Entrevista

“A literatura é o espaço social que a gente separou para experimentar o sapato do outro”

Flávia Suassuna, que tomou posse este mês na Academia Pernambucana de Letras, fala sobre sua trajetória como escritora e professora

TEXTO Erika Muniz

03 de Outubro de 2023

Flávia Suassuna tomou posse na APL neste mês de outubro

Flávia Suassuna tomou posse na APL neste mês de outubro

Foto Leopoldo Conrado Nunes

Todo estudante tem ou já teve um professor ou professora que fez a diferença na sua vida. Aquele docente cujas aulas eram aguardadas desde o final de semana e, no dia, o entusiasmo e a alegria tomavam conta, mas também era o momento de muita reflexão e construção crítica. Nas aulas de literatura, inclusive, tudo isso costuma vir unido a um mergulho nas linguagens artísticas visando à compreensão do que cada período histórico trouxe de impacto cultural ao nosso mundo. Entre essas docentes marcantes na vida de alunos e alunas, de gerações, está Flávia Suassuna, que forma estudantes em Pernambuco  – há 40 anos – com sua paixão pela literatura, despertando o interesse pela arte a cada aula.

Escritora e professora, Flávia é recifense e tornou-se, em agosto deste ano, a mais nova “imortal” da Academia Pernambucana de Letras, sendo a 18ª mulher eleita. Neste mês de outubro, a autora tomou posse da cadeira de número 32.

Com nove livros publicados, desde 2006 publica no seu blog Trança. Nesta entrevista, ela revela que já tem mais alguns livros aguardando somente a publicação para chegar a seus leitores. Entre crônicas, contos, poemas e romance, Flávia é formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco e tem mestrado em Teoria da Literatura.

Numa tarde ensolarada, nos encontramos no café de uma livraria recifense, para essa conversa. Entre os temas trazidos, estão: a sua vivência como professora, a formação literária que a fez leitora, sua paixão pelos livros, além de como recebeu a notícia que faria parte da APL.

        
CONTINENTE
Para a gente começar… Para que literatura?
FLÁVIA SUASSUNA Essa é uma pergunta que está sendo muito feita a mim. Neste ano, um aluno, de um dos meus segundos anos, fez. Eu não pude respondê-la como quando essa pergunta foi feita para mim pela primeira vez. Porque, na primeira vez, foi em uma matéria isolada, que a gente tem menos conta ao que prestar. Fiz assim, ao primeiro aluno que fez essa pergunta: “Meu filho, você tem uma namorada?” Ele disse: “Tenho.” Eu disse: “Você fez sexo com ela a semana passada?” Ele disse: “Fiz”. Eu: “Muitas vezes ou poucas vezes?” Ele disse: “Muitas”. Todo mundo diz que faz muitas, né? Eu disse: “A sua namorada ficou grávida?” Ele disse: “Não.” Eu disse: “Está vendo, meu filho? Não serviu para nada.” Se você pensar direitinho, existem muitas coisas que gostamos muito e que não servem para nada, tipo: “Você é treinador de futebol?” “Não” “Juiz de futebol?” “Não” “Você gosta de futebol?” Ele disse: “Muito” “Mas por que você gosta?” Então, a partir daí, a gente foi conversando. E, na verdade, acho que a literatura nunca foi tão necessária. Ela sempre é muito necessária.

Por exemplo, ela foi muito necessária no século XIX. Mas agora acho que a necessidade dela está sendo maior, porque, quando a gente pensa na literatura, pensa também na arte. Mesmo quando a gente morava nas cavernas, por algum motivo a gente as pintou. Acho que a cultura, a arte, é um conjunto maior. A cultura é grande e a arte é um subconjunto – digamos assim – da cultura. A arte não tem só a ver com o ato de sentir e de pensar, ela tem a ver com o ato de ser. É uma coisa inerente nossa. E mais do que nunca a gente está muito necessitado, sabe? Porque acho que a literatura dá de presente para a gente um prisma. A essa altura do calendário, um prisma é uma coisa extremamente necessária, porque estamos pensando de forma muito simplista dentro de uma polarização inaceitável. Até brinco com meus alunos, digo assim: “Não gosto nem do preto, nem do branco, gosto dos 50 tons de cinza”. Eles fazem a maior confusão (risos). Mas, na verdade, acho que a gente está perdendo isso. Outro dia eu estava pensando… A Inquisição matou mais na Idade Moderna que na Idade Média. Acho que a polarização, que é típica do século XX, está se exacerbando no século XXI, porque, na verdade, ela está se desmanchando. O século XX é um século que a gente chama de bipolar. Tinha o comunismo e o capitalismo, um se achava no direito de dizer que o outro estava errado. Se você perguntasse, no século XX, o sexo de uma pessoa, ela dizia masculino ou feminino. Hoje em dia, se você perguntar o sexo de uma pessoa, ela vai dizer o alfabeto inteiro. LGBT+

