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Matéria Corrida

Dê nele

TEXTO José Cláudio

04 de Janeiro de 2022

Escultura da Associação dos Artesãos Escultores de Brejo da Madre de Deus, Pernambuco

Escultura da Associação dos Artesãos Escultores de Brejo da Madre de Deus, Pernambuco

Foto Reprodução

Eu hoje ando de bengala. Andar não é bem o termo, dar alguns passos dentro de casa, me amparando nos móveis ou me apoiando na bengala. Logo vou passar para o andador e, em seguida, a cadeira de rodas. Me lembro de uma entrevista de Miró na televisão, já bem velho, dizendo que a certa altura ficou cego. Ora, para um pintor, achou a pior coisa que podia acontecer. Ledo engano. Agora, quando dava a entrevista, a vista totalmente recuperada, olhava a tela em branco, “via” o quadro, mas não tinha força de levantar o braço para executá-lo. Eu, felizmente, ainda não cheguei nesse ponto.

E se tenho ainda força para levantar o braço, sentado diante do cavalete, já as pernas não me permitem estar dando pulos por cima das pedras nas pedreiras, como alguns anos atrás.

Nunca alimentei pretensões a escultor, apesar de ter começado, digamos assim, com Abelardo da Hora. “Digamos assim” porque nem o contato diário com Abelardo, o barro, o gesso, a pedra mármore, me demoveu da ambição de me tornar um pintor. Tudo o mais sempre considerei exercício, até a escrita, a leitura, como um caminho para chegar ao âmago da arte da pintura. Além de Abelardo, convivi com Mário Cravo e Carybé, este também escultor, como demonstram as belíssimas e monumentais esculturas em bronze e os baixos-relevos em madeira, e as esculturas que procurei ver ao longo da vida, como as de Miguel Ângelo, que fiz questão de conhecer uma por uma pessoalmente, no ano que passei na Itália. Até hoje, como fiquei encantado com as obras do austríaco Fritz Votruba. Às vezes penso que o papel que a escultura tinha a desempenhar na minha vida já foi cumprido.

Eis que hoje me entram casa adentro, com Mané Tatu meu filho, os filhos de Zé Cotó (José Faustino da Costa): Júnior (41), Joseildo (47) e um sobrinho de Zé Cotó. Só faltou Piru (José Jorge), todos morando em Fazenda Velha, município do Brejo da Madre de Deus. Mané sempre se deu bem com todos. Provou da sopa de costela de cabrito feita pela mulher de Piru, Piru este com quem tomou porres homéricos. Piru mantinha uma espécie de bar.

Enquanto produzíamos as primeiras esculturas em Fazenda Nova, Plínio Pacheco, com quem eu tinha trabalhado no Jornal do Commercio, ele encarregado de alguns tabloides e cadernos, sendo eu o diagramador, que eu tinha trabalhado nisso no Estadão, um dia aparece na Sudene, na Rua da Concórdia, e me convida para fazer “uns bustos”. Assim começou a escultura em pedra, granito, a fazer parte do meu currículo. Aliás os filhos de Zezinho Cotó me trouxeram uma garrafa de vinho, uma de champanhe e uma de suco de uva orgânico de Lagoa Grande, enviadas por Edivaldo, um meu admirador: em Lagoa Grande está instalada uma dessas esculturas, um Beato com uns três metros talvez de altura.

Tudo começou quando Zezinho Cotó começou, por conta própria, escondido no mato, uma escultura, uma mulher carregando um pote. Daí, depois que saí de lá, os seus filhos ficaram produzindo esculturas em pedra. Granito, que é predominante na região.

Hoje, bem 50 anos depois, falecido Zezinho, os filhos se juntaram numa sociedade que vai muito bem, dá para se manterem produzindo escultura em pedra, pura maravilha. São coisas assim que nos fazem ter fé no povo brasileiro. Não é só na terra onde se plantando dá. Eles compraram máquinas, que no meu tempo era só no ponteiro, têm encomendas, enfim vieram me dizer que não vivi em vão!

Interessante é que sempre quis ouvir o que tinha a dizer o aprendiz de arte em lugar de entupi-los de nossas teorias. Aliás, na autobiografia de Orozco, o grande muralista, ele diz que, no México, só se acreditava nos analfabetos, que não estavam contaminados pela arte cosmopolita. Eu, desde muito, me rendi à estética do cliente. Afinal é ele que tira o dinheiro do bolso para comprar o que produzimos. E é o que ocorre com os escultores do Brejo da Madre de Deus. Com as encomendas, eles flagram o gosto brasileiro bebido na fonte. Sei que desculpa de amarelo é comer barro, mas sempre me penitencio por nada fazer pelos meus conterrâneos, ensinar, arranjar um jeito de transmitir conhecimentos. Acontece que o ensino de arte tem de ser espontâneo por parte de quem quer aprender, além de, pela minha parte, não estar seguro de ter alguma coisa a ensinar. Um ensino mal dirigido pode achatar uma vocação. Também não quero me responsabilizar por lançar alguém nessa fogueira que é viver de arte. Tanto que às vezes, quando uma mãe me pergunta o que fazer com o seu filho, que tem jeito para a arte, a minha resposta é: dê nele, proíba-o de desenhar ou pintar. Comigo deu certo. Meu pai proibia que eu emporcalhasse o papel de embrulho da loja com minhas garatujas. Daí para as telas, foi um pulo. Não foi bem assim. Aconteceram muitas coisas. Mas que foi, foi. Cadê tu, João Batista (outro cantel, de Fazenda Nova): como é o verso do pica-pau? “Na madeira do angico/ Teco teco, tico tico/ nem sente dor de cabeça/ Nem quebra a ponta do bico”.

Casé, Ananias, grandes mestres de pedreira. Carlinhos, Gadinho, Genival. Tantos outros. Gente boa.

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