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Entrevista

“Uma vida sem amor seria tão sem graça”

Animada com seu novo álbum, a cantora e compositora Duda Beat dá uma entrevista exclusiva sobre o disco ‘Te amo lá fora’, um encontro de amor, coco, 'piseiro' e cultura pop

TEXTO Erika Muniz

25 de Maio de 2021

Duda Beat no ensaio de 'Te amo lá fora'

Duda Beat no ensaio de 'Te amo lá fora'

Foto Gabriela Schmdt/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

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Quem nunca teve uma desilusão amorosa que atire a primeira carta de amor. Passar por esta vida, principalmente na era das redes sociais, sem nunca ter vivido uma paixão que não rolou, é algo meio difícil. Claro que há paixões e paixões. As mais intensas e marcantes, que, quando findam, demandam mais tempo de recuperação; e as mais efêmeras, que costumam ser lembradas aos risos nos encontros com amigues. Seja como for, tanto uma quanto a outra podem servir de matéria-prima para a criação artística, embora os perrengues do coração como ponto de partida criativo não seja nada de outro mundo. Pelo contrário, é até bem frequente que dores de cotovelo e pés na bunda sirvam de mote para a composição de canções, álbuns inteiros, poemas, romances, filmes ou videoclipes. Alguns artistas chegam, inclusive, a afirmar que encontram nesses processos uma maneira de ficar de boa. O cancioneiro popular é permeado de histórias dessa natureza, em diferentes épocas, vivências, regiões e gêneros. E quem produz músicas nesses temas, muitas vezes torna-se parte da trilha sonora da vida de seus fãs.

Após juntar suas experiências no assunto, com muita criatividade e capacidade de tematizar as relações contemporâneas, a cantora pernambucana Duda Beat lança seu segundo álbum de estúdio, Te amo lá fora (2021). Exatos três anos separam este novo do anterior, Sinto muito (2018), cujos hits Bixinho, Bolo de rolo e Bédi beat, por exemplo, a consagraram como talvez o principal nome da “sofrência pop na música brasileira da atualidade. Embora tenha iniciado sua carreira mais no cenário indie, Duda não se estabeleceu somente na cena independente, já que sempre quis ser ouvida por cada vez mais pessoas – e isso definitivamente ela já vem conseguindo. E com esse lançamento, a artista amplia ainda mais seu território de referências e públicos, sem perder a identidade de suas composições desde sempre.

Nos três últimos anos, Beat realizou feats com artistas de diferentes estratos da música brasileira, a exemplo da dupla Anavitória, Tiago Iorc, Mateus Carrilho e Jaloo, Lucas Santtana, Omulu, Rashid, Gaby Amarantos, Ferro, Illy e, recentemente, gravou um EP com Nando Reis. Além disso, a pernambucana se apresentou nos palcos de diversos festivais de música do país, entre os quais o NoAr Coquetel Molotov, em 2018, o Lollapalooza, o Rock in Rio e o MECAInhotim, estes em 2019. Em 2020, sua música Bixinho fez parte da trilha sonora da novela Amor de mãe, da TV Globo.

Essa miscelânea de experiências escoa também em Te amo lá fora, que traz influências de coco, piseiro – no caso dela, seria uma espécie de “pisindie” –, reggae, axé music, house e eletro pop. A grande variedade de estilos poderia resultar em um trabalho menos coeso, mas não é esse o caso. Dois elementos marcam – e alinhavam – as 11 faixas que tecem o disco: diálogos com manifestações culturais de sua região de origem e as modulações em torno das dores e delícias que envolvem amar alguém.

Enquanto em Sinto muito, a tal sofrência aparece de forma mais latente, em Te amo lá fora parece estar mais branda e pé no chão. O novo trabalho tem sido bastante abraçado pelo público nas redes sociais. Com ele, a cantora demonstra seu amadurecimento enquanto compositora, permanecendo interessada em criar em torno do tema que tanto persegue: o amor.

Na faixa de abertura de Te amo lá fora, há a participação especial de Cila do Coco, um dos ícones da cultura de Pernambuco. Nela, as batidas do coco e do maracatu se misturam, de maneira bastante orgânica, aos beats de Duda, Tróia e Lux. Na faixa Nem um pouquinho, há a participação do rapper baiano Trevo. Nesta, a cantora envereda pelo trap e pagodão baiano. A faixa Meu pisêro foi escolhida como o primeiro single, lançada meses antes, e já dava o gostinho do que estaria por vir no segundo disco. Com viradas de bateria à la Riquelme em Meu pisêro, Duda materializa seu encontro com o gênero piseiro, uma variação do forró que incorpora elementos da música pop internacional.

