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Ruptura iminente

TEXTO Karina Buhr

13 de Janeiro de 2022

Ilustração Karina Buhr

"Ruptura iminente", deu no jornal. Olhei de primeira e achei que fossem as desventuras do exército e do presidente e, enquanto entendia que o que rompeu foi a barragem, que era de novo lama criminosa sobre Minas Gerais, e ficava tonta pelo andar em círculos de um país abandonado, sugado e cuspindo os ossos dos mortos, rejeitos moídos de gente, sentia a canela dormente, o joelho duro e um calor pesado.

A vizinhança tosse profissionalmente, acordes de toda nota, todos doentes ao redor e quem não está parece esperar sua vez. No meio disso, o discurso da gripezinha atravessou fronteiras dos pensamentos, inundou, que nem a papa sebosa de restos de minério. Vai fazer dois anos desse inferno. Ônibus lotados, testes caros, não sentimos esperança, gosto, nem cheiro, se quiser se cuidar tenha sintomas, mas também tenha dinheiro.

De manhã, tarde e noite. Nos falta o ar em todos os sentidos. Um inimigo invisível e um bem concreto, os dois acordadíssimos. "A tendência é piorar", dizia um amigo meu, há muitos anos, mas nunca a tendência piorou tanto, até que não tem mais pra onde ir e aí piora de novo. Isso não parece crônica de janeiro, não trago uma grama de esperança. Até tem, se tirar tudo de dentro da bolsa, acha, mas ela é no crédito e só cai lá pra outubro, quem sabe.

Queria uma volta de barco pela minha cidade, teletransporte, por favor, tudo evolui, menos isso! Ver as pontes de baixo, cada viga, ferrugem comendo, tinta óleo cobrindo o comido por cima, lixa é para os fracos, cada arbusto, quase árvores, crescendo invertidas debaixo dos viadutos aquáticos, cada madeira, pixo, lodo, cada tufo de resto de manguezal cada galhinho do que a gente finge que pensa que é resto de manguezal, mas é qualquer outra coisa, bonita, seguimos fingindo. A hélice do barquinho talvez enganchasse na linha do pescador de cima da outra ponte e começasse uma negociação sobre desistir do anzol e tentar ainda desembaraçar o nylon. É muita ponte mesmo, sempre esqueço quantas são, o que me dá aquela novidade fresquinha toda vez que alguém diz a quantidade certa, pra depois eu esquecer de novo. Pular no rio dali de cima, que nem os pirráia, nadar sem cansar, tudo que tiver direito dentro do impossível, qualquer perigo de afogamento é só flanar naquela água linda e suja, passa cavalo morto, passa sofá, boiar com um salva-vidas mais alaranjado do que boia, até perto da borda, esbarrar com uma capivara criança e ver de perto a garça-azul mestiça, que era raridade e agora, olha que beleza, é comum.

Uma das melhores coisas é se alienar um pouquinho, dar aquele mergulho que espera há tantos anos e sabe lá se um dia vai dar, só pra ficar perto dessa vontade, mas pode ser também uma das piores, visto que na volta pra realidade pode ter acontecido de um tudo no Brasil, essa é inclusive a hipótese mais provável, e do susto você não se recuperar. Retiro então o que eu disse, o melhor é mesmo ficar mergulhada na merda, porém atenta e olhando sempre pros lados, pro risco de trem desgovernado, de talvez pedir ajuda, ou conseguir ajudar alguém que está precisando e assim ir indo nesse ano absurdo, melhor que o outro, depende. As pessoas que você perdeu no outro fazem dele pior que este, mas neste você viverá sem elas, a ideia de melhor depende, sempre, e tudo isso, no meio da falta de estandartes, bonecos gigantes e fartura, misturada com um possível vislumbre de horizonte calmo e justo, enquanto aguardamos o próximo evento climático extremo.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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