Neste momento, a gente está vivendo uma dispersão, que acho que combina muito mais com a natureza humana do que qualquer outra anterior, porque acho que a gente é muito diverso. Eu sou diferente de você, diferente dele, dele, dele… Somos todos diferentes uns dos outros, e a gente precisa aprender a viver com essa diferença. É o grande desafio do século XXI. Hoje, eu estava dando aula a meninos de primeiro ano. E a gente estava discutindo um poema meu. Algo em torno de que entre o passado e o futuro, tem o presente. Então, o futuro não é determinado pelo passado. Exatamente por conta das ações que a gente pode fazer no presente. Eu disse assim: “É por isso que não gosto de discutir negritude como se fosse escravidão”. Porque houve uma mudança de lá para cá. Por exemplo: eu estudei em um colégio estapafúrdio, era um colégio só de mulheres brancas de classe média. Não tinha nenhuma pessoa preta. Os pretos chegaram na classe média e chegaram na escola privada. Isso é uma coisa maravilhosa. Eles sempre existiram, mas estavam alijados do ambiente que a classe média frequentava. Houve uma coisa boa de lá para cá. Agora, a gente está misturado, ninguém fala nisso. Todo mundo só quer falar a desgraça que está agora, decorrente da desgraça de antes. Mas ninguém nota que houve uma mudança aí que logicamente vai mudar ideias, comportamentos, acessibilidade. Tudo muda.

A gente tem que prestar atenção. Acho que a história é pendular. Fiz um poema outro dia dizendo que a história da gente é bêbada. O povo diz assim: “A situação dos negros no Brasil é a pior do mundo.” Por que sempre o pior do mundo é no Brasil? Quer dizer que não há marcas da escravidão na Inglaterra e na Holanda? Não são marcas visíveis, mas têm marcas lá também. Eles ficaram ricos e usufruem de uma vida planetária muito confortável, em detrimento da gente. É tudo santo lá, né? Acho que a gente precisa observar.

Nas redes sociais, a gente não escuta o que o outro diz. Os dois polos são duas bolhas. Eu só digo o que na minha bolha pode ser dito e só escuto o que quero escutar. A gente precisa escutar as coisas que nos impactam, que nos ensinam. Recentemente, eu disse assim: “a gente pensa que o amor é uma questão de compatibilidade”. “Ah, ele gosta de sorvete de morango, ele é como eu.” Não, não é por isso que a gente se apaixona. A gente se apaixona pela outra pessoa pelas coisas incompatíveis. É quando ela nos assusta que a gente fica louco por ela. O amor e o desejo são um jogo de incompatibilidades, de você ouvir o que é diferente. Fiz um poema e disse assim: “é como entrar num labirinto de mãos dadas.” O amor é isso. A gente tem que ter paciência. E o que é a literatura? A literatura é o espaço social que a gente separou para experimentar o sapato do outro. Não é para isso que ela serve? O autor inventa um narrador, o narrador bota a gente na cabeça de um personagem, na cabeça do outro, na cabeça do outro... Em última instância, você faz uma coisa que não está sendo feita hoje em dia: fica uma semana olhando o mundo na perspectiva de um autor. Aí você quer discutir literatura com o conceito de lugar de fala. Mas como assim? Machado de Assis era negro e favelado e os dois personagens mais fabulosos dele, Brás Cubas e Bento Santiago, são brancos, de classe dominante. Ele foi extremamente competente para fazer a gente entender o que era uma pessoa branca de classe dominante no século XIX no Brasil.

Adoro dizer que comecei a ser mulher lendo a obra de (Liev) Tolstói. Era uma mulher de classe dominante, tinha muitos filhos e trabalhava muito. Naquela época, não tinha escola, a preceptora e a mãe davam aulas aos meninos. Ela estava cheia de filhos, mas teve uma epidemia de escarlatina e perdeu dois filhos. Uma das coisas que ela pensava era: “Só eu estou sofrendo com a perda desses filhos.” Na Rússia do século XIX, os meninos só eram registrados quando faziam sete anos, porque morriam tanto, que esperava um tempo para ver se eles iriam morrer, aí se fazia o registro. Porque antes, imagina a mortalidade infantil como era. Essa epidemia de escarlatina fez ela perder dois filhos que só ela praticamente sabia que existiam. Eles não tinham vida social ainda. Ela estava ali presa com aquelas crianças e quando passou a escarlatina, estava muito abatida. O marido dela disse assim: “Vá visitar Anna Karenina”. Ela passou várias horas dentro de uma carruagem sozinha e teve tempo de começar a pensar na vida. E chegou à conclusão de que só ela tinha sofrido a morte dos filhos, nem o marido tinha se importado. Como quem dizia assim antigamente: “Tive 15 filhos, criei nove”. A pessoa diz como quem diz: “Vou ali comprar pão e volto”. Isso não era uma coisa dolorosa, porque acontecia com todo mundo. Quer dizer, você tinha que se preparar para isso. Ela foi pensando na vida dela. Agora, imagine, uma mulher do final do século XIX, dentro de uma carruagem, Tolstói, um homem russo, numa sociedade extremamente patriarcal, ele entra na cabeça dessa mulher e fala um bocado de coisa que mudou a minha vida.

