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Entrevista

“Sempre vi na música uma ferramenta para contar histórias”

A artista pernambucana Gabi da Pele Preta solta uma voz potente em seu primeiro EP, com composições feitas por quatro mulheres e letras que ecoam autocuidado, feminismo e antirracismo

TEXTO Carina Barros

26 de Maio de 2022

Fotos Rafaela Amorim/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Resistência, potência e territorialidade estão entre as características marcantes da cantora Gabi da Pele Preta, nascida e criada no Agreste pernambucano. Ela conversou recentemente com a Continente por videochamada, para falar sobre o lançamento do primeiro EP, que carrega o seu nome no título e traz quatro canções inéditas, todas compostas por mulheres. Com 18 anos de carreira, a artista vem desenvolvendo e amadurecendo seu repertório desde 2016, seja em musicais, filmes, seja em palcos de teatro e show.

Esse álbum-manifesto traz letras elaboradas por Luiza Pessoa, Joana Terra, Isabela Moraes e Ezter Liu, que exprimem, em suas composições, a verve feminista e o espírito de luta e ancestralidade. É com muita potência vocal que Gabi se mostra grata pelos trabalhos desenvolvidos pelas compositoras, interpreta as canções e registra as histórias que trazem à tona debates sobre gênero, raça e classe social. 

Por meio dessa amplificação de vozes, ela mostra ao mundo um trabalho gerado com muito amor à música e à arte, principalmente com um enfoque em pautas sociais. O EP da cantora foi feito com o incentivo da Lei Aldir Blanc de Pernambuco e conta com a produção musical de Alexandre Revoredo, que acompanha a artista desde 2017.

Na conversa a seguir, Gabi da Pele Preta, bastante reflexiva, exalta o poder da mulher preta na sociedade e menciona grandes pensadoras como Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Elza Soares, Djamila Ribeiro e entre tantas outras mulheres que a inspiram e fazem parte de seu imaginário social enquanto artista. Comentando faixa a faixa, além de responder perguntas mais amplas, ela fala ainda sobre as dívidas históricas que o Brasil tem com os pretos e os povos indígenas na sociedade. Confira a seguir.


Foto: Rafaela Amorim/Divulgação

CONTINENTE Como surgiu a ideia do lançamento desse seu primeiro EP? 
GABI DA PELE PRETA A ideia de gravar o EP é o pressuposto de quem se propõe a trabalhar com música. Então, desde o princípio, quando eu penso em música, eu penso exatamente na história que quero contar hoje e no registro que pretendo deixar para o futuro. Até porque nós estamos vivendo um momento muito difícil na política, né? E aí percebo que a arte se faz mais urgente e eu sempre vi na música uma ferramenta para contar histórias e de propor questionamento sobre novas realidades. É a partir disso que entendo a gravação desse EP como um registro de uma narrativa que não é só minha e que não fala só sobre mim, mas que fala sobre outras mulheres, além das que me acompanham.  

CONTINENTE Gabi, e quem são essas mulheres que passam pela sua trajetória artística durante a produção desse EP?
GABI DA PELE PRETA Assim, eu trago nesse primeiro trabalho composições de quatro mulheres: Luiza Pessoa, Joana Terra, Isabela Moraes e Ezter Liu. São obras que elas produziram e que têm uma perspectiva mais politizada. As canções são bem feministas, militantes e têm um questionamento da realidade do sistema e daquilo que é ou não é justo na sociedade. As músicas, de fato, são muito poderosas, no sentido de propor outras formas de pensar e conseguem atingir o público que acompanha.  

CONTINENTE Com esse intuito de fazer com que as pessoas reflitam mais sobre as canções, a primeira música do EP, Canção para curar a voz, traz o canto do aracuã como algo simbólico, acolhedor e que traz algumas lembranças relacionada a dor. Você pode explicar um pouco sobre essa música?
GABI DA PELE PRETA Essa canção foi feita por Luiza Pessoa e, quando eu a conheci, estava passando por um processo de perda vocal, e quase sem voz eu continuei tentando montar um repertório autoral. Daí, começamos a conversar sobre essa música e fomos adentrando outros assuntos e aí foi quando eu falei pra ela que estava enfrentando um problema de perda vocal e a gente ficou tentando ensaiar diversas vezes, e essa voz não melhorava. Durante alguns meses, eu fiz fonoterapia e, mesmo assim, não obtive resultados. Então, Luiza disse: “Poxa, Gabi, eu imagino a sua angústia. Vou ficar aqui vibrando para que você se recupere logo”. Dias depois, ela me mandou a letra da música e a canção na verdade é um mantra de cura mesmo. Não é à toa que ela vem como capela, por que é uma música centrada na voz e eu costumo dizer que a voz é física, e é uma voz que você escuta. Então, Canção para curar a voz é quando nós falamos, manifestamos e sinalizamos para outras mulheres que elas também podem provocar uma revolução no sentido de uma mudança de comportamento.