O videoclipe dessa música está disponível no Youtube e conta com mais de 1 milhão e meio de visualizações. A direção é assinada por Cristina Streciwik e traz referências do cinema da década de 1980, mais noir e dark. Sobre o processo de criação, no entanto, Duda comenta mais a seguir. Nesse novo álbum, a produção musical ficou a cargo de Lux&Tróia – que já vêm trabalhando com ela desde Sinto muito e, atualmente, integram sua banda.

Em entrevista à Continente, concedida por e-mail, a cantora Duda Beat revelou detalhes sobre as composições de Te amo lá fora, quais referências influenciaram o mais recente trabalho, de que maneira ela percebe o amor, além de revelar como foi a experiência de produzir um álbum durante a pandemia e suas inspirações na hora de escrever suas letras.



CONTINENTE O que mudou de 2018, ano de lançamento de Sinto muito, para cá em você enquanto artista?
DUDA BEAT Muita coisa mudou. Já caminhei com a minha carreira nesses últimos três anos, colaborei com muitos artistas que eu admiro, que contribuíram muito para o meu amadurecimento. Tenho os fãs que sempre me apoiam. O que não muda é o frio na barriga na hora de colocar um disco no mundo e esperar o que as pessoas vão achar, como elas vão interpretar aquelas músicas, se vão curtir, se vão dançar. Isso me mantém produzindo e sempre querendo fazer coisas novas.

CONTINENTE Seu novo álbum foi produzido durante a pandemia. Em que ponto o atual contexto se refletiu nos resultados do disco?
DUDA BEAT A atmosfera do álbum é completamente atravessada pelo momento em que estamos vivendo. Te amo lá fora tem um tom mais dark, mais melancólico, mais introspectivo. A pandemia fez esse “mergulho” ser ainda mais profundo, me vi muito ali comigo mesma. Por mais que as letras não falem deste momento em que estamos vivendo, a maneira como trato as coisas é impactada, sem dúvida. Várias vezes até me questionei se deveria ou não lançar um disco agora porque, diante de tanta dor e tristeza, parecia que o que eu tinha para falar era insuficiente. Mas, ao mesmo tempo, acredito muito que a arte salva, transforma. E fui em frente. Trabalhar nesse álbum me ajudou nesse momento e eu quero muito que as músicas também ajudem quem está ouvindo o disco.

CONTINENTE Sobre a identidade visual de Te amo lá fora, desde a capa à estética do clipe de Meu pisêro e também o styling. Queria que você comentasse as referências que norteiam o visual do disco, e também como você e sua equipe chegaram nesses resultados.
DUDA BEAT A parte visual está muito em conexão com aquilo que eu disse sobre a atmosfera ser mais dark, melancólica, introspectiva. Por isso, tem muito preto, modelagens mais justas. Saíram um pouco de cena os looks grandes e muito coloridos. Eu e o Leandro Porto, meu stylist, adotamos uma paleta de cores mais sóbria porque o visual tem que conversar com as músicas, com o que está sendo dito nas letras. Os trabalhos se complementam. Em Meu pisêro, já tinha dado um aperitivo do que vinha por aí. A ideia do clipe foi se inspirar nos clássicos de terror dos anos 1980, para falar desse amor que assombra. Quando a Cris, diretora do clipe, e o Marcelo Jarosz, meu diretor criativo, vieram com a ideia, topei na hora. Cabia muito dentro da história que queríamos contar.


Foto: Gabriela Schmdt/Divulgação

CONTINENTE Grande parte de seu repertório fala de amor e das dores e delícias que as relações podem vivenciar. O que o amor significa para você?
DUDA BEAT O amor é tudo! É o bom e o ruim, é a dor e a alegria. Uma vida sem amor seria tão sem graça.

