As sete vezes em que vi Allen Ginsberg
O mais famoso poeta da geração beat completaria 100 anos neste mês de junho
TEXTO Marcelo Abreu
02 de Junho de 2026
Foto Divulgação
Uma série de eventos marcam, a partir deste mês de junho, o centenário do poeta norte-americano Allen Ginsberg (1926-1997), ícone da geração beat e da contracultura. De Berlim a Santiago do Chile, de São Francisco a Londres, a figura de Ginsberg é cultuada pelos muitos anos que passou agitando o cenário poético-cultural-místico das grandes cidades do mundo. Ginsberg nasceu em Paterson (Nova Jersey), na área metropolitana de Nova York, em 3 de junho de 1926, neto de judeus que imigraram do leste europeu. Nos anos 1940, estudando na Universidade de Columbia, conheceu Jack Kerouac e William Burroughs e se interessou por poesia. Tornou-se, naturalmente, um dos fundadores do ambiente boêmio-existencial-literário que viria a ser conhecido como a Beat Generation, grupo seminal de artistas que - regados a álcool, drogas, sexo, espiritualidade e jazz - desenvolveram uma nova sensibilidade jovem em relação ao mundo e influenciaram a contracultura das décadas seguintes.
Em recitais, entrevistas e publicações, o engajamento político, a defesa do uso de drogas como forma de expansão da consciência e a abertura para questões sexuais tornaram Ginsberg uma presença constante na cena cultural, desde 1957, quando ficou famoso com seu poema “Uivo” (Howl), com a famosa frase de abertura: “Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa / 'hipsters' com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite...”.
Como se vê no seu verso mais famoso, seu estilo era confessional, discursivo, espontâneo, livre de rimas. Nele se ouvem ecos da tradição de Walt Whitman e William Blake. Revelações, delírios místicos, comentários políticos, experiências com drogas e sexo, a banalidade do cotidiano, tudo entrava no caldeirão de Ginsberg. Apesar de polêmica, era uma poesia que exalava uma certa doçura em relação à humanidade.
“Uivo” foi primeiramente lido na Six Gallery, de São Francisco, num recital que entrou para a história. No ano seguinte, o poema foi considerado obsceno e sua primeira edição foi apreendida (e depois liberada num julgamento que o tornou famoso nacionalmente). Até hoje o poema está disponível pela mesma editora, a City Light Books, de São Francisco, do também poeta beat Lawrence Ferlinghetti.
A atuação de Ginsberg atravessou fronteiras. Viajou e morou durante um ano e nove meses na Índia (entre 1962 e 1963), antecipando em alguns anos a fascinação do Ocidente em relação à espiritualidade oriental. Esteve em Cuba apoiando a revolução de Fidel Castro, mas se decepcionou com o tratamento dado aos homossexuais na ilha. Em maio de 1965, ele estava presente no início da chamada Primavera de Praga e foi eleito pelos estudantes como o “rei de maio”. Aproveitou para escrever o poema “Kral Majales” (“Rei de maio”) no qual atira para vários lados, como se pode ver nesses versos soltos pinçados do poema:
“Os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado [...] e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos. [...] e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde, e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco [...] E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada”.
No mesmo ano de 1965 participou do International Poetry Incarnation, um evento coletivo de poesia no prestigioso Royal Albert Hall, de Londres, que reuniu 7 mil pessoas e entrou para a história. Fundou a Jack Kerouac School of Disembodied Poetics como parte do Naropa Institute, no estado do Colorado, hoje uma universidade dedicada a estudos literários e budistas. Continuou agitando pelos anos 1970 e 1980, cantando mantras, lendo seus poemas em público, envolvendo-se com nomes do rock, como Bob Dylan.
O poeta participou de experiências pioneira realizadas pela CIA sobre o uso do LSD e depois circulou com Timothy Leary e Ken Kesey que utilizaram a droga em experiências mais amplas. Por tudo isso, com sua longa barba preta e óculos de armação marcante, a imagem de Allen Ginsberg tornou-se um ícone dos anos 1960, assim como a dos Beatles e de Che Guevara.
