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Entrevista

“Escrever era a única coisa que eu conseguia fazer no hospital”

Convidado do ‘Festival serrote’, o professor de História da música, pianista e escritor Igor R. Reyner aborda doença, morte e vida a partir de sua luta contra o câncer

TEXTO Bárbara Buril

17 de Março de 2022

Foto Lívia Aguiar/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Lançar debates sobre os assuntos que atravessam a 40ª edição da revista serrote, como escravidão, doença, morte e o sentido da independência do Brasil, está na pauta da quinta edição do festival online da publicação do Instituto Moreira Salles (IMS). Nesta sexta e no sábado (18 e 19), uma série de conversas gratuitas será transmitida ao vivo no canal do Youtube do IMS e na página do Facebook da serrote.

Entre as participações, estão autores importantes, como a escritora norte-americana Saidiya Hartman, uma das principais referências contemporâneas em estudos afro-americanos, a escritora Noemi Jaffe e a jornalista Fabiana Moraes. Se, nesta sexta, o festival gira em torno de uma conversa sobre o ensaio de Hartman (A trama para acabar com ela), a partir das 19h, no segundo dia do festival, às 16h, o encontro discute doença, escrita e sobrevivência. Na ocasião, o professor de história da música e escritor Igor R. Reyner conversa com Noemi Jaffe sobre o ensaio que assinou para esta edição da serrote, intitulado O mal que tenho: sobre Proust, câncer e morte. A conversa será mediada pela filósofa, escritora e tradutora Carla Rodrigues.

No ensaio, Igor estabelece relações entre O caminho de Guermantes, o terceiro livro da série Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, permeado por personagens adoecidos, e os desafios que enfrentou depois que foi diagnosticado com câncer por duas vezes. Em um momento no qual nós tivemos que lidar com a morte de parentes e amigos, devido sobretudo à Covid-19, e diante da impossibilidade de sabermos o que eles realmente sentiram ao se depararem com a iminência do fim de suas vidas, nós, da Continente, resolvemos conversar com Igor sobre as questões que atravessam o seu ensaio e que giram em torno de como ele teve que lidar com a possibilidade real de morrer e também de como a escrita virou, para ele, uma forma de resistir ao caos que parecia anteceder o seu fim.

Embora nós todos devêssemos levar em consideração essa possibilidade, até porque a única certeza que temos é a de que, enquanto vivos, nós morreremos, é fato que, enquanto estamos saudáveis, mal pensamos no nosso fim. Com um diagnóstico em mãos de câncer – não só uma, mas duas vezes –, a morte parece estar mais perto e, então, o sujeito é obrigado a conversar com ela. A Continente quis saber como foi essa conversa que Igor estabeleceu com a “Morte”, como ele chama, em maiúsculo, esta figura que nos liberta. Em breve, Igor também publicará um livro de poesias pela editora Leme, intitulado Corpo sonoro & Sound body. Confira a entrevista a seguir.

CONTINENTE Igor, você é músico de formação, mas poucos são os músicos que escrevem. Desde quando você tem essa relação com a escrita?
IGOR R. REYNER Eu sempre fui visto, na música, como aquele que escreve. Poucos músicos escrevem e, na verdade, poucos são os que escrevem bem, porque o músico tende a se expressar através da música, mas eu sempre gostei muito de escrever e sempre me associei, na música, com pessoas que escrevem. Eu sempre quis escrever, como escritor mesmo, mas sempre tive mil coisas para fazer: a carreira, a música, tem que tocar, vai fazer doutorado, vai trabalhar etc.  Quando eu tive o diagnóstico de câncer pela primeira vez, foi muito difícil, eu estava muito mal. Você ser diagnosticado com câncer é um peso. É aquele pavor do tipo “a morte chegou, é isso aí”. Então, com este diagnóstico, eu cheguei em casa, chorei, chorei, chorei e comecei a escrever. Em três dias, eu escrevi uma sequência de 20 fragmentos que chamei de A morte é um anzol. Naquele momento, eu vi que não adiantava esperar encontrar o momento para escrever e percebi que, se eu quisesse escrever, eu teria que trazer a escrita para a minha vida. Mas essa não foi uma decisão carreirista, do tipo “agora vou ser escritor e vou escrever porque é bom terapeuticamente”. A escrita era simplesmente a maneira que encontrei para organizar esse caos – essa resposta caótica ao diagnóstico. Quando eu escrevia, era como se eu me distanciasse do que eu estava vivendo. Ao escrever, eu tirava uma coisa superpesada que estava dentro de mim e colocava em algum lugar. Eu dividia o peso com o papel, digamos assim. Mas o que me atraía na escrita nem era o significado do que eu escrevia, mas o fato de que eu estava transformando o meu peso em algo que eram letrinhas. Nessa época, eu também comecei um diário de diagnóstico em que eu relatava tudo sobre a doença todos os dias. O Proust também passou por esse momento de vida em que ele perde a mãe, tem uma crise séria de asma e entende que precisa escrever o livro dele.