CONTINENTE E qual o impacto dessa mudança comportamental hoje em uma sociedade patriarcal, onde a maioria das leis são elaboradas por homens? 
GABI DA PELE PRETA Então, hoje nós temos mais mulheres na política do que antes, né? E daí, nós começamos a ter uma perspectiva mais feminista dentro das leis, por exemplo, a própria Lei Maria da Penha. Benedita da Silva foi uma das deputadas que estimulou a questão do piso salarial para as empregadas domésticas, porque ela também já fez parte dessa categoria. A  questão dos absorventes gratuitos para estudantes e mulheres de baixa renda, por exemplo, por que essa lei passou a existir agora? Porque agora tem mais mulheres na política, sobretudo pautando sobre isso. Então, isso é uma mudança de comportamento, sabe? As coisas não são mais como antes, e nós mulheres estamos sempre lutando e resistindo. 


Foto: Rafaela Amorim/Divulgação

CONTINENTE Gabi, é por meio dessa luta que na segunda canção do EP, Palavra feminina, elaborada com a parceria de Joana Terra e Isabela Moraes, que vocês fazem diversas reflexões sobre a quantidade de abuso que é imposto às mulheres. Com versos como, “Abram essa prisão/ Chega dessa questão/ Aqui estamos nós/ Frente à situação/ Prontas pra ir e vir/ Livres para voar/ Parem de invadir/ O que é nosso lugar”. No entanto, existe uma grande diferença nisso, principalmente quando se trata da questão de raça e gênero. Para as mulheres pretas, por exemplo, que convivem com o racismo todos os dias na sociedade, o caminho sempre foi mais árduo e, na vida de muitas, é difícil ser ouvida, respeitada e ganhar espaço na sociedade. Como você avalia essa questão?   
GABI DA PELE PRETA Na realidade, quem nega debater o racismo no Brasil, é porque não quer ter responsabilidade com a solução do problema, né? E eu acho que ocupar o espaço, reparar historicamente e combater uma série de atrocidades que colocaram na cabeça das pessoas pretas, se torna uma luta diária. Em Casa grande e senzala, por exemplo, quando eu paro pra pensar que “preta é pra trabalhar, mulata é pra fornicar e branca é pra casar”, e que esse discurso acabou  sendo internalizado por algumas mulheres pretas que não tiveram acesso à informação. É algo a se preocupar, porque, às vezes, o sistema é muito audacioso no sentido de reforçar esses lugares de submissão para essas mulheres, que frequentemente são colocadas no referencial de não serem amadas e apenas desejadas. Então, isso acaba sendo um tipo de exploração do corpo, da mente e da força de trabalho.

Imagina na escravidão o quanto os pretos(as) sofreram historicamente, tanto dentro dos navios na travessia para cá, quanto quando chegaram aqui, eles foram colonizados e tiveram a identidade e a linguagem desmoralizadas. Pra mim, uma das coisas mais violentas de se colonizar é a língua. Fora da África, nós somos o país mais negro do mundo e muitos de nós morreram e sobreviveram a partir dos confrontos, né? E eu penso muito na responsabilidade que o povo preto tem com essas memórias. Pra mim, foi muito marcante ver Djamila Ribeiro, por exemplo, no Roda Viva, falando sobre esses assuntos, sabe? Porque ela é muito direta e tem uma linguagem muito acessível, e aí eu lembro dela dizendo assim: “Esse país estabeleceu suas raízes econômicas e se fundamentou economicamente em mais de 500 anos de exploração das pessoas pretas”. O povo preto e os povos indígenas sofreram muito e hoje lutam por seus direitos. 

CONTINENTE Ao falar sobre povos indígenas, me recordo da imagem de um papel sobre a terra, no perfil do seu instagram, com a seguinte frase: “Cadê os Yanomami?” e, no post, você questiona o porquê do nosso território viver guerras sangrentas desde que se chamou de Brasil. Como esses conflitos impedem o avanço social do país? 
GABI DA PELE PRETA Na realidade, temos que pensar que o agronegócio está por trás desses conflitos, né? Então, como pensar em avanço social se a gente não pensar em ecologia e em todos os povos indígenas que precisam se alimentar e ter a proteção dos seus territórios garantidos? O cuidado com a Floresta Amazônica, por exemplo, é uma questão de sobrevivência para o mundo inteiro, não apenas para o Brasil. Se as pessoas não conseguem garantir isso, que pra mim, é uma questão básica, como vamos conseguir garantir outras questões? Porque quando os povos indígenas são confrontados a saírem dos seus territórios e a serem expulsos, eles acabam indo pras margens das BRs e entram nesse processo também de ter que pedir dinheiro, porque senão, não tem o que comer e onde morar. Também vemos a questão da miserabilidade dos povos indígenas e eu acho que os conflitos giram sobretudo nessa série do racismo porque se o Brasil não resolver esse problema em seu próprio território, como ele vai resolver outras camadas? É uma reação em cadeia mesmo. E aí quem lucra com tudo isso é o sistema capitalista. 

