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Matéria Corrida

Egydio Ferreira Lima

TEXTO José Cláudio

05 de Maio de 2022

A

A "Rendeira" de Egídio. Óleo s/ eucatex, 120 x 200 cm, 1970

Imagem Reprodução

Timbaúba, 1929 – Candeias, Jaboatão dos Guararapes, 2022. Quando o conheci ele ainda assinava com y. Eu tinha feito desde o admissão ao 1º científico no Colégio Marista (Rua Conde da Boa Vista). Foi aí que botaram na minha cabeça fazer direito, porque gostava de ler e escrever. Embarquei nessa, embora do que gostava mesmo era de desenhar. Passei para o clássico no 2º ano, Colégio Osvaldo Cruz, como fizeram, ou já estavam lá, Alfredo Maurício Fernandes, Marcos Freire, Otávio Lobo e outros que iam estudar direito, na Faculdade de Direito do Recife, a única então em Pernambuco. 

Egídio estudou no Nóbrega, me disse seu sobrinho Marcelo (filho de Maurício, irmão de Egídio). Segundo Marcelo, o Nóbrega era cheio de escadarias, o que dificultava a vida de Egídio, tendo de descobrir atalhos para chegar às aulas, até atravessando marquise e quarto de depósito no escuro. Não sei se isso colaborou para a sua transferência para o Osvaldo Cruz, onde nos conhecemos. 

Egídio teve paralisia infantil e caminhava com dificuldade. Eu andava muito com ele pelas ruas, com frequência almoçava na casa dele na Rua da Amizade, onde hoje mora Zé Santeiro, pai do pintor Hercílio, e até dormia em cima da garagem, onde dormiam os meninos, Geraldo, Egídio, Maurício e outros. Mas a sede da família era o Engenho Angelim, Timbaúba, de onde Seu Valfredo tomava conta de tudo e até onde fiquei nas férias e brincamos um grande Carnaval, hospedados na casa de Dr. Ferreira na cidade em companhia de Joãozito, filho de Dr. Ferreira. Egídio ia para bailes e tudo, a paralisia não conseguindo abatê-lo. Outro grande amigo de Egídio, e meu, era o maranhense Bento Bugarin. Bento viera estudar direito, hospedando-se na casa de sua prima Carminha, com quem Egídio casou. Carminha morreu poucos dias antes dele. Bento, muitos anos antes. Era do Tribunal de Contas da União lá em Brasília. Mesmo quando fazia parte do Tribunal, uma noite Egídio e Bento vieram me visitar já velhos, digamos assim, nós três. Senti que havia entre nós uma grande vontade de voltarmos a ser como éramos. Porque de fato nunca houve motivo de nos afastarmos a não ser o afastamento em si causado pelas vidas que escolhêramos. 

No tempo do Colégio Osvaldo Cruz o médico Dr. Barros Lima já fazia uma operação nas pernas de Egídio pensando na seguinte. Marcelo me contou que certa vez Egídio caiu e quebrou o fêmur, em Timbaúba. Não tinha mais trem para o Recife naquele dia, foram buscar um médico na Paraíba, mais perto, que engessou a perna somente para imobilizá-la. No outro dia, pegaram umas mochilas, forraram o piso do vagão e trouxeram Egídio para o Recife. Dr. Barros Lima era um homem ocupado e só conseguiram encontrá-lo quatro horas depois. Ele chegou sorrindo. Pensara em fazer o que tinha acontecido na queda mas lhe faltara ânimo para tanto. Podia não dar certo e Egídio corria o risco de perder a perna. Penso eu. Feita a operação, a capacidade de andar melhorou muito. Mas mesmo depois da época em que andava comigo, de bengala, ainda precisou fazer outras operações. 

No 1º ano da faculdade, o que me encantava eram as aulas dos bons professores: Arnóbio Graça, de Economia Política; Mário Batista, de Direito Romano; Samuel MacDowell, de Teoria Geral do Estado. Mas houve um episódio que mudou tudo. Já contei isso nessas crônicas. Encontrei por acaso Ivan de Albuquerque Carneiro que ia passando defronte de minha casa na Rua de Santa Cruz. Ex-colega de classe no Marista, perguntou-me se ainda gostava de desenhar. Convidou-me para fazer parte de um atelier coletivo. Pagava-se uma mensalidade para o aluguel da casa. Era pouca coisa e paguei. Quando eu até já tinha esquecido, Ivan apareceu. “Alugamos a casa”, ele disse. A partir daí, em vez de ir para a faculdade eu ia para o atelier coletivo. Se você quiser saber mais sobre o atelier, procure nos sebos, talvez encontre, Memória do Atelier Coletivo, de minha autoria. E isso decretou o meu afastamento de Egídio e todos os colegas que estudaram direito. 

Viajei para a Bahia, São Paulo, peguei uma bolsa passei um ano na Europa, Roma para ver a Pinacoteca do Vaticano, a Capela Sistina, Paris para ver o Louvre e outros museus, na Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça, Espanha e Portugal. Voltei para São Paulo, terminei passando alguns anos fora e quando voltei nossas vidas tinham tomado rumos diferentes. Eu e Egídio não sabíamos mais nada um do outro. 

Um ano lá, eu já encalacrado na pintura, saí pelo Recife e Olinda pintando muros para a candidatura de Egídio e Marcos Freire, com umas moças, entre as quais Luciana, filha de Egídio, grupo chefiado por Marcelo, que já falei. Marcelo nunca deixei de ver, também casado com uma Carminha. Às vezes tomamos um vinho. 

A última vez que vi Egídio numa visita que lhe fizemos eu e minha mulher, lá em Candeias, Luciana fez um enorme peixe de forno, quem sabe representando o tamanho de nosso regozijo. 

Agora, nos últimos dias, Egídio, depois de uns dias de hospital, ao voltar para casa não sabia mais onde estava, talvez por não ver sua esposa que morrera enquanto estavam os dois no hospital. Ele voltou e ela não. Perguntava onde estava e só acreditava quando apontavam para um quadro meu grande de uma rendeira que ele tinha na parede.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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