Eu não tinha entendido que ser mulher tinha “um problema”. Comecei a perceber ali, foi um homem que me ensinou. É aquela história: a gente não nasce uma mulher, a gente se torna uma mulher, a gente se constrói uma mulher. Imagine, foi um homem que me ajudou a perceber isso. Ele escreveu uma mulher no final do século XIX, que diz: “É esse o papel que tem para mim na sociedade? Quero não!” Era aquele lugar social de classe dominante. Ela traiu o marido dela e “escatembou” o lugar dela de um jeito que terminou se matando. Acho que a literatura está superimportante, porque é um lugar de pouco barulho.

Tem um livro novo chamado Foco roubado (2023), de Johann Hari, que fez uma longa pesquisa e chegou à conclusão de que a gente não está focando em nada. A gente fica disperso e não consegue focar em nada. O foco roubado por mil convites, visuais, auditivos, temáticos. Então, a literatura, veja como ela está necessária. É de você ficar ali lendo aquele livro. Vários dias com a atenção focada. Ensinar a gente a organizar uma linha de pensamento lógico longa. Nada disso está acontecendo. É por isso também que todo ditador quer queimar livro e matar escritor. É preciso educar para isso. Estudar a minha matéria, que é História da Literatura, é organizar a linha do tempo. Você fica com um conhecimento ordenado e isso ajuda a ver muita coisa. Além do que é visível. Essa linha – Idade Média, Barroco, Arcadismo... – é muito importante porque ela disciplina a sua observação, sem você ficar disperso. Acho engraçado porque a contemporaneidade, o tempo da gente, está muito assim: se for tradição, é ruim, é velho. Agora, para você ver como a tradição não é ruim, na hora, que você vai discutir identidade negra, você pega ancestralidade. Sem ancestralidade, você não chega a lugar nenhum. Veja como é importante saber essa linha do tempo, porque você compreende a história da mentalidade na qual você está imersa, para olhar, para ver, para reconhecer. Para reconhecer-se. É uma preciosidade.

 

CONTINENTE Como a leitura começa a fazer parte da sua vida?
FLÁVIA SUASSUNA Não sou uma leitora infantil, sou uma leitora adolescente. Meu pai era irmão de Ariano (Suassuna, escritor) e os dois eram muito amigos. Um dia, meu pai chegou à casa de tio Ariano e disse assim: “tem uma lá em casa que gosta dos livros que você gosta”. Veja a raridade que é isso: Ariano Suassuna tem 26 sobrinhos, só eu gosto de literatura. Ele tem seis filhos também, mas só eu gosto de literatura. Na minha casa, nós somos cinco e somos três professoras de português, Débora, que é de Gramática; Lívia, que é de Didática da Língua Portuguesa e ensina na universidade; e eu. Somos três irmãs, quer dizer, é uma população per capita de professoras de português considerável, né? Mas o meu pai diagnosticou que eu gostava de ler romance, de ler ficção. Tio Ariano começou a fazer uma coisa muito bacana. Quando eu tinha 11 anos, ele me deu As minas do rei Salomão (1885). Quando eu fiz 12 anos, ele me deu Senhora (1875), de José de Alencar. Ele foi orientando as minhas leituras, porque me dava um livro de presente ou me emprestava um dele. Eu adorava. Não entendia que ele estava formando a leitora, de jeito nenhum. Tanto que quando cheguei no Ensino Médio, não pensei que eu ia fazer Letras, pensei que eu ia fazer História. Quando comecei a estudar literatura, no terceiro ano do Ensino Médio, porque não tinha no primeiro e no segundo, aí, era História junto dos livros que eu tinha lido. Eu compreendia, na hora que diziam: “o livro é de tal época”. Eu dizia: “Meu Deus, que maravilha!” Vinha outra compreensão, outra camada de interpretação do livro que eu adorava. Aí, fui fazer Letras. Sou a primeira, a mais velha, depois, Lívia, e depois, Débora. Acho que tio Ariano foi muito responsável, porque ele formou a professora e a leitora, mas ele não encaminhou o que eu ia escrever. Não tenho nada a ver com o Movimento Armorial, a minha literatura é completamente diferente, dá para ver perfeitamente. Ele não dirigiu a minha escrita. Foi perfeito.

 CONTINENTE E a partir daí para o ensino? Como acontece a sua vivência com o ensino?
FLÁVIA SUASSUNA Quando eu era pequena, as pessoas me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse. Era uma piada na minha família, na verdade, só que eu não entendia porque as pessoas riam. Eu tinha cinco anos e dizia: “quero ser mãe e escritora.” Quando eu estava no Ensino Médio, já estava noiva e me casei depois que terminei a faculdade. Tive meus filhos, que era a coisa que queria. Eu tinha feito o curso de Letras para ser escritora. Fui, digamos assim, abandonada pelo pai dos meus filhos, então, tive que trabalhar. Teve época da minha vida que detestei isso, mas depois compreendi que Deus não ia perder a professora que eu fui ou que sou. Talvez que eu tenha sido, acho que não sou mais tão impactante como eu já fui. Hoje em dia, os meninos são muito dispersos, é diferente. Acho que foi uma coisa… Sei lá, vou usar uma palavra espírita, de karma. Eu tinha que ser professora. Nessa minha dificuldade econômica, eu estava formada para ser uma professora, então, comecei a trabalhar como professora. Mas acho que ser professora é uma coisa que dificulta muito minha vida de escritora porque a gente tem que preparar muita aula, tem que corrigir muita coisa. É difícil, mas difícil é uma palavra diferente de impossível (risos).