CONTINENTE No seu ensaio, que foi publicado nesta edição da serrote, você escreve, citando Proust, que “a verdadeira vida, a vida enfim descoberta e tornada clara, a única vida, por conseguinte, realmente vivida é a literatura”. Ao mesmo tempo, você também escreve sobre a necessidade de articular o sofrimento em palavras, contestando o senso comum de que precisamos viver o sofrimento em silêncio. Alguns estudiosos, como o sociólogo Iain Wilkinson, por exemplo, autor do livro Suffering, desenvolvem a ideia de que falar sobre o sofrimento pode causar mais sofrimento para algumas pessoas e que, portanto, a melhor maneira de lidar com o sofrimento seria não falar sobre ele, para que ele possa ser, enfim, esquecido. Como você vê isso?
IGOR Eu acho que existem as pessoas que nomeiam e as que não nomeiam. Eu tenho uma amiga que fez tratamento de câncer de mama e ela não gosta de falar sobre isso. Para algumas pessoas, falar sobre o sofrimento machuca. Para mim, não. Para mim, não falar sobre algo significa que esse algo tem controle sobre mim. Ele cresce e se transforma em algo parecido com um fantasma. Falar sobre as coisas, examinar as coisas – e isto também tem a ver com o meu lado de pesquisador – faz com que eu veja também o limite das coisas, o lado real e palpável delas.

CONTINENTE Como você conseguiu escrever durante esse processo intenso em que você foi diagnosticado por câncer duas vezes, tendo que passar, na segunda vez, por um transplante de medula? Você tinha clareza mental para fazer isso?
IGOR Um dos gatilhos que me fez me dedicar à escrita, durante esse processo, além do desespero e da necessidade de dar ordem ao caos, foi uma experiência que eu tive de perda de linguagem. Um dos primeiros sinais que observei da quimioterapia no meu corpo foi a falta de capacidade de articular ideias. As palavras não vinham mais muito facilmente. Um dia, quando eu estava fazendo um ecocardiograma, a pessoa pediu para eu colocar a mão na nuca e eu, simplesmente, não sabia onde era a nuca. Eu sabia que era perto da cabeça, mas não me lembrava mais onde era, então eu coloquei as mãos nas têmporas. Aí a pessoa disse: “A nuca é atrás do pescoço”. Eu comecei a ter esse tipo de lapso como resultado da quimioterapia. Isso me desesperou e, então, comecei a me questionar: “Gente, e se a linguagem acabar para mim? E se eu me esquecer da linguagem?”. A linguagem me define no nível da identidade, como pesquisador, professor, escritor, então eu comecei a escrever um diário, em inglês, porque eu tinha medo de perder a linguagem. Eu tenho uma relação afetiva com o inglês que é muito forte. Morei na Inglaterra por cinco anos, quando fui fazer o meu doutorado, e foram os anos mais felizes da minha vida. Quando eu vi que a quimioterapia estava afetando o meu português, que é a minha língua materna, era porque ela também estava erodindo o meu inglês, então eu tinha muito medo disso. Mas escrever era a única coisa que eu conseguia fazer no hospital.

CONTINENTE Isso é bem particular, porque geralmente a única coisa que as pessoas conseguem fazer quando estão doentes são atividades mais passivas, como ver televisão ou ouvir música, mas escrever é algo superativo.
IGOR Eu sempre achei isso também bastante curioso. Geralmente, quando estão doentes, as pessoas ficam vendo televisão ou aproveitam para ler algum livro. Eu não conseguia ler livros, nem ouvir música ou ver televisão, porque me embrulhava o estômago. Quando a pessoa faz quimioterapia, fica cheia de náuseas. Durante o transplante de medula, pois eu tive linfoma, que é um câncer no sangue, eu tive que ficar trancado em um quartinho superpequeno, branco e estéril por um mês. Foi horrível. Mas eu escrevi esse diário no hospital, porque era um diário de sobrevivência. Ele tinha uma dimensão de registro, de reflexão (porque, às vezes, eu filosofava sobre coisas) e de materialidade mesmo, porque eu escrevia à mão. Com este diário, eu dava corpo ao dia. Eu não podia tocar piano no hospital, não podia caminhar, não conseguia ler, porque não conseguia fixar a vista, então eu não tinha prazer algum. Naquelas condições, eu escrevia à mão, mas eu não ficava olhando tanto para o que eu escrevia, então funcionava. Isso me trazia um pouco para a terra e me dava paz. Eu criei essa rotina de escrever das 5 às 8h da manhã, depois eu tomava banho, tomava meu café e os médicos passavam com o resultado dos exames por volta das 9h. Durante o resto do dia, eu conversava com a minha mãe e descansava. Eu só não voltava a escrever porque ficava com a mão cansada.

