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Mastigadinho

TEXTO Karina Buhr

14 de Dezembro de 2020

Ilustração Karina Buhr

Hoje eu gostaria de correr o risco do tubarão de Boa Viagem me comer num banho de mar distraído.
Nada a ver com Jonas, a baleia que come o sujeito na filosofia, com tubarão é na base dele, trituração, deglutição, sem reflexão. E não tem espaço pra ficar lá dentro, o perímetro do bucho desse bicho é bem menor, mas se tivesse espaço também não adiantava mais, relembrando, eu teria passado pela trituração etc.
Antigamente eu tinha essa informação sobre perímetros, uma conta com o diâmetro, o raio, na época que eu era um falastrão cheio de opinião. Hoje sei mais nada de perímetro, nem de nenhuma equação, sei que é a medida da circunferência por alguma coisa. Sei não.
Entendo um pouco desse assunto, meio pouco, muito pouco.

Não era no sentido figurado o peixe cheio de dentes de flecha, era destruição mesmo, acabar com essa palhaçada, virar uma pasta mastigada, se parecer o menos possível com gente.
Quando eu era anterior a essa criatura que sou agora eu tinha esse mesmo discurso, mas era mentira. Agora eu, com a graça de emanar coerência em todo o percurso, repito o mesmo discurso, mastigadinho, na decoreba da sinceridade.

De notícias terríveis em notícias terríveis, diariamente, da pior de todas a mais pior de todas ainda, o sujeito amortece a queda e a queda amortecida, perde o sentido. Uma queda com almofada, muitas dessa por dia, como que quase nada, feito fome pouca, coisa discreta, escondidinha de charque, passa batida.

A classe média tem feito muita yoga, mas o efeito, parece, não tem ido muito além dos limites dos colchonetes. Ouvir da mulher do consultório que a culpa toda vez é minha também não tem me feito fazer melhor da próxima vez, no máximo uma ansiedade aumentada.
Vou mudar de ideia, vou varrer a casa, há duas semanas tá só camada de lixo, começar a acreditar em energias benéficas, fazer uma vassoura de arruda, transcender a inércia.

Hoje é dia de resguardo de novo, pro cidadão que pode resguardar, que come apesar de, que mora apesar de, um cidadão verdadeiro, apesar de. Meu esforço não parece nada, minha culpa me paralisa. Meus colegas recomendaram buscar ajuda, mas não sinto que mereço. Queria secar aqui esturricado, feito bacalhau com lençol de moscas comuns, umas varejeiras salpicadas pelo meio.

Eu podia tomar um leite podre, minhas possibilidades de destruição são realmente ridículas, mas sim, às vezes um leite muito podre mesmo pode fazer um estrago tipo fenômeno.
Leite pode, fui tomar, gosto de coalhada, péssimo mesmo. Não passa nada.

O caos é grande lá fora, ainda bem que é lá fora, desculpa, bate na boca, gratidão, mas a gratidão por isso também é estranha, qual seria o motivo? Merecimento? Os argumentos são falhos e sempre me mandam de volta pras aulas de catecismo, mas não quero polemizar, veja bem, sou só um cidadão masculino tentando entender, na observação detalhada, tomando coalhada podre e paciente no esmerilhar dos argumentos da gratidão. E aí o muito obrigado acabo achando mais coerente.

Andei na rua mais cedo, depois de ter acordado tarde e perdido o primeiro horário, peguei o ônibus não tão cheio e esperei na frente do prédio, vendo o povo passar. Acho que sou o mais tranquilo do trabalho e o menos tranquilo da rua, todos que passam parecem relaxados, como vindos de um outro tempo, uma dimensão aqui do lado e que quando caíram nessa receberam uma máscara de enfeite, pra usar cada qual conforme sua preferência.

Queria ser muito louco, sangue nos olhos, arapucar monstros, fugir pra um lugar de natureza e contemplar o sentimento de vingança, enquanto tomo um banho de rio morno ou um chá de hortelã pimenta. Mas fugir configura um não-heroísmo.
Por outro lado, a intenção não era ser herói. Ou era?
Tá tranquilo. Hoje era só mesmo o tubarão.

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