CONTINENTE Na sua percepção, qual a importância do silêncio?
FLÁVIA SUASSUNA É exatamente o momento da escuta. Tenho vários poemas em que digo que escutar não é só calar. Acho que quem já frequentou algum tempo de terapia entende que, às vezes, uma palavra que a pessoa diz muda o seu jeito de ser. Então, veja… Vamos pensar na relação da psicóloga com o paciente. A gente fala o tempo todo e ela tem uma escuta atenta. Mas não é só escutar, há um momento em que ela tem que revidar de forma pertinente. Ela tem que ter o maior cuidado do mundo porque não pode dizer no primeiro dia o que pode dizer no último dia da terapia. Talvez você não esteja nem preparada para escutar. E ela tem que saber como isso? Escutando você. O silêncio é importante nesse primeiro momento da escuta, mas você pode discordar da pessoa. Você pode escutar com toda pertinência e você pode, inclusive, discordar dela ou pode dizer uma coisa. Eu me lembro de que o meu pai tinha Transtorno Bipolar. Um dia, eu disse à minha psicóloga assim: “Ele é tão egoísta.” Aí, a minha psicóloga disse assim: “A palavra não é essa, a palavra é autorreferente.” Aquilo transformou a minha vida. Meu pai não escolhia ser daquele jeito. Ele não sabe colocar o sapato do outro, é impossível para ele porque ele tem um Transtorno Bipolar. A-palavra-é-autorreferente. Foram quatro palavras. Imagine o rolo de palavras que eu tinha dado a ela para ela me dizer essas. Mas, quer dizer, faz parte do ato de ouvir, você discordar. É como se você não pudesse retrucar. Por exemplo, se você disser que é vitimismo você vai ser crucificada. Quem me ajudou a ver isso foi Silvio Almeida (advogado, filósofo e professor, atual ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil), que diz assim: “a gente precisa tirar o gozo do problema para botar na solução.” Se você ficar no problema, você não inventa soluções e a gente inventa solução com imaginação, com ficção, com discussão, com escuta. Não só com escuta, porque você tem que aguentar a pessoa retrucar.

Quando é que a gente vai poder retrucar, não só escutar a queixa das mulheres e a queixa dos negros? Tem um momento em que a gente tem que se colocar. É muita coisa e a gente não está podendo falar porque as bandeiras estão trocadas. A liberdade de expressão está na mão da extrema direita e “tome cuidado no que você diz” está na extrema esquerda. Como assim? “Não diga com essa palavra, diga com essa”. Resultado: é um impedimento de expressão porque tenho que dizer com a “palavra certa.” Certa? Decidida por quem? Olha como a literatura é importante porque ela inaugura palavras. Chamo a poesia de “a ponta da lança da língua” porque ela não precisa ser gramaticalmente lógica. Quando eu entendo muito um texto, quando estou numa situação que consigo traduzir, faço um texto em prosa. Mas quando estou confusa ainda, trabalho com a poesia. Porque a poesia é mais rápida, não precisa ter ligação lógica de explicação, de advérbio… Você pode jogar o pensamento e depois você se debruça por aquilo. Por exemplo, recentemente, eu descobri que a palavra Referir, tem o verbo referir e tem o verbo ferir de novo dentro dela. Aí, eu disse assim: “a maresia refere a injustiça do Recife.” Eu não tinha pensado nisso.

Outra coisa: a palavra preconceito, em inglês, é um falso cognato, porque é prejudice, que é de onde vem prejuízo. Não sei se os ingleses, os americanos entendem isso, mas são duas palavras para a gente. Uma é preconceito e a outra é prejuízo. Quando você tem um preconceito, você causa um prejuízo. Eu não tinha percebido isso, mas quando você começa a trabalhar as palavras na poesia, aí vem aquelas coisas que são levantadas, são inauguradas dentro de você. Nós estamos numa sociedade sem escuta. Tem um sujeito da sua área chamado Vilém Flusser, ele diz que existem duas palavras. Uma palavra chamada discurso, outra chamada diálogo. O discurso é assim: você quer falar e você pode até parar para outra pessoa falar, mas você vai continuar falando do lugar onde você parou. Porque você não escutou o que ela disse, você não vai escutar. É um tipo de coisa que a esquerda está fazendo. Não adianta conversar com quem é bolsonarista. E o diálogo é assim. Você diz uma coisa e eu digo: “eu nunca tinha pensado nisso”. Aí você vai considerar, pode até manter a mesma opção que você estava, a mesma linha de pensamento, mas aquela frase entrou e fez, dentro da sua cabeça, um período composto por subordinação, chamado: concessão. O que é a concessão? Ela é assim: a frase principal se mantém, mas ela concede o oposto de acontecer. E você deixa, na sua fala, o oposto aparecer. A gente não está construindo concessivas, nem na escrita. E quando constrói na oralidade, constrói errado, porque constrói sem o subjuntivo. As pessoas não fazem mais as concessivas, por conta da polarização. Na verdade, é uma simplificação das nossas complexidades. Não há só dois sexos; não há só verdade e mentira; não há só bom e mau. Isso é uma coisa atrasada, uma coisa romântica do século XIX. Você considerar que o herói é bonito e só faz coisa certa e o vilão é feio e só faz coisa errada, lá vamos, Bolsonaro. Pessoas como Bolsonaro estão nos Estados Unidos, na Turquia, na Hungria, na Itália, na França e na Argentina. São monstros gestados em Marte? Com os quais a gente não vai nem falar? Meu bem, a literatura está muito necessária.