CONTINENTE No ensaio, você faz um elogio à medicina, ao citar Proust, que escreve que, embora a medicina possa não ser uma ciência exata, ela ainda é uma ciência. Proust também escreve que acreditar na medicina seria a suprema loucura se não acreditar nela não fosse loucura maior – e você cita também esse trecho. Esta afirmação faz muito sentido diante do negacionismo com relação à vacina, por exemplo. No entanto, você tem críticas à medicina? Além de curado, você se sentiu cuidado?
IGOR Quando eu fui diagnosticado com câncer pela primeira vez, eu estava naquele período de carência do meu plano de saúde, que é Unimed, então eu comecei o meu tratamento pelo SUS e, depois, continuei pela Unimed. Os dois tratamentos foram excelentes. O SUS é uma dádiva e ele funciona muito bem quando se trata de doenças graves, que era o meu caso, mas o SUS é sobrecarregado. Ele não dá conta de tudo, ainda mais sem o investimento devido, então eram muito mais horas na fila. A vantagem do tratamento privado é que, por ter menos pessoas, você acaba tendo que esperar menos para ser atendido. Em termos de natureza do tratamento, os profissionais estão, sim, preocupados com o corpo, mas eles também conversavam muito comigo. Eu também questionava e conversava muito e isso gerava muita interação. No entanto, eu sinto que não há muito preparo humano dos médicos. Os profissionais não são treinados aqui para conversar com uma pessoa doente que talvez não seja religiosa ou heterossexual, por exemplo. As pessoas que trabalham nesses hospitais são os brasileiros e a maioria dos brasileiros são conservadores em vários aspectos. Esse conservadorismo acaba entrando nas conversas e você pode acabar se sentindo ainda mais desconfortável, como se não bastasse a doença. Eu sinto que os médicos e os enfermeiros precisam passar por uma reflexão mais profunda e precisam se preparar para escutar o paciente sem impor as suas visões de mundo. Os técnicos de enfermagem eram melhores nisso do que muitos médicos, que, às vezes, não ouviam o paciente e já vinham com uma resposta pronta. Apesar disso, aqui é bem melhor do que na Inglaterra. Antes de ser diagnosticado com câncer no Brasil, eu fiz vários exames na Inglaterra para tentar descobrir o que eu tinha e nunca acusou nada. Lá, não tinha empatia alguma. Eles são muito mais hostis e técnicos com o paciente. Aqui, existe uma sensibilidade maior, mas, ainda assim, é preciso humanizar o setor médico. Outro aspecto que me deprimia muito era a esterilidade do quarto. Tudo é terrivelmente branco. O sofá também tinha uma cor horrível. Para mim, era uma tortura ficar em um lugar tão feio. Falta esse entendimento de que o espaço físico do hospital precisa ser, além de perfeitamente funcional, um lugar agradável para o paciente.

CONTINENTE Uma das partes do seu ensaio de que mais gostei é aquela em que você faz diferenciações entre as pessoas que realmente queriam ajudar e aquelas que estavam mais preocupadas em mostrar para a sociedade que estavam ajudando. Eu gostei dessa parte porque ela toca em um certo tabu social, que é o de que não sabemos realmente como ajudar ou o que dizer para uma pessoa doente. Não somos ensinados a lidar com situações como essas, porque a morte e a doença são assuntos quase proibidos na nossa sociedade. Sendo assim, quais foram os momentos em que você se sentiu realmente ajudado e os que você se sentiu violentado pelas pessoas que, teoricamente, queriam te ajudar?
IGOR No ensaio, eu faço uma diferenciação entre dois tipos de pessoas: as que querem ajudar e as que querem parecer úteis. Em Minas Gerais, onde nasci, isso tem um peso muito grande, porque se trata de uma cultura muito católica. Lá, você tem a obrigação de ajudar, só que, ao mesmo tempo, você também tem que ser percebido como uma pessoa caridosa. As pessoas que queriam, de fato, me ajudar, se dispunham a ajudar. Elas diziam assim: “Eu estou aqui. Se você quiser ajuda, me chame”. As outras pessoas não se dispunham. Elas se impunham. Ou seja, elas vinham com a ajuda pronta. Certo dia, uma pessoa me ligou com uma voz bem triste para saber se eu estava bem. Nesse dia, eu estava realmente muito bem, então eu disse que estava ótimo. A pessoa me respondeu com um monte de conselhos prontos, sem nem me ouvir. É como se apertasse o play e falasse como um boneco. As pessoas que se impõem acham que têm uma solução para o seu caso e, ao trazer essas soluções, elas como que ganham “pontos” sociais ou religiosos na cabeça delas. Então essa parte do social foi muito sofrida para mim. Quando a pessoa está doente como eu estava, ela só precisa de alguém sentado no sofá de casa a quem possa recorrer se quiser dar um abraço, pedir ajuda ou algo do tipo. Eu tenho amigos maravilhosos que me deram muito apoio, sobretudo durante uma semana da quimioterapia em que a minha mãe não pôde ficar comigo. Eles cozinhavam para mim, me davam espaço e trabalhavam nas suas coisas, por exemplo. Eu comia quando queria, interagia quando queria. O apoio que você dá a uma pessoa doente não é o de ficar fazendo social, nem o de tentar resolver os problemas do doente. O apoio que você dá é de outra natureza.

BÁRBARA BURIL, jornalista e doutoranda em Filosofia pela UFSC.

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