No outono de 1990, Ginsberg estava estabelecido como um dos maiores nomes da literatura norte-americana. Aos 64 anos, transitava entre o reconhecimento acadêmico e o underground de Nova York, fiel aos preceitos do movimento beat que ajudou a criar nos anos 1950. Não usava mais as batas indianas, a barba longa, os colares. Agora era o tempo de terno e gravata discretos. Às vezes usava também uma bolsa tiracolo feita de tecido colorido, destoando do paletó. Foi nesse contexto que tive a oportunidade de vê-lo algumas vezes na cidade. Primeiro, numa palestra na Rua 63 junto com o poeta caribenho Derek Walcott (1930-2017), quando Ginsberg recitou alguns poemas. Na mesma noite, atravessou a rua para, no saguão de um YMCA (misto de alojamento barato e academia de ginástica) participar de uma recepção e dar autógrafos em seus livros. Aproveitei para fazer uma rápida entrevista. Perguntei se pensava em ir ao Brasil, talvez numa das bienais de livros. “Eu preferia ir ao Carnaval”, respondeu. Pensando bem, o Carnaval ou qualquer outro evento dionisíaco combina melhor com a filosofia de vida hedonista dos escritores beats. Nesse evento foi distribuído um folheto anunciando uma leitura de poemas no domingo seguinte, numa igreja protestante, a St. Mark’s Church, na Segunda Avenida.
No domingo, eu estava lá para ver Ginsberg novamente, que desta feita se apresentou acompanhado pelo poeta soviético Andrei Voznesensky (1933-2010), que avisou ironicamente: “Não se assustem, vou ler em russo”. Ele era da geração que viveu a relativa liberação criativa pós-Stalin, algo próximo ao universo de Allen, que, sendo de esquerda, confrontou os comunistas em Cuba e na Tchecoslováquia.
Dali a pouco tempo, em 17 de janeiro de 1991, os Estados Unidos iniciaram o que hoje se conhece como Primeira Guerra do Golfo, invadindo o Iraque para tentar destronar Saddam Hussein e libertar o vizinho Kuwait. Dias depois, lá estava Ginsberg nas ruas de Nova York participado de um protesto contra a guerra. A concentração foi em frente ao Rockfeller Center, onde no passado, em um daqueles prédios, ele havia trabalhado na sede da agência de notícias Associated Press. Allen usava uma cartola de Tio Sam e uma jaqueta com listras vermelhas e azuis (de tom prateado), um visual que ironizava a bandeira dos EUA. O slogan gritado era: “Hell, no, we won’t go, we won’t fight for Texaco” (algo como “De jeito nenhum, nós não vamos, não vamos lutar pela Texaco”), referência aos interesses das companhias petrolíferas no Oriente Médio.
Poucas semanas depois, nesse já quase stalking literário, vi Allen Ginsberg num pequeno bar escuro, no térreo de um daqueles prédios decadentes típicos do East Village onde ele morava. Naquela noite, ele leu poemas ao lado do excêntrico escritor inglês Quentin Crisp (1908-1999), uma figura do underground literário de Nova York. Ícone gay, dândi e famoso pela ironia, Crisp radicou-se nos Estados Unidos no final dos anos 1970 e viria a inspirar o cantor Sting a compor a música “Englishman in New York”, sucesso de 1987.
Dias depois, também no East Village, Ginsberg estava numa livraria da Terceira Avenida participando de outro pequeno evento. Nessas apresentações ele cantava mantras, tocava um sininho tibetano e lia poemas como “América”: “América, eu lhe dei tudo e agora não sou nada [...] Quando acabaremos com a guerra humana? [...] Não estou legal, não me encha o saco [...] quando você tirará a sua roupa?”
Mas talvez o encontro mais significativo tenha sido o recital realizado no coração do Greenwich Village, na praça conhecida como Washington Square Park, esquina com a MacDougal Street. Em uma espécie de centro comunitário, Ginsberg chegou acompanhado por ninguém menos que o também mítico poeta beat Gregory Corso (1930-2001), que trazia na mão um litro de uísque bourbon e esbravejava contra o estado da literatura norte-americana.
Dois anos e meio depois desses encontros, de volta a Nova York, pude constatar que Ginsberg continuava circulando ativamente na cena político-cultural da cidade. Em agosto de 1993, houve um evento para marcar a recuperação do Tompkins Square Park, desta vez uma praça no East Village que, havia anos, estava ocupada por pessoas sem teto e tinha virado uma terra de ninguém, um território sem lei. Num sábado à tarde, revezaram-se bandas de rock e poetas num palco montado e Ginsberg apareceu para dar o seu recado e apoiar a recuperação do local para uso dos moradores do bairro.
MARCELO ABREU, jornalista e autor de livros de viagens