CONTINENTE No mês de agosto, foi anunciado que você foi escolhida para a cadeira de número 32 da Academia Pernambucana de Letras. Como essa notícia chega para você?
FLÁVIA SUASSUNA (Abre um sorriso) Meu Deus, é muita responsabilidade! Não sou uma pessoa muito acadêmica, mas acho que chegar lá vai me abrir portas, sabe? Quais são as portas que sonho que se abram para mim? Eu tenho nove livros publicados, mas queria muito publicar outros que estão prontos e que não tenho alternativa de publicação. É muito difícil publicar no Brasil, principalmente se você é habitante do Nordeste. Eu tenho uma esperança, não sei se essa esperança vai se concretizar, mas acho que a gente vive de esperanças, de utopias. Uma vez eu vi isso, foi Eduardo Galeano que me ensinou. Ele disse, falando sobre utopias, num vídeo que eu vi, aí, acabou a palestra dele e tinha um cineasta argentino chamado Fernando Birri junto dele. Abriram as perguntas e uma pessoa da plateia disse assim: “Para que serve uma utopia?” Ele disse que ficou paralisado de terror. Aí Fernando Birri, na maior tranquilidade do mundo, disse assim: “uma utopia é assim: você bota uma coisa no horizonte, quando você se aproxima dois passos, ela se afasta dois passos; quando você se aproxima 10 passos, ela se afasta 10 passos. Para que serve uma utopia? Pra isso, para ajudar a gente a caminhar”. Então, acho que a gente vive dessas esperas. Dessas utopias, dessas imaginações. Tenho dois sonhos, chegando lá. O primeiro é que eu consiga os meus livros que não são publicados. Tenho um romance não publicado de bioficção, que é você misturar ficção com realidade. E eu contei a história da minha família, desde a minha bisavó, que é muito parecida comigo. E eu lavei a história da minha família escrevendo esse livro. Eu amei escrevê-lo. Tenho um livro que quando coloquei no grupo dos meus irmãos e disse: “acabei o poema do Recife.” Aí Débora disse assim: “Ele me lembrou O cão sem plumas.” “Não diga mais nada, só de você ter se lembrado já é uma maravilha.” Imagina, uma pessoa olhar meu poema e se lembrar d’O cão sem plumas, de João Cabral. Aí ela disse: “Não, mas eu preciso terminar… O cão sem plumas é muito disruptivo, tem coisas que eu não entendo, e eu entendo o seu de cabo a rabo, acho melhor.” (risos). Tenho um livro chamado Isolamentos, com poemas que escrevi durante o isolamento social, mas não só sobre o isolamento, mas sobre temas que foram discutidos durante o isolamento, sabe? Tenho outro sonho que é assim… Queria que mais pessoas tivessem acesso ao estudo da história da literatura. Existe um projeto lá dentro da Academia que é fazer uma espécie de convênio entre as escolas públicas e a Academia para os meninos da escola pública virem assistir aula lá. Agora, a pessoa precisa ser professora para poder fazer isso. Não pode ser acadêmico que a vida inteira foi dentista e, aí, vai ser professor. Não dá certo um negócio desse. Existe esse projeto e vou tentar colocá-lo em prática junto. Não é sozinha, sozinha eu não conseguiria de jeito nenhum, vamos ver se a gente consegue. Aí seria novamente eu continuar formando leitores, que é a coisa que eu amo fazer e que faço há muito tempo, por isso tenho muita prática. 


Foto: Leopoldo Conrado Nunes

CONTINENTE
Todo mundo tem uma professora ou professor que foi marcante na memória. Você é uma dessas para muita gente, existe algum professor ou professora que marca a sua vida?
FLÁVIA SUASSUNA Alguns professores. O próprio tio Ariano, ele não foi meu professor, mas ele foi professor de metade da minha sala, porque eu estudava de manhã e a outra metade estudava à tarde, na UFPE. Na época, tinha isso. Até hoje tem, acho. Quando estou nas escolas, é aquela aula da despedida no terceiro ano. Ele deu a aula e amei,porque eu tinha acabado o curso de Letras e tinha quase sido a melhor aluna de todas, mas ele deu a aula sobre um cara chamado Lima Barreto, sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar. Sou apaixonada por Lima Barreto até hoje, porque foi via tio Ariano que comecei a amar esse sujeito. Ele é mulato e não teve o jeito de Machado de fazer a inserção social, porque ele, em cima de ser mulato, era gay e alcoólatra. Naquela época, o estudo da literatura brasileira escamoteava a existência dele, não a de Machado. Embranquecia Machado e agora a gente está enfrentando essas coisas. Acho legal isso, enfrentando a nossa diversidade sexual. O que me ressente nessa discussão é que a gente pega o jeito de discutir americano sem fazer as adequações. O resto, acho legal.

