Entrevista

“O que eu ouvia é que isso não era uma profissão” [parte 2]

Ao lançar 'Oração para desaparecer', Socorro Acioli fala sobre os desafios para se tornar escritora e questões contemporâneas da literatura

TEXTO Débora Nascimento

02 de Abril de 2024

Foto Renato Parada / Divulgação

[continuação]

CONTINENTE Suas aulas de escrita nasceram da importância que esse curso de Gabriel García Márquez teve para você?
SOCORRO ACIOLI Eu fui em 2006 para o curso, em 2009 eu comecei a dar essas aulas, de forma esporádica. O primeiro curso que eu fiz foi, por acaso, em Cabo Verde, um trabalho para a embaixada, e era outra coisa que eu estava fazendo, era um curso com crianças e professores, aí um dia não tinha nem criança nem professor, só tinha adolescente. Aí eu fiz uma oficina improvisada e foi maravilhoso. A partir daí, comecei a estruturar essas oficinas. A partir de 2013, eu comecei a fazer essas oficinas de forma sistemática, tinha o básico, intermediário, avançado, fui acompanhando pessoas escrevendo romances. Um deles é o do Stênio Gardel, que foi um dos meus alunos. Depois dessas oficinas esparsas, eu montei a grade de um projeto de pós-graduação, que funcionou inicialmente numa faculdade privada e hoje está numa outra, que é a Unifor, que é a maior do Norte e Nordeste, e a gente vai para a sétima turma, já. Eu nunca fiz as contas dos alunos de pós, mas eu creio que são cerca de 200 alunos já formados. Eu ainda sinto uma necessidade de devolver para o mundo o que eu recebi nesse curso de Gabo e em outros cursos que eu fiz. E para eu ter um trabalho que não me afastasse da literatura. No começo, quase missionária até, quase uma sensação de me sentir na obrigação de ajudar as pessoas. Nesses dez anos, muita coisa aconteceu, muita gente passou pelos cursos, eu tenho uma visão um pouco diferente do que é o curso hoje do que é que tem acontecido. Porque, depois da pandemia, virou uma epidemia os cursos e as pessoas interessadas em escrever. Foi uma coisa que aumentou muito. E aí eu acho que hoje, para além do incentivo que eu dou às pessoas que querem escrever, eu me sinto na obrigação, também, desse papel de