CONTINENTE Gostaria que comentasse sobre a escolha do título do álbum, Te amo lá fora.
DUDA BEAT Acredito muito que os sentimentos não acabam, eles se transformam. Hoje, com uma distância dos relacionamentos que não deram certo, eu os vejo de uma outra maneira, com um olhar mais maduro e aceitando que mesmo o que não deu certo me ajudou a crescer, me ensinou alguma coisa. A escolha do nome quer dizer isso: “Eu te amo ainda, mas de um outro jeito, distante de mim, lá fora, porque aqui dentro eu me amo primeiro, eu me priorizo”. Quando estava escolhendo o nome do disco, lembrei de um episódio da (cantora mexicana) Thalía aqui no Brasil. Uma vez que ela participou do programa do Gugu. Ele falou que o Brasil a amava e mostrou que, fora do estúdio, havia várias pessoas que a amavam e estavam esperando por ela. Thalía então falou: “Te amo lá fuera” (risos).

CONTINENTE Em Te amo lá fora, parece existir um fio narrativo, no qual, a partir da faixa Game, mais ou menos, há uma mulher curtindo mais de boa sua relação e depois há uma nova mudança, com a decisão de esquecer. Faz algum sentido, a seu ver? Como foi pensada a disposição das faixas?
DUDA BEAT A disposição das faixas conta, sim, uma história. Conforme o disco vai evoluindo, a decisão daquela mulher de se priorizar também vai ficando mais forte, mais presente. Ela liga menos para os “joguinhos”. Ela se apaixona e é correspondida também. As letras das músicas vão contando essa evolução.

CONTINENTE Queria que você comentasse como foi ter a pernambucana Cila do Coco e o baiano Trevo nas participações especiais do novo álbum.
DUDA BEAT Foi muito especial! Dona Cila do Coco é um patrimônio da cultura pernambucana. Tê-la no disco, na primeira faixa, foi uma escolha consciente de exaltar as minhas raízes, o meu país Pernambuco (risos). Sou eu dizendo que a cultura da minha terra natal estará sempre comigo, não importa os caminhos que eu percorra. Já Trevo, eu conheci uma vez que me apresentei na Bahia e convidei a banda Underismo, da qual ele fazia parte, para participar do meu show. Ali, já fiquei fã (risos). Depois ouvi o disco que ele lançou em carreira solo, Nada de novo sob o sol, e fiquei mais fã ainda, querendo muito fazer algo com ele. Quando decidimos que (a faixa) Nem um pouquinho seria um pagotrap, tive certeza de que era ele que tinha que estar nesta faixa comigo. No começo deste ano, ele lançou um EP de pagode baiano. Fiz o convite, ele topou e nasceu essa faixa que eu adoro.

>> Ouça Nem um pouquinho.

CONTINENTE Duda, o que lhe inspira a compor? E o que serviu de mote para a criação de Te amo lá fora?
DUDA BEAT Compartilhar me inspira a compor. Compartilho minhas experiências, minhas desilusões, minhas alegrias também, como em Decisão de te amar. Escolhi falar de amor porque acho que essa é uma linguagem universal. Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou e sofreu, quem nunca teve o coração partido… Todo mundo passa por situações assim. Para mim, pessoalmente, é um processo catártico também, de dar sentido às coisas que eu vivi.

CONTINENTE Como foi produzir um álbum durante a pandemia?
DUDA BEAT Foi um desafio muito grande! Produzir, decidir lançar e ver como seria esse lançamento também, porque não estou podendo fazer show no momento. Eu sou uma artista de palco, esse momento de me apresentar é muito importante. Mas, enquanto isso, estamos já trabalhando em como será o novo show. Estou planejando fazer algumas lives para divulgar o álbum novo, vou lançar o próximo clipe, que será de Nem um pouquinho, em breve. E agradeço muito a imprensa toda, vocês estão acolhendo tanto o trabalho, falando sobre ele... Dar essa entrevista, para mim, é muito importante, é falar sobre Te amo lá fora para cada vez mais pessoas. Agradeço muito por isso!

CONTINENTE Você está trabalhando com Lux&Tróia, novamente. Queria que você comentasse essa parceria agora em Te amo lá fora.
DUDA BEAT Sim, estamos juntos novamente. É uma parceria muito linda. Digo que realizei o sonho de ter uma banda com meus amigos (risos). Nosso processo é muito natural, envolve muita escuta, e isso é lindo demais. Sempre que levo uma letra, eles me perguntam como eu gostaria de dançar aquela música e, a partir disso, eles produzem a faixa. Me sinto em casa, em família, trabalhando e colaborando com eles.



ERIKA MUNIZ, jornalista com graduação em Letras.          

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