CONTINENTE Voltando a falar um pouco das tuas músicas. Diferente das primeiras composições que têm a melodia mais lenta, na terceira canção Virá, desenvolvida por Ezter Liu e Joana Terra, você traz um ritmo mais rápido e letras que falam sobre algo que está por vir, como, “Virá/ Virá pelas mãos/ Pela pulsação da pélvis e pelo movimento das asas”. Gabi, o que é esse virá? 
GABI DA PELE PRETA Virá fala sobretudo dessa pulsão, desse poder que a mulher tem de criar e gerar algo quando o mundo a silencia. Então, essa música é uma pulsão criativa de subverter essa lógica, porque se a sociedade hoje fosse matriarcal, o mundo estaria de outro jeito. A gente canta que virá, mas já está vindo. Já estamos fazendo. Essa canção é pra entender o poder que a mulher tem, e a revolução que nós estamos vendo acontecer ainda é muito pequena em relação ao que muitas mulheres serão capazes de fazer e pra mim, disseminar a perspectiva feminista é muito importante, não só apenas para as mulheres, mas para toda a sociedade. No sentido das pessoas entenderem efetivamente o que é feminismo e suas discussões mais profundas além das que já existem. Eu costumo dizer, inclusive, que meu EP nasceu, porque foi um parto muito difícil, hoje ele é o filho que eu estou gestando e tem muitas coisas para dizer pras pessoas.

CONTINENTE Gente é a quarta canção que fecha o EP e nela você também mantém uma melodia mais agitada, para falar sobre a questão do preconceito, gênero e diversidade sexual. Gabi, por que ainda é necessário que haja esse diálogo na sociedade?
GABI DA PELE PRETA Então, essa canção é de Luiza Pessoa, que é uma mulher trans. Eu olhei muito a potência dela e as coisas incríveis que ela é capaz de fazer como artista e pesquisadora. E, na composição da música, ela traz a frase: “Chega de achar, não cuida do que mora dentro e da boca pra fora, falar”. Na canção, Luiza faz uma reflexão sobre a realidade que envolve todo um sistema de educação heteronormativo e, por manter esse padrão, ele violenta tudo que está fora do eixo. No entanto, nós precisamos aprender a celebrar o lugar da diferença. É pensando nisso que eu falo também sobre a questão do preconceito. Existem pessoas que violentam homossexuais e ameaçam a comunidade LGBTQIA +. Isso não é saudável, eu não sou uma mulher que pertence a esse grupo, mas a minha formação artística gira em torno de pessoas dessa comunidade. Meu primeiro diretor de teatro e meus primeiros amigos que ousaram produzir alguma coisa comigo são homens gays. As minhas melhores amigas são lésbicas e me apoiaram no processo de elaboração desse projeto. Então, essa pauta me interessa diretamente, porque eu quero que essas pessoas sejam vivas e bem-vividas, sabe? A gente não precisa ser preto pra ser antirracista, a gente não precisa ser indígena pra lutar contra o genocídio indígena, precisamos minimamente ter empatia pela causa das pessoas e pelo direito à vida e à liberdade. Então, eu tenho muito orgulho de poder cantar Gente, porque eu acho que é honrar uma série de pessoas que eu conheci durante o processo. É honrar a dor de uma Luiza e de tantas outras mulheres e homens trans e, sobretudo, é assumir a minha responsabilidade nesse lugar de privilégio, de mulher hétero e cis. Por isso, cantar uma Luiza pra mim não é que ela precise da minha validação, mas é fortalecer a existência dela a partir das narrativas que ela tem pra contar. Então, se eu posso contribuir pra que essas histórias estejam registradas nas plataformas digitais, por que não fazê-la?


Foto: Rafaela Amorim/Divulgação

CONTINENTE Gabi, por você ser do Agreste pernambucano, ainda existe muito tabu ou uma certa resistência quando o assunto em pauta trata sobre a sexualidade? 
GABI DA PELE PRETA Bom, ninguém nunca chegou especificamente para falar sobre isso e a música é muito contundente. E o que mais me importa é saber das coisas que eu enfrento no cotidiano e de como eu vou elaborar estratégias para chegar viva em casa no final do dia. 

