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Matéria Corrida

Pintura mirim

TEXTO José Cláudio

03 de Março de 2021

'Flores', acrílica sobre eucatex, 30 x 30cm, 2021

'Flores', acrílica sobre eucatex, 30 x 30cm, 2021

Imagem Adriano Cabral/

Van Gogh disse numa de suas cartas que a pintura ressurgiria em outro país e citou o Brasil, quem sabe lembrando de Pernambuco. Vou perguntar ao pintor Roberto Ploeg se dão isso na escola na Holanda, o que chamamos aqui de Invasão Holandesa, embora muitos achem que o único vestígio que inda nos resta dessa invasão seja um pãozinho redondo crocante chamado “brote”. Faz tempo não vejo.

Mas não podemos deixar de lado uma coisa dita por Van Gogh, justamente através de quem a pintura estava ressurgindo. Como ressurge sempre de tempos em tempos. Na Renascença na Itália no esplendor do papado, na Espanha com Velázquez emendando com Goya, porque foi Velázquez que, digamos assim, aliás quem disse foi Ortega y Gasset, desmanchou a Renascença, com seu aparente desleixo, como ressurgiu, não com a obra de um pintor mas com a invenção do tubo de tinta, permitindo ao pintor carregar o atelier no bolso, levando Renoir a dizer que sem a invenção do tubo de tinta não teria havido o impressionismo. Teve aquela intuição de Kandinsky que, entrando no atelier no escuro, deu pra ver um quadro genial e ao acender a luz percebeu que com a leitura figurativa o quadro se tornara banal, passando então a anular toda possibilidade de representação que aparecesse no quadro, criando assim o abstracionismo.

Mas nossa intenção aqui não é contar a história da pintura e sim lembrar desse ressurgimento aludido por Van Gogh. Tomei conhecimento dessa carta através do pintor Eduardo Correa de Araujo. Lembro que aí pela década de 1950 alguém disse num artigo que em algum lugar estava existindo um Van Gogh, fora do circuito das galerias e que certamente, como o original, iria morrer de fome e de desespero, com quadro tampando buraco de galinheiro. Acho que o que tornou a vida de Van Gogh uma tragédia foi a biografia de Irving Stone A vida trágica de Van Gogh.

Também convém lembrar outro fato, e isso não se limita a Van Gogh. São muitas circunstâncias, voltando a Ortega y Gasset: o homem é o homem e suas circunstâncias. E é por isso que o verso considerado o maior da obra de Homero é: “Nenhum homem pode prescindir da ajuda dos deuses”.

Velázquez casou com a filha do seu professor de pintura, que via nele um grande talento. Quando o conde-duque Olivares pediu ao professor alguém para ocupar o cargo disputadíssimo de pintor da corte, o indicado foi o genro. Assim, Velázquez começou no ponto mais alto. Acresce que, neto de nobre português, seu sonho era voltar à nobreza, morar no palácio real. Juntando-se isso ao seu talento, tendo-se tornado amigo do imperador, pôde-se dar ao luxo de ser o grande pintor que foi e era desde o início. Se não tivesse sido pintor da corte, quem garante que a história da pintura teria sido a mesma?

Na época de Van Gogh, Gauguin, Cézanne, ninguém os conhecia, nem mesmo em Paris. Nem os impressionistas eram conhecidos! A pintura que dominava era o chamado estilo pompier, “bombeiro” em francês, porque os quadros eram cheios de objetos de cobre, de onde provêm os tachos de nossa pintura acadêmica. Foi com um desses pintores que o paulista Almeida Júnior foi estudar pintura em Paris. Portanto, não é que a sociedade da época tivesse nada contra esses precursores; o fato era que simplesmente não os conhecia.

É bom deixar claro que me refiro a quadros, embora a chamada arte contemporânea seja mais abrangente, e outras manifestações tenham dividido o espaço outrora ocupado por quadros e esculturas como o objeto, o ready-made, instalação, performance, fotografia, arte bruta, o vídeo, que não existiam no tempo de Van Gogh. Apesar de a morte do quadro ter sido anunciada há bem um século, ainda continua ele vivo e, pelo que eu saiba, domina o mercado de arte.

A pergunta é: será que, neste momento, hoje, aqui no Recife, na pintura estará ocorrendo alguma coisa que possa ser chamada de “ressurgimento”?

Mesmo antes da pandemia pouco saía de casa e, depois, é que deixei de vez de sair. Sou do grupo de risco: idoso, diabético e obeso. Assim, o que sei dos novos tem sido através de meu filho também pintor Mané Tatu. Simone de Beauvoir disse que o que ela julgava “os novos” àquela altura já eram nomes consagrados e para saber quem eram os novos de verdade tinha que ir mais embaixo. É o que se dá com todo idoso. Essa função tem cabido pois a Mané Tatu, mais próximo deles. Aliás, antes de mim, já minha mulher, Leonice, começara a povoar as paredes com esses quadrinhos que assim comecei a apreciar. Ela também pertence à primeira turma do Atelier Coletivo (1952), na Rua da Soledade, aluna de Reynaldo Fonseca, Ionaldo Andrade e Abelardo da Hora.

Tenho sido tomado de um encanto especial por esses quadrinhos que primam pela singeleza e seus autores quase não têm coragem de os mostrar. Digo “quadrinhos” pelas pequenas dimensões, dois palmos ou três no máximo e temas nada arrojados. É possível até que aconteçam assim, sem muito empenho, pintados porque o autor viu por acaso alguém pintar e foi arriscar alguma coisa no gênero, sem o arrojo que acomete os grandes artistas ou nem sempre, porque pintura aparentemente brota em qualquer terreno, ou melhor, onde menos se espera. Aos poucos, como quem não quer nada, vão ocupando as paredes, ou nem isso, porque pelo tamanho diminuto, quase não ocupam espaço. É como se fossem parar ali por algum acaso. Os preços, mínimos. Já vi chamar “pintura mirim” quem sabe um bom título para uma nova escola, um tanto depreciativo, como impressionismo, cubismo ou fauvismo. Quem sabe Van Gogh pudesse apreciá-los.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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