Literatura

Um amigo generoso atormentado pela miséria humana

Raimundo Carrero imprimiu uma marca pessoal na literatura brasileira contemporânea que vai da influência do Movimento Armorial ao experimental e à intertextualidade, criando personagens únicos e desconcertantes

TEXTO Marcelo Pereira

17 de Junho de 2026

O escritor Raimundo Carrero com uma foto de seus pais

O escritor Raimundo Carrero com uma foto de seus pais

Foto Leopoldo Conrado Nunes

Raimundo Carrero foi um dos escritores mais generosos que eu conheci - opinião que alguns de seus (poucos) desafetos talvez não compartilhem. Seus amigos, admiradores e alunos sabem disso e se manifestaram publicamente ao saberem de sua morte, deixando testemunhos na despedida.

Ao longo de mais de três décadas, tivemos uma amizade solidária, baseada no respeito e na admiração. Carrero, escritor já consagrado, acolhia os jovens repórteres de cultura que o procurava. Eu era um deles, nos anos 1990. Grande negociador, colocava-se sempre à disposição, marqueteiro de si mesmo. Em troca de uma conversa amiga e nada professoral, cheia de frases e opiniões contundentes, que levantavam qualquer reportagem ou entrevista, ele vendia seu peixe, pois sabia que, se não se envolvesse diretamente na divulgação de sua obra, não seria o pessoal de divulgação e venda das editoras que fariam este trabalho.

Carrero não deixava transparecer incômodo se o entrevistador conhecia ou não sua vida e obra. Até porque se comprazia em contar sua agitada passagem neste mundo e os prazeres, pecados e dificuldades que vivenciava enquanto construía uma obra que ficasse viva e ardente na posteridade.

A generosidade de Carrero também está distribuída entre seus alunos da oficina literária, pioneira em Pernambuco, talvez no Nordeste. Leitor voraz dos clássicos da literatura universal e dos melhores autores brasileiros, era também aberto às novidades literárias. Ao longo dos anos, ele foi formulando se não um método uma reflexão sobre as técnicas de construção de uma obra de ficção, oferecendo aos alunos ferramentas para que desenvolvessem suas histórias.

Carrero tinha prazer em ler os textos que recebia deles, opinando, sugerindo correções e caminhos. Incentivava-os escrevendo prefácios, por vezes exagerados nos elogios, e organizando coletâneas. Preferia pecar pelo excesso e não pela omissão.

Ao propor escrever a sua fotobiobibliografia A fragmentação do humano (Ed. Caleidoscópio, de Gisela Abad), Carrero acolheu de braços abertos a iniciativa. Franqueou seu acervo de recortes de jornais, que serviam de pesquisa para seus contos e romances, e de fortuna crítica de sua obra. Emprestou, ainda, as primeiras edições dos livros. Esse material serviu para a escrita do texto sobre a recepção da obra dele na imprensa e entre seus pares, principalmente, e para coletar os prefácios que apresentavam sua obra até então.

Gravamos algumas conversas, uma delas no Dom Pedro, um reduto dos jornalistas analógicos; outras, no seu apartamento no Rosarinho. Em meio a tronitroantes gargalhadas e algumas pausas para reflexão, Carrero se revelava, sem se furtar a responder qualquer pergunta. Falou mais do que eu lhe perguntei. Se há lacunas no livro, a culpa não é dele, com certeza, mas de quem o escreveu e não soube de mais coisas perguntar.

A fragmentação do humano fez parte de um projeto maior que idealizei, produzido por Andréa Mota, em comemoração aos 60 anos de Carrero, que foi coroado com a entrega da Comenda dos Guararapes. Clara Angélica dirigiu o documentário Caçador de assombrações, que dialogava com o livro, gravado no Recife, Salgueiro e Orobó (onde escreveu Bernarda Soledade - A tigre do Sertão). Complementava o projeto a reedição de seus três primeiros livros - além de Bernarda Soledade - A tigre do sertão (1975), As sementes do sol - O semeador (1981) e A dupla face do baralho - Confissões do comissário Félix Guegel (1984) - que formam a trilogia de Salgueiro. O livro recebeu o título O delicado abismo da loucura, com selo da Iluminuras. O projeto foi bancado pela Chesf, por intervenção direta do jornalista Jair Pereira, que havia, anteriormente, sucedido Carrero na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco - Fundarpe.

Uma década depois, Carrero topou se despir em um novo projeto: uma exposição multimídia, com curadoria e realização de Sidney Rocha, fotografias de Heudes Regis, textos de Ronaldo Correia de Brito, José Castello, Luzilá Gonçalves, do próprio Sidney e também de minha autoria, resultando num catálogo distribuído ao público. Complementava o projeto a tetralogia Condenados à vida, reunindo os romances Maçã Agreste (1989), Somos pedras que se consomem (1995), O amor não tem bons sentimentos (2008) e Tangolomango (2013).

Cheguei a ensaiar com Carrero uma atualização da fotobiobibliografia, até seus mais recentes lançamentos e abordando a sua luta pós-AVC e infartos. Infelizmente, não consegui conciliar a agenda e fiquei devendo a Carrero a nova edição, que planejei lançar nos seus 80 anos.

