas circulando sem máscaras nas ruas ou usando de forma equivocada, e tentando entrar em locais fechados sem máscaras. Eu mesma testemunhei isso duas vezes, em farmácias diferentes. Imagine agora as primeiras pessoas que forem vacinadas: vão continuar a usar máscaras, se estiverem imunizadas? Os cientistas dizem que elas deverão continuar a usar, para proteger as outras pessoas, até que alcancemos a tão sonhada "imunidade de rebanho" (não confundir com a vacinação do eleitorado de Bolsonaro). Sem a implementação de multas individuais (que foram adotadas, no lockdown, na Europa), vamos ficar à mercê, mais uma vez, do bom senso alheio.

Os telejornais vem fazendo tantas matérias sobre o tema "pessoas aglomerando e sem máscaras" que acabaram virando fiscais de baladas, registrando as aglomerações em bares, festas e ruas. Em outubro, em um hospital, fui encaminhada inadvertidamente para uma emergência de Covid-19 e a maioria dos pacientes que vi por lá eram jovens com cara de baladeiros. Hoje, eles são a maioria dos infectados na segunda onda, quando não são os próprios vetores de transmissão para pessoas de outras faixas etárias e comorbidades. Por causa também deles, a segunda onda está cada vez mais alta. Já a opção de empregar as medidas restritivas, parece que foi convenientemente esquecida pelos governos, desde o período pré-eleitoral e se estendendo ao rentável final de ano para o comércio. Reaquecemos a economia, enquanto milhares voltam a morrer nas UTIs abarrotadas.

Quase no apagar das luzes (ou das trevas) de 2020, no dia 26 de dezembro, a bióloga Natalia Pasternak Taschner finalmente foi uma rara especialista que, convidada para falar na TV sobre a pandemia, deu o verdadeiro tom da situação. No estúdio, ao lado dos âncoras do telejornal, a cientista ficou indignada após assistir a uma matéria da TV Cultura que sugeria ao espectador advertir com humor e leveza quem, por acaso, estiver sem máscara ao seu lado. Ao final, ela disse algumas verdades: "Eu tô um pouco passada com o que escutei agora, porque eu escutei 'humor', 'leveza' e 'evitar o estresse'. Então, eu não posso falar pro outro fazer a coisa certa, porque eu vou ficar estressado e porque ele vai se ofender? E por que tenho que tratar isso com 'leveza' e 'humor'? Tem gente morrendo! Não tem humor, não tem leveza. Eu não tenho que pedir a permissão do outro pra dizer que ele tem que usar máscara, fazer a coisa certa e tomar vergonha nessa cara, porque ele vai matar alguém! Desculpe eu me exaltar, mas eu acho que realmente poucas vezes eu vi uma reportagem tão inoportuna, como vi agora."

A bióloga teve razão ao dar essa reprimenda ao vivo nesse jornalismo que vem cobrindo a pandemia do novo coronavírus. As empresas de comunicação, por exemplo, até hoje repetem o mantra "lave bem as mãos", "não leve as mãos ao rosto", quando sabemos, há meses, que apenas essas medidas não bastam. O vírus é transmitido pelo ar. Isso deveria ser acrescentado ao mantra: "O vírus é transmitido pelo ar". Talvez se essa informação fosse mais difundida, menos pessoas se sentiriam à vontade para zanzar por aí ou socializar – a atriz Nicette Bruno foi contaminada após a visita de um parente que estava contaminado e assintomático.

É possível que a inconsequência das "pessoas que podem quarentenar, mas cansaram da quarentena" seja resultado não apenas do egoísmo, mas de considerar que usar máscara, passar álcool gel nas mãos e não levá-las ao rosto seja o bastante pra se proteger e ao outro. Também não deve ser aceitável que o protocolo de segurança em portas de estabelecimentos comerciais seja apenas a medição da temperatura, quando sabe-se que há assintomáticos que transmitem o vírus. Isso é apenas um procedimento para dar, aos consumidores, uma falsa sensação de segurança e proteção. É preciso divulgar que esses são ambientes de risco maior de contágio. É necessário informar que as pessoas falem apenas o necessário em lugares fechados, pois as gotículas de saliva que escapam da máscara podem contaminar o local.

