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Matéria Corrida

Quando Ismália enlouqueceu

TEXTO José Cláudio

03 de Dezembro de 2021

Imagem Reprodução

Não sei se isso é doentio, mas tenho, de uns tempos para cá, uma verdadeira adoração pelo menino que fui. Deve ser pela consciência, agora, na velhice, de estar me despedindo dele. Digo sobre a formação intelectual que começou ali, o contato com os livros de ginásio no Colégio Marista. De certo modo comecei ali. Vivo com saudades desses livros, de todos eles, de latim e francês e outros, principalmente de letras. Mas também gostaria de voltar às aulas de matemática e física, revisitar, passo a passo, os teoremas, até o “como queríamos demonstrar”. Me felicito por lembrar, como se fossem versos: “Matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias” (nunca entendi bem esse “quadrado das distâncias”; meu genro já me explicou que é porque as massas ganham peso à medida que se deslocam, como uma coisa que cai, se não me engano é isso); “Todo corpo mergulhado num líquido recebe um impulso de baixo para cima igual ao peso específico do líquido deslocado”. Me lembro como um grego descobriu que a Terra era redonda somente com um pedaço de pau, e o tamanho da Terra e a distância da Terra à Lua, comprovada quando os homens foram lá.

Do mesmo jeito que fiquei doido para ler Nunca beijei a lona, de Joe Louis, que li sem poder largar, agora resolvi procurar a Língua Portuguesa/Antologia – Terceira e Quarta séries, de Aníbal Bruno, nome que nós aqui do Recife conhecemos como de um presídio: triste notoriedade para um literato, ser martelado como nome de presídio. Igual a Frei Caneca no Rio de Janeiro.

Que alegria abrir o pacote, aparecer, isto é, confirmar o formato, o desenho das letras da capa dura, as cores verde e amarelo, até o dorso, como quem descobre num belchior uma joia há muito perdida. Quando comecei a folhear para ver a cara do livro, de que pouco me lembrava, bati o olho no soneto de Luís Guimarães que começa assim: “Como a ave que volta ao ninho antigo,/Depois de um longo e tenebroso inverno,/Eu quis também rever o lar paterno,/O meu primeiro e virginal abrigo”. Exatamente o que me estava acontecendo naquele momento, embora não considere minha vida, 89 anos completos, “tenebroso inverno”. Só alguns pedaços mais difíceis mas que não me desviaram do rumo escolhido desde aquela época: eu sempre quis ser pintor, esse sempre foi meu ponto mais firme. Sem nem saber se a profissão existia, se coisa do tempo de Leonardo da Vinci e Rafael. “Uma visão gemia em cada canto,/Chorava em cada canto uma saudade”, assim termina o soneto. Mas no meu caso, de confraternização, como se eu prestasse contas àquele menino. Que nunca traí.

Naquela época o Brasil não tinha rei, nem do futebol, Pelé, nem dos cantores, Roberto Carlos. No âmbito da literatura, Olavo Bilac, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (um verso alexandrino, 12 sílabas), era considerado o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Não há referência a Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, nem os romancistas Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Mário de Andrade ou Érico Veríssimo, autor do primeiro romance que li na vida, Caminhos cruzados, o mesmo acontecendo com o filho Luís Fernando, me disse este pessoalmente, cruzados também os nossos caminhos, ele lá no Rio Grande do Sul e eu aqui no Recife vindo do interior. Os poetas escolhidos por Aníbal Bruno são: Castro Alves, Crepúsculo sertanejo; Luís Guimarães, Visita à casa paterna, de onde tirei aquele verso acima citado; Alberto de Oliveira, Baile de inverno; Raimundo Correia, Anoitecer; um soneto de Olavo Bilac para recitar e recompor em prosa; A morte de Fernão Dias, Olavo Bilac; A mata, Alberto de Oliveira; O baile na flor, Castro Alves; O Semeador, Durval de Morais; Brasileiro, onde está tua Pátria?!, Ronald de Carvalho; A dança do vento, Afonso Lopes Vieira; Dor oculta, Guilherme de Almeida; A Cidade do Recife, Adelmar Tavares, soneto que deixava maravilhado Seu Barreto, marido da professora Dna. Dulce, que me ensinou a ler em Ipojuca; e outros, que vou citar só os nomes para não encompridar demais: Augusto Gil, Ricardo Gonçalves, Ismália, de Alfonso de Guimarães, que sei de cor até hoje: “Quando Ismália enlouqueceu/Pôs-se na torre a sonhar.../Viu uma lua no céu,/Viu outra lua no mar...”; Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho, Guerra Junqueiro, Olavo Bilac com o magistral Língua Portuguesa, Mário Pederneiras, Olavo Bilac, Antero de Quental, Luís Guimarães, Olavo Bilac, Olavo Bilac, Cassiano Ricardo, Ronald de Carvalho, Olavo Bilac, Vicente de Carvalho são quase sempre os mesmos, com exceção de Gervásio Fioravanti, Aroldo Bruno ou Guilherme de Almeida.

Não sei se alguém teve paciência de ler essa lista até aqui, uma delícia para mim, há tanto tempo desejada, mas seria talvez insuportável ao leitor duplicá-la com o nome dos prosadores, inclusive de que pouco se ouve falar, como Rocha Pombo, Eduardo Prado, Mário de Alencar ou José Garibaldi. A única mulher é Júlia Lopes de Almeida. Interessante, principalmente para cronistas sem assunto, são os temas para redação, depois de cada texto. Talvez eu venha a segui-los: tristeza de um dia de chuva; o verdor de nossas matas; a volta das andorinhas; que ideias pode sugerir a palavra aves; faça uma composição que tenha por título – a remar no rio; descreva um jardim público (...); descreva as vantagens da vida na cidade; conjugue os verbos seguir e vir; descreva o carnaval; descreva uma partida de futebol; descreva uma montanha; descreva um voo de aeroplano; descreva uma corrida de cavalos; e assim segue por mais de 300 páginas. Às vezes, aparece um tema edificante: “Você viu um de seus camaradas rir de um mendigo. Que lhe disse a fim de impedir essa má ação? Conte-o por escrito”. Mais uma infinidade de assuntos são sugeridos. “Imagine-se na praia, vendo um vapor que passa no horizonte. Fale da vida afanosa e rude dos homens do mar, sobretudo antigamente, nas longas viagens dos navios de vela, nas caravelas que descobriram a América, que chegaram ao Brasil com os navegadores portugueses (...).” Recentemente, vi numa reportagem da televisão que o vinho da caravela de Cabral, se não me engano, era o Pera Manca! Cabral não era nada bobo.

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