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Bom pra saúde, ruim pra saudade

TEXTO Karina Buhr

16 de Novembro de 2021

Ilustração Karina Buhr

Para uns é quase verão, para outros sempre é. A gritaria da escola da frente me lembra que estamos vivos de manhã. De noite, a cidade no volume alto, do jeito que eu esperava o ano todo para chegar, agora com um medo que se espalha feito carnaval, até o ponto de esquecer que é veneno, e indica que talvez seja cedo, enquanto também é tarde demais. Novembro esquisito é esse, como também foram janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro e outubro desse ano e do ano passado, e ainda dezembro, só que diferente. Agora com mais sede de viravolta, um tipo de falta d'água com o líquido congelado no meio, entupindo, goela tensa, me enquadro em algum degradê desse balaio. Ontem teve orquestra na rua o dia inteiro, inteiro mesmo e, daqui de casa, a dúvida se passaria pelo portão ou era festa fechada, a garganta ameaçava fechar um pouco, a bombinha ao alcance dos olhos, uma vontade de ir pra bem longe, depois de passar quase dois anos querendo vir pra perto. Distante é mais seguro, o frevo que a gente não vê o coração não sente. Como se diz, bem aqui mesmo, na minha terra, "melhor seria se pior não fosse". 

De ontem pra hoje disseram que morreram zero pessoas no estado de São Paulo, mas no momento estou no estado de Pernambuco e ontem morreu outro amigo. Zero é um número distante, embora venha antes. Sigo sem convivência, esturricada de saudade dos meus mortos e dos meus vivos. Trabalhamos com discalculia, mas nos últimos tempos somos somente números, projetamos riscos, se vale correr por cima se fazendo de nem te ligo, variar grama e quilo quando é para trabalho ou só orgia, se conta a distância, o tempo, se temos alguma serventia no montante total. A impressão é que todo mundo está valendo um pouco menos, com exceção dos milionários, se já morreu esse amigo aqui e esse e esse, meu deus, como pode esse aqui ter morrido? E mais aquele outro e aquele outro também, meu deus, como assim aquele outro também morreu? Dessa forma se segue em frente, cada dia ao contrário do preço da comida e se a gente for embora amanhã, já fomos tarde. Será que vai ter graça depois? Pra muitos nunca mais vai ter, pra também muitos falta tanto agora, que não faz sentido imaginar o depois. Prospectar o depois é para os não diria tranquilos, de jeito nenhum, mas para os viventes menos desesperados dentro dessa mediocridade que é algum tipo de relaxamento no epicentro do inferno. 

Um sol para cada um aqui nesse quarto, mas circulação de ar, muita circulação de ar, a louca da circulação de ar, abram as janelas, está voando tudo, ótimo para a saúde, deixem circular o ar. Respirar essas partículas de vento regenera, elucubra a otimista adormecida nesse corpo, tem alguma cura nelas, agrega tempo de vida e a euforia momentânea lembra que pensamento positivo não faz melhorar, só ter impressão. Máscaras boas, use máscaras boas em ambientes fechados, o governo precisa distribuir máscaras boas, o governo não vai distribuir máscaras boas, pelo menos nessa pandemia, mas dizem que terão outras, sempre é possível acertar depois, só não é comum. Nesse momento a escola do outro lado da rua incorpora os anos oitenta, menino contra menina, num jogo de queimado, aula de educação física na classe média. Na janela, a quentura derretendo, por embaixo de vendaval que esteja, o resto de gordura no prato, a toalha de banho sendo de mesa, as três formigas, os gritos da hora do recreio, um doce seria bom, um doce seria fenomenal, mas não vou. Com doce eu durmo, perco a ebulição, o prazo de entrega e ainda boto a culpa nas crianças fardadas. 

Seria bom um brinde, uma comemoração, uma vontade qualquer uma, só pra tirar uma dúvida aqui, uma empolgação coerente com esse céu de agora, que, se você olha só para ele e corta toda a parte debaixo, a certeza de estar no mar é segura. Serve para se enganar de novo, o cérebro se entorpece instantâneo e você aproveita para resolver alguma coisa, burocracia emperrada, serviço por terminar. Logo ali na frente seu juízo vai perceber que levou um rodolero, aí você arrodeia novamente e repete. Se tiver anoitecido, perdeu a vez, depois você tenta de novo, porque antes do fim do mundo tem o fim de todo mundo, derretemos antes das placas e enquanto você estiver viva é sinal que não morreu. Amanhã, o sol.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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