CONTINENTE O que você está lendo agora?
FLÁVIA SUASSUNA Estou relendo O amor nos tempos do cólera (1985), de Gabriel García Márquez. Amo esse livro.  Eu o li muito na pandemia. Ontem, dei uma entrevista aqui; hoje, estou dando outra. Você fica com pouco tempo, sabe? Valter Hugo Mãe disse recentemente numa entrevista que, antes da pandemia, ele tinha o desejo da ubiquidade. Você querer estar numa feira literária, trabalhar, ter vontade de estar em todos os lugares. E a pandemia forçou você a ficar quieto num canto. Como eu não tinha compromisso, podia ler sem sentir que eu estava faltando compromissos. Li muito e li tudo sobre peste. Li A peste (1947), de Camus. Depois, me deu vontade de ler O estrangeiro (1942), fiquei horrorizada. O amor nos tempos do cólera, estou relendo agora, mas também li na pandemia. Ensaio sobre a cegueira (1995), li também um livro lindo de um escritor inglês que pouca gente fala dele, que se chama O véu pintado (1925), de Somerset Maughan. Tem um filme belíssimo, na Netflix, que é inspirado no livro, mas o nome não é o mesmo, O despertar de uma paixão (2006), a história de um rapaz que vai para a China numa epidemia de cólera. Li muito sobre peste, porque eu dizia: “vou terminar vencendo essa peste com algum tipo de conhecimento.” Agora estou lendo de novo, mas agora estou lendo por outro motivo, estou escrevendo um livro sobre o amor. Só estou me importando com o amor. Escrevi uma crônica sobre o amor e agora estou escrevendo poemas sobre o amor. Vai ser até engraçado, vai ter até um projeto bem legal. É uma epidemia na China e vai um inglês cuidar. É um livro que ficou politicamente incorreto, porque, na verdade, é uma história linda de amor, mas tem esse contexto da peste e da superioridade inglesa em relação à China. 

 CONTINENTE Queria que você falasse sobre o seu primeiro livro publicado, O jogo das trevas (1980).
FLÁVIA SUASSUNA Esse livro, eu publiquei dentro de um movimento que aconteceu aqui no Recife chamado Edições Pirata. Era um escritor chamado Jaci Bezerra e outro chamado Alberto da Cunha Melo, que pirateavam a gráfica da Fundação Joaquim Nabuco. Eles eram funcionários da Fundação Joaquim Nabuco e iam no sábado e faziam, digamos assim, o roubo da gráfica. Se bem que, na época, quem era o diretor da Fundação era Doutor Fernando Freyre, e ele fazia de conta que não via, mas ele estava vendo. É por isso que ela era pirata, porque eles pirateavam as máquinas da Fundação Joaquim Nabuco e lançaram livros de vários escritores. E esse livro foi o primeiro romance escrito por uma pernambucana. Eu tinha mais ou menos 21 anos, estava terminando o curso de Letras e publiquei esse livro, em 1980. Antes de mim tinha jornalista e poeta, mas ainda não tinha ficcionista. Ele é bem fininho, mas tem uma estrutura de romance. Todos os episódios convergem para o episódio central.

CONTINENTE E o seu blog?
FLÁVIA SUASSUNA Ele existe desde 2006. Vive um pouco atrasado, não é porque eu não escrevo, é porque é Débora quem posta, porque eu não sei postar. Escrevo lá poemas, crônicas, resenhas. Recentemente, estou nessa história de escrever muitos poemas, porque é mais rápido. Nos dois anos da pandemia, eu fazia parte de um projeto num café, que era assim… Um rapaz chamado Eduardo Farias e uma moça chamada Patrícia Luna cantavam músicas de Vinícius de Moraes e eu recitava poemas dele. Agora, às vezes, eu poderia recitar meus, dependendo do conteúdo, porque eu queria que as pessoas olhassem o livro, enquanto eles cantavam. Isso é impossível fazer com um conto, uma crônica ou um romance. Essa história de você tornar a poesia um espetáculo, é uma coisa melhor na literatura. Nesse livro Isolamentos, tem um poema que eu recitava todo sábado lá, que era Despedida, sobre os mortos da pandemia. E as palavras eram o velório delas. Quando acaba uma pandemia, quem sobrevive fica com um complexo de culpa. As pessoas aplaudiam, gostavam daquele poema, que era um poema como se a gente se debruçasse sobre isso.