CONTINENTE E como é a relação do interior com a produção artística musical? Existe algum investimento dos órgãos públicos locais? 
GABI DA PELE PRETA Então, é preciso que as políticas públicas cheguem mais ao interior, porque ainda existe uma maior concentração de recursos na capital e aqui tem muita gente que faz arte também, sabe? A quantidade de material bonito que o interior produziu durante a lei Aldir Blanc comprova que o recurso foi bem distribuído e que o estado de Pernambuco, por exemplo, pode se tornar um território ainda mais potente do que já é.

CONTINENTE Por causa da utilização do filá em suas fotos de divulgação, a capa do EP foi pensada em algum orixá? 
GABI DA PELE PRETA Não tem um orixá específico, mas com o filá, eu me remeti muito a Oxum, Iansã e Iemanjá, que geralmente quando vemos a representação, sempre estão com esse acessório. Então, teve essa inspiração nessas autoridades astrais e ancestrais. Já o meu penteado, eu pensei nas tranças nagôs no sentido de caminhos e estratégias de sobrevivência, porque antigamente elas eram usadas pelos escravos como mapas de fuga e como ferramenta para guardar sementes de café, feijão e arroz e, depois, serem plantadas, garantindo a preservação da vida e a continuidade entre esses povos. Também, quando elaboro esses conceitos, eu estou falando de coisas que vêm muito antes de mim, é preciso ter respeito na representação dessas coisas, sabe? Eu tenho um certo cuidado porque estou falando de outras pessoas e estou lidando com outras histórias. Daí, eu penso nas tranças como uma questão de sobrevivência e tecnologia ancestral.   

CONTINENTE Ao falar de sobrevivência e continuidade, em um de suas postagens no Instagram, você traz a seguinte frase: “Aquelas que vieram antes de mim, traçaram caminhos que guardaram sementes de resiliência e rebeldia que me trouxeram até aqui. Eu sou continuidade…” Qual a importância do  resgate dessa memória, dessa presença feminina preta na arte, na música e na sociedade?  
GABI DA PELE PRETA Bom, nós temos uma responsabilidade com quem preparou o nosso caminho, então, como continuidade, eu tenho que garantir que essa história avance mesmo, sabe? Até porque existem outras perspectivas para nós. A historiadora Beatriz Nascimento, Carolina de Jesus e Dona Ivone Lara deixaram muita coisa escrita; Conceição Evaristo e Geni Guimarães continuam escrevendo para a autoestima que eu tenho hoje. Elza Soares, por exemplo, atingiu o ápice maior de sua carreira já idosa, cantando música autoral e fazendo álbuns sobre pautas políticas. Quando eu olho para essas mulheres, eu tenho que fazer pelo menos igual, porque elas me inspiraram muito. O álbum Mulher do fim do mundo fez total diferença pra mim quando comecei a escrever meu repertório mais autoral. No entanto, não podemos esquecer de ocupar qualquer espaço desde que possamos acessar a universidade e os locais de produção, por que todo lugar é possível. E não podemos esperar que o Brasil seja gentil com a gente, né? Porque historicamente ele nunca foi, somos nós que vamos continuar elaborando estratégias, para garantir que esse processo continue para que outras mulheres pretas possam ser contempladas por isso.


Foto: Rafaela Amorim/Divulgação

CONTINENTE Você falou de ocupação de espaços e recentemente a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse, em entrevista ao programa Fantástico, a seguinte frase: “Eu amo quando as mulheres negras ocupam espaço”. Então, apesar de todas as barreiras que a mulher preta enfrenta e tem pela frente, como não desistir?  
GABI DA PELE PRETA É muito importante ocupar, mas a vida das pessoas não deve ser posta em risco para ninguém adoecer, sabe? Os lugares precisam ser ocupados, mas sem perder de vista a manutenção da nossa saúde física e mental. Além disso, é importante que as pessoas também busquem se aquilombar e estar em espaços menos agressivos para entender as armadilhas daquilo que chamam de representatividade, para que nossa comunidade não seja usada apenas como um instrumento de um empresário ou de uma instituição que não tenha nenhum comprometimento com a causa. E, sobretudo, por mais que o sistema nos impossibilite, daremos um jeito de ocupar porque a mulher preta é sempre a testa de ferro, né? É por isso que eu rememoro Angela Davis, quando ela diz assim: “Se a mulher preta avançar, todo mundo avança, agora se outra categoria avançar, talvez esse avanço não atinja a mulher preta, mas se a mulher preta avançar, toda sociedade vai sentir um impacto benéfico desse avanço”. 

CARINA BARROS, jornalista em formação pela UFPE e repórter estagiária da Continente.

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