Estamos à beira de 2021, e muita gente já alimenta a esperança de que a pandemia, a quarentena e todos os problemas enfrentados em 2020 ficarão para trás após a virada do ano. Mas isso vai depender da imunização da população. Com tanta incompetência do governo federal para administrar a crise sanitária, a vacina ainda está longe de ser uma realidade para nós, brasileiros, enquanto 47 países já vacinam seus cidadãos. Sem a vacina, a previsão é de que teremos mais um ano de restrições de convivência social, de crise econômica, tendo como consequências problemas sociais e psíquicos.

Na gripe espanhola, surgida nos Estados Unidos, o vírus influenza parou de matar maciçamente, após dois anos (1918 e 1919) de carnificina, estimada entre 50 e 100 milhões de vítimas fatais no mundo, e se transformou na gripe que conhecemos hoje. Assim como não somos mais os mesmos, depois do estouro da pandemia, o Sars-Cov-2 também não é: ele já sofreu diversas mutações (só no Brasil, são 40 linhagens). E está tentando sobreviver. Nós também.

Uma de suas linhagens, tornou-se extremamente contagiosa no Reino Unido, mas não se sabe ainda se é mais perigosa que a inicial. Como afirmam os cientistas, não interessa aos vírus serem letais, pois eles morreriam com os hospedeiros. Por enquanto, os pesquisadores afirmam que a vacina vai funcionar para todas as novas variações. No entanto, em entrevista à BBC News na Inglaterra, o professor Ravi Gupta, da Universidade de Cambridge, alertou: "Se o caminho para acréscimo de mais mutações é aberto, começa a ficar preocupante. Este vírus está potencialmente em um caminho de fuga da vacina. Ele deu os primeiros passos nesse sentido."

Diante da incerteza de como será 2021, talvez a nossa única esperança seja torcer para que o novo coronavírus, a única certeza no próximo ano, se torne um membro "civilizado" no nosso convívio. Até porque não podemos contar com o incompetente governo federal e a negligência de boa parte da sociedade brasileira. Para os irresponsáveis, que tal inserir nas resoluções de ano novo: "usar máscara de forma decente", "ficar em casa, se puder" e "não aglomerar"?

Lições de 2020:

1 – A Saúde é mais urgente que a Economia.
2 – A desigualdade social impede o fim da pandemia.
3 – É possível diminuir a carga horária do trabalhador brasileiro.
4 – Até mesmo uma pandemia não freia a violência racial e sexual.
5 – É possível trabalhar de casa, em determinadas funções.
6 – A arte é necessária sempre e mais em tempos de crise.
7 – Descobrimos com quem podemos realmente contar.
8 – Os laços afetivos são mais fortes que a distância.
9 – Eventos culturais, esportivos, políticos, sociais antes considerados imprescindíveis podem, sim, ser cancelados ou adiados.
10 – Pensar duas vezes antes de compartilhar "notícias" pelo WhatsApp.
11 – Parte das pessoas que têm empregadas domésticas descobriu, em algum momento, que consegue limpar a casa, cozinhar e cuidar dos filhos. A outra parte não dispensou nem infectada com Covid-19.
12 – Paciência é fundamental, principalmente em tempos de crise.
13 – Não devemos aglomerar um elevador, mesmo em tempos normais.
14 – O distanciamento pode ser um ato de amor maior do que um abraço.
15 – Dar mais valor às coisas simples, como abraçar, beijar, encontrar parentes e amigos, ir e vir.

Resoluções para 2021:
1 – O SUS é imprescindível e precisa ser valorizado.
2 – Devemos lutar contra os desmandos do governo Bolsonaro.
3 – Precisamos de um presidente que respeite a vida.
4 – É necessária, mais que nunca, a distribuição de renda e de terra, e taxar grandes fortunas.
5 – Mais transporte público de qualidade é urgente.
6 – Os estudantes e professores de escolas públicas precisam de mais recursos tecnológicos e educacionais.
7 – Precisamos valorizar e ajudar os artistas.
8 – Não criar expectativas positivas.
9 – Precisamos saber lidar com nossos maiores medos.
10 – É necessário renovar a esperança e a disposição.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

 

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