 CONTINENTE Dizem que quando a gente ensina, também aprende. O que os seus alunos e alunas lhe trouxeram na vida? 
FLÁVIA SUASSUNA A primeira coisa que eu amo nos meus alunos é como eles têm coragem de me dizer quando se encontram comigo, sabe? Eu tenho um filho que diz assim: “acho impressionante em mamãe que todo aluno quer dar um beijo nela e um abraço”. Ele disse assim: “Eu tive certos professores que é o contrário. Com mamãe é uma espécie de unanimidade” (risos). Não sei se é porque eu sou muito afetiva falando. A gente tem que ter cuidado com essa palavra afeto. Eu afeto muito meus alunos. Com coisa pesada e com coisa light, então, é assim. Acho bonito como eles não têm vergonha. Eu não tenho uma autoestima boa, não, mas isso me ajuda muito. Eles me dão esse afeto de volta e chegar aos 66 anos e não tenho um pensamento de “para que prestou a minha vida?” Eu sei certinho, é uma coisa muito confortável. E acho que aprendo também outra coisa fora isso. Em última instância, aprendi que para a pessoa ser afetada não precisa você ser mais gordo, mais magro, mais novo, mais velho, independe. É um contato de amor.  Tem uma hora que você diz tanto uma frase, que você termina vendo a frase em outra perspectiva. A gente aprende enquanto fala, enquanto ordena, enquanto classifica. Por exemplo, comecei a minha carreira e não gostava muito de Machado de Assis, hoje, eu amo. É porque a ironia dele me afeta. Ele é como Woody Allen. Eu diria talvez a mesma coisa que ele disse, só que sem a ironia. É por isso que meu coração tende a João Guimarães Rosa, porque acho que ele também mostra muita coisa que a gente não vê se a gente for com pressa, mas sem a ironia de Machado.

CONTINENTE Darcy Ribeiro fala que a crise na educação brasileira é um projeto. A gente sabe a importância da educação, o quanto ela é transformadora. Mas, no nosso país, não é acessada por todos como deveria ser, são muitas camadas. O que a educação significa na sua percepção e do que ela é capaz?
FLÁVIA SUASSUNA Ela é capaz de ensinar que a igualdade é possível. Vou contar uma experiência que eu tive. Um dos meus filhos foi morar em Piracicaba, uma cidade no interior de São Paulo. Agora, inclusive, tenho uma neta que está falando com o “r” do interior de São Paulo. Já fui quatro vezes em Piracicaba visitá-los. E é uma coisa deliciosa de verificar. Independentemente da pessoa ser branca ou ser negra, inclusive, porque a cidade de Piracicaba foi fundada com os mesmos alicerces do Recife. Ela tem um rio lindo, tem um bocado de engenho, tem cachaça, tem cana. Só que a gente tem 500 anos e ela tem 200. É uma cidade mais nova, mas fundada em cima da cana. Lá tem a Esalq-USP. Meu filho foi botar uma loja do Grau Técnico lá. Lá o clima é muito seco e fui fazer as unhas, coisa que nunca faço, e pensei que a manicure fosse a dona do salão. Adoro conversar, a gente conversou. Daqui a pouco chega a dona do salão e ela me apresenta. Como ela teve mais acesso à educação, não percebi a diferença. Foi uma experiência para mim fundamental para compreender a importância da educação. A síndica é uma mulher e a zeladora é uma mulher, do prédio do meu filho, e eu falei com a zeladora pensando que é a síndica. Não tem nada a ver com o jeito de vestir, nem a cor da pele. É um marcador de acesso à educação, que você que é recifense reconhece. Faz uma sociedade menos hierárquica. É uma coisa deliciosa de experimentar. Tem muita gente negra lá, a questão não é essa. É como se fosse uma injustiça duplicando a outra, aqui no Recife. Mas lá, não. Porque as pessoas tiveram acesso à educação. 

 CONTINENTE É possível ler o mesmo livro duas, três vezes e sentir coisas diferentes a cada leitura?
FLÁVIA SUASSUNA É, porque o leitor não é o mesmo, o olhar não é o mesmo. A primeira vez que eu vi o Anna Karenina, eu disse: “que mulher horrível!”. A segunda vez eu disse: “Meu Deus do céu!”. Mas eu já era mãe dessa segunda vez. Aí a separação já fica mais complicada. Eu não tinha percebido isso. Na hora em que eu tive meu filho, vi como se torna difícil a separação. Depois, a gente começou a discutir muito francamente as questões femininas. Agora, acho ela ótima. No século XIX, todo mundo achava que Capitu tinha traído Bento. No século XX, a gente começou a desconfiar. No século XXI, tem gente que desconfia que Bento é gay. Tem o contexto da mentalidade e tem o contexto da gente, leitores, que a gente vai amadurecendo, vendo mais coisas. Num livro bom acontece isso, mas num livro ruim não acontece, não. Uma coisa que não se fala mais hoje em dia: “o clássico”. Mas o clássico tem essas camadas. Um livro como A escrava Isaura, por exemplo, não é um livro bom. Era um best-seller na época dele. Você lê com 18 anos, acha ótimo. O cortiço com 16 anos, acha ótimo, mas aí depois o compara com Memórias póstumas de Brás Cubas. Você vê porque tem a ideia determinista dentro d’O cortiço. Sempre pergunto aos meus alunos assim: “toda mulher em uma favela é prostituta?” Meus alunos: “Não”. “Pois Aluísio de Azevedo disse que era.” Porque se o homem é fruto do meio, ele tinha que botar que toda personagem mulher era prostituta, porque o meio ia desencaminhá-la. Eu digo: “ao contrário, minha gente, provavelmente tem mais evangélicas que prostitutas.” Mas você não percebe isso com 16 anos. São esses clássicos que suportam camadas de mentalidade e camadas de idade do leitor. 