Uma trajetória radical

A trajetória literária de Carrero se inicia sob o impacto e a influência de Ariano Suassuna com o Movimento Armorial, presentes em Bernarda Soledade e As sementes do sol. Sombra severa (1986) já traz uma nova forma de abordagem mais realista. A paisagem sertaneja vai ficando para trás à medida em que o cenário de suas histórias vai se tornando mais urbano, como em A dupla face do baralho. Nesses romances/novelas, Carrero tensiona o passado arcaico, o patriarcado e o matriarcado e a violência social e política.

O universo carreriano se fixa no Recife a partir de Viagem no ventre da baleia (1987), que reflete os conflitos de terra e tensão política nos anos de ditadura e Maçã Agreste (1989), trazendo personagens já delineados em outras obras, inclusive o coronel Rêgo Barros, símbolo da decanência das oligarquias sertsnejas. Por sinal, a mobilidade de personagens (que nem sempre trazem o mesmo nome) torna-se uma característica interessante na construção do conjunto de sua ficção. Mostra a inquietação de um escritor que evita cair em uma forma, fôrma ou fórmula, sintonizado aos movimentos da escrita contemporânea.

Carrero sempre esteve atento e atuante diante das questões de seu tempo. Se nos anos 1970 deu guarita a militantes políticos perseguidos, na década seguinte engrossou os protestos contra a ditadura e participou das manifestações das eleições Diretas Já. Uma campanha política, inclusive, é o pano de fundo de O senhor dos sonhos (1990), obra de estrutura simples, onde às questões religiosas já explícitas desde sua estreia aparece de forma fervorosa no personagem Domingos de Oliveira, simbolo da humildade e da solidariedade cristã, tão vivas no pecador arrependido que era Carrero.

Testemunha de seu tempo, ele incorpora a luta pela redemocratização no romance Somos pedras que se consomem (1995). Também tratou do debacle do Centro do Recife, da boêmia e da violência urbana em Sinfonia para vagabundos (1992), romance marcado pela intertextualidade. Carrero radicaliza seu processo de escrita e tensão no experimental Ao redor do escorpião… uma tarântula (2003), em que a escrita desenvolve uma revolução helicoidal, com os personagens Alice e Leonardo mudando de posição na narrativa, marcada por sinais gráficos.

Há um destino trágico no desenvolvimento dos romances de Carrero, que atinge e desconcerta seus personagens. Existe o amor, o gozo e o prazer, mas em meio à dor. Quase não há alegria. Em O amor não tem bons sentimentos (2000), o escritor encara o tema tabu do incesto e da loucura com um lirismo brutal em meio ao desencanto do músico Matheus (ou Mateus). O tom delirante da narrativa fustiga o leitor. Seria uma sombria noite secreta (2011) expandirá os personagens Alvarenga, também músico, desencantado, que vive de migalhas alheias, e a Raquel, a prostituta do corpo social, dois amantes desesperançados e solitários.

Minha alma é irmã de Deus (2010) avança sobre a miséria da condição humana para fechar a tetralogia Quarteto áspero reunidos em Condenados à vida, recorrendo a personagens e situações de obras anteriores, entre os quais Leonardo, músico e pastor da seita mística Saldados de Cristo.

Em Tangolomango (2013), Carrero carnavaliza sua escrita e traz de volta a personagem decadente Tia Guilhermina, de O amor não tem bons setimentos, que nutre uma paixão em segredo pelo sobrinho Matheus e protagoniza um strip-tease na marquize do Cinema São Luiz, durante um desfile do Galo da Madrugada.

O senhor agora vai mudar de corpo (2015) foi um dos romances mais difíceis para Carrero. Ele expurga o sofrimento pelo acidente vascular cerebral (AVC) que impôs limitações físicas e causou dores ao longo dos seus últimos anos de vida. Os romances que vieram a partir deste momento crucial, mostram Carrero procurando a superação pessoal através da dedicação inabalável à literatura.

Criador de personagens femininos radicais e complexos, ele traz a questão do preconceito da sociedade patriarcal contra a mulher - notadamente quanto ao sexo e às questões morais - na novela Colégio de Freiras (2019), através de Vânia, uma jovem que vai para uma colônia penal sem processo legal, por ser a vergonha da família por sua conduta sexual.

A crítica social também surge de forma contundente em Estão matando nossos meninos (2020), no qual externa a revolta pela morte de crianças inocentes em operações policiais e a falta de perspectiva para a juventude, em meio à violência e miséria social.

Quis o destino que sua última obra tivesse por título A vida é traição. Carrero viveu entre o pecado e a oração, carregando o peso de ter perdido a figura sagrada da mãe. A vida não lhe deu conforto. A literatura era a sua salvação. O protagonista Solano traz todas as inquietações de Carrero ao longo de sua vida e de sua obra. Talvez por isso, e temendo, como temia o absurdo da existência, ele tenha dito que este romance derradeiro fosse sua “carta ao mundo”.

MARCELO PEREIRA, coordenador de edição das revistas Continente e Pernambuco

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