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Caderno de caligrafia

TEXTO Karina Buhr

15 de Dezembro de 2021

Ilustração Karina Buhr

Na parede do quarto, duas dezenas de post-its, dos grandes, e outra dezena dos pequenos, com datas dos poucos compromissos do mês e marcados com um risco em cima os que já realizou, como troféus, mostrando que deixou de fazer muitas coisas, mas fez várias também. Cada recado colado, sem muita coerência na escolha das cores, mas fingindo que sim, um risco pra um lado, verde, pro outro, lilás, deve indicar mais organização com a respectiva obrigação. Em dezembro tudo piora a ansiedade e, no pior entre todos os tempos e governos, piora mais ainda o pior dos mais péssimos momentos entre os mais terríveis de todos.

Acordou com uma frase bonita na cabeça, de desejos de bons tempos, esperanças, essas coisas, se sentiu muito bem e pensou em escrever cada pedaço dela num papel quadradinho desses da parede, fazendo uma guirlanda em cima dos que lá já estão, mas pra quem? E ainda ia parecer mais São João do que Natal. Tudo o que tem a ver com se sentir bem, ele estraga sempre. Melhor também não forçar chamar atenção, vai fazer o quê? Postar? E se é pra ele mesmo não faz muito sentido. Ele às vezes concatena direitinho, escolhe as palavras certas, algumas coisas dá até para os outros lerem sem franzir de cenho. Mas aí vem o chicote do fantasma da aprovação. Mas, moço, é na parede do seu quarto, ninguém vai ler mesmo, há quanto tempo não vai ninguém aí e pra canto nenhum você vai se deslocar, pois acredita na morte mais que em qualquer coisa. Ei, eu sou sua consciência, pode pendurar os seus dizeres na paz, é tempo dela, tá em casa.

Estão todos nos bares, não que ele se ache melhor que ninguém, se acha até pior, mas é bom de cálculos, desde que era uma criança um pouco chata, olhos apenas para as tarefas de casa e mais nada nesse mundo. O vírus mortal fica suspenso, tinha na revista que podia ficar entre vinte minutos e quatro horas boiando no ar da casa fechada, então espera sempre um pouquinho mais que quatro horas para entrar desprotegido num cômodo onde passou algum vivente, claro, as partículas direcionadas a ele não seriam as de vinte minutos de suspensão, seriam as de todos os minutos de cada uma das quatro horas, elas tinindo, cem por cento de aproveitamento, servindo algoritmia. A agonia também é sobre os efeitos, ele não é uma pessoa assintomática, não seria algo leve, seria muito, mas muito fatal.

O coitado não está satisfeito com o enredo, acorda e vai dormir sem novidade e com a certeza de que se algo novo vier, o nome será doença. A vida do hipocondríaco – aqui ele se manifesta, requebra a rabeta na cadeira, o nome não é esse, ele é sim precavido, organizado, coerente, responsável, com senso de coletividade – é sair na frente, se preparar, é que alguém tem que cumprir o papel e as leis, mesmo que elas não tenham sido feitas, mas o sentido delas exista, indicar para a sociedade o caminho correto, nisso ele também é bom, olha aí, já são duas qualidades acumuladas.

Todos próximos do fim do ano e o cidadão encarando como o fim de fato, não aguenta mais, chega disso. Perde os momentos de anotar tudo no diário, quando vê passou um mês sem uma linha, jura que vai registrar tudo, os netos vão ler, olha como era no tempo que vovô viveu uma pandemia ensandecida, que morriam mil, duas mil, três, até quatro mil pessoas por dia só dessa doença no Brasil, que teve um presidente que matou um país e disse que era melhor perder a vida do que exigir vacinação. Mas nosso personagem principal não escreve o que diz, só vive o presente péssimo, os netos que se virem para se informar sobre essa desgraça de época. As letras tortas, não entende mais uma palavra de sua escrita no papel, o teclado levou o caderno de caligrafia para a lata de lixo da história. No tal recipiente, somente mesmo o caderno e mais alguns objetos obsoletos, tirano lá não tinha nenhum, deve ter sido até um deles que inventou essa anedota da lata de lixo.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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