CONTINENTE Você falou que sua relação como leitora começa na adolescência. Mas como foi sua infância?
FLÁVIA SUASSUNA Tenho pouquíssimas lembranças. Dizem que quando a infância não tem problemas demais, a gente se esquece. Eu sou a primeira filha, tanto que quando eu li Anna Karenina, eu não tinha entendido que ser uma mulher era um problema. Porque tive uma infância muito igualitária. Como minha mãe, depois de mim teve quatro filhos, de mim para o meu irmão, são 11 meses de diferença. A gente fica um mês com a mesma idade. Então, tive uma infância muito livre. Ninguém tomava conta do que eu brincava, por exemplo, eu não brincava de brinquedo de menina. Eu só brincava de pega com meu irmão, de futebol. Nunca ninguém me proibia. Ganhei uma boneca chamada Beijoca, na época. Ela tinha uns braços abertos e quando a gente mexia no braço, ela beijava. E eu tomei a providência de jogá-la pela escada, porque eu queria saber o que aconteceria com aquele beijo mecânico. E aí a minha mãe sequestrou a Beijoca, porque quem brincou com ela foram as minhas irmãs. Eu lembro que uma aluna minha, uma vez, queria fazer Odonto e a mãe dela queria que ela fizesse Medicina, aí, eu usei esse exemplo. Ela disse assim: “desde pequena, ela brinca de médica” Eu disse assim: “Minha senhora, quando eu era pequena, eu jogava minha boca pela escada e eu não sou assassina hoje, sou professora”. Eu não sabia que existia problema no fato de ser mulher, porque meu pai não educou separando.

 

CONTINENTE Em matéria de vida, para você, o que é viver?
FLÁVIA SUASSUNA É um grande desafio. Acho uma coisa muito difícil viver entre pessoas. Tenho um amigo que recentemente disse que tenho escrito coisas muito generosas. Meio que tenho pena do ser humano, das dificuldades e impossibilidades da gente. Mas é um grande desafio. Não sei se é um desafio de melhora. Por exemplo, os grandes acidentes que acontecem com a gente, não sei se eles nos tornam melhores. Acho que não tem uma evolução ética, não. Uma vez escrevi um texto chamado Perdão. Perdoar não tem nada a ver com esquecer, tem a ver com você gravar aquela experiência, sabe? E poder agir dali para frente com aquela experiência. Acertar olhar a coisa em outra direção, baixar os volumes, porque acho que tem uns episódios que mandam muito na gente e a gente precisa aprender a subordinar aquela experiência. Você não vai esquecer nunca. Mas você a olha com um olhar diferente. Agora, preso na polaridade, você não vai conseguir. É uma simplificação muito grande, sabe? Que a gente está e acho que dificulta o perdão, a generosidade, o diálogo, porque você precisa de um sentimento de mais igualdade para dialogar. Se você se achar superior, se você se achar o anjo… Há muito a história da autopurificação, hoje em dia. Essa história do cancelamento, por exemplo, é muito você se arvorar de ser o certo e acusar o outro de ser o errado. Existe essa tendência da autopurificação, de você ser o anjo e o outro ser o errado. Você ser o anjo em cima de quê? De que ideia? É uma loucura isso. Não somos uns melhores que os outros, temos a mesma natureza. Tanto que eu acho bonita a história de Prudêncio, de Brás Cubas, porque Machado de Assis botou nele uma característica humana.

CONTINENTE Quais são as suas lembranças mais felizes?
FLÁVIA SUASSUNA O nascimento do meu terceiro filho, Daniel. Porque o meu primeiro parto foi uma cesárea, estava desacordada. O meu segundo parto foi dificílimo, com um menino que nasceu com quase 5kg e ele teve a ideia de começar a nascer 11h30 da noite e terminar de nascer 5h da manhã. Passei a noite acordada, estava exausta. Fiquei muito feliz, os dois são muito lindos, mas as condições do parto foram muito desfavoráveis, muito difíceis. O terceiro parto, não doeu e o menino nasceu, peguei-o no braço sem ter sofrido nada. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida, porque não teve as outras circunstâncias ruins com as quais os outros chegaram que também foi uma felicidade muito grande. Então, não vou esquecer nunca. E engraçado é sempre em relação aos meus filhos. No dia que meu primeiro neto nasceu olhar a cara do meu filho – ele é muito bonito, mas ele estava lindo nesse dia. Achei isso tão lindo, de ver aquilo. Não sei se você entende isso que vou dizer, mas a geração do meu filho não está com coragem de ter filhos, só quer ter pet. A coragem dos meus filhos de ter filhos me deixa muito feliz. Outra coisa muito feliz na minha vida foi, assim, eu me mudei de Casa Forte para a Madalena. Tenho Filipe, que tem deficiência, ele teve meningite, uma raríssima, em 2000. Ele ficou com muitas sequelas e uma delas é que ele não fala. Ele entende tudo, mas ele não fala. Uma amiga minha perguntou assim: “Filipe, você prefere morar aqui ou em Casa Forte?” Aí, ele respondeu: “A minha casa é a minha mãe.” Achei aquilo lindo. Independe o lugar para ele, contanto que esteja perto de mim, porque ele sabe que eu cuido dele. E também gostei muito de ser eleita na Academia. 

 

ERIKA MUNIZ, jornalista com formação também em Letras.

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