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Passa mais tarde

TEXTO Karina Buhr

15 de Setembro de 2021

ILUSTRAÇÃO Karina Buhr

Como foi o caminho até partir a fita de chegada? Hoje é dia de lembranças, daqui a pouco é Natal. Falta muito tempo e assunto falta também, comprimo os meses e faço estar perto, feito meia receita. Nasci numa cidade longe, bem pertinho dela mesma. Eu tenho um fenômeno, que é as pessoas terem certeza que eu não nasci lá, parece que não pareço com as pessoas que parecem ter nascido lá, e aí, do nada, no meio de uma conversa, "você nasceu onde?", respondo "aqui". A resposta não satisfaz e "aqui, onde?" e não entendo se ela quer que eu diga o bairro, a rua, ou o hospital e desisto. Às vezes falo, só no pensamento, uma frase ridícula e decorada, "nasci aqui, vinte anos antes de você". Algum orgulho é necessário que se tenha. E sinto saudade.

Não lembro do aniversário de quase ninguém, mas recordo detalhes da festinha de três anos, as primeiras velinhas com meu irmão presente, minha mãe pintou duas cabaças grandes de Barbapapa e Barbamama e um monte de cabacinha de barbapapinhas. Quem não entender é porque nasceu depois, eu nasci vinte anos antes. Vim pra cá pequena, com oito anos, minha mãe me lembrou que foi com sete. Faz tempo isso, o mundo já se acabou, bem diferente do jeito que eu achava que ia acabar, e está na hora de voltar para casa.

Enjoei do meu jeito de falar, já não sei se meu sotaque é meu mesmo, de tanto que treinei pra mudá-lo quando era pequena, vinda de outro estado, pra poder me enfiar na sociedade escolar e ser devidamente aceita. E fazia o trabalho de volta quando ia, nas férias, visitar meu pai. No colégio, tive sucesso em mudar a dicção, só não aceitaram muito o resto do pacote. Mas não é nem isso que me agonia, é o meu jeito mesmo, será que consigo outro? Dessa vez não é nem pra me enfiar, é pra desenfiar, ejetar, despregar a astronauta do foguete. Outro dia fui num mapa astral, planeta pra tudo quanto é lado, ascendendo, descendendo, lua, sol, deram meu laudo. Touro com Touro. No que a mulher fez uma cara estranha, perguntei se isso era bom e ela "querida, se desse pra trocar...". Ainda disse que esse ano não ia ter nada de bom pra mim, nem no dinheiro, nem na saúde, nem no amor. E eu nem perguntei de amor, eu lá pergunto de amor! Isso era começo de ano, como é que a pessoa faz uma coisa dessa com a outra? Tem gente ruim em todo canto, até observando as estrelas. 

Touro com Touro é apego e gulodice, já de saída é dois pecado. Falo os plural sem esse, repito demais adjetivos, por exemplo, não tenho substituto para maravilhoso. Maravilhoso me basta e também me cansa, mas ajuda a abreviar situações. Uso o tempo que sobra depois de me livrar de algum conflito com maravilhoso, para visitar o lá no interior da minha mente, eu sozinha ali, até aparecer outra demanda. Fico lá tomando um chá. Só acontece na fantasia, no de verdade nunca tomo chá, só quando estou doente, mas acho bonito e costumo melhorar da doença. Tem mais características, mas por que eu estava falando disso mesmo? Para falar das duas cidades e eu no meio delas. São três cidades. 

Queria explicar do melhor jeito, campeã das descobertas do que a geografia faz por dentro da pessoa. Precisava ter um pouco de atleta, de competitividade, mas vim sem isso. Uma vez fiz natação, só para nadar mesmo, mas teve competição no fim do ano. Lá ia eu numa raia e uma amiga na outra, braçada grande, pernada imensa, ela nadava muito, mas naquele dia tinha alguma coisa errada, ela estava ficando pra trás e eu, achando estranho, reduzi minha pressa, até que ela parou e eu parei também. Pelo certo eu devia falar isso na psicóloga, ia me livrar de passar algumas vergonhas maiores. 

Essa amiga, que nadava muito e que parou e eu parei, acredita que encontrei ela um dia desses, depois de muitos anos, num salão de beleza e ela fingiu que não me viu? E o salão era pequeno, rapaz! Eu cavei a olhada dela de volta, de todo jeito, sem sucesso. Fingi que ia pegar um troço que caiu, derrubava mesmo uma coisa pra fazer esparro e ela nada. Eu na cadeira de botar cor, ela na de fazer unha do pé. Me arrependo amargamente de ter parado naquele dia na piscina, eu teria ganhado dela e já estaria vingada pra hoje. Fica a lição, quando tiver uma chance, vença.

Volto pra casa olhando pro chão, para fugir de eventuais conhecidos, não quero falar com ninguém, a pandemia não acabou e etc. Abraço, beijo, nada dessas coisas do passado. Se a tal da campeã de natação se atravessar na minha frente, vai ter que implorar pra trocar palavra e vai ouvir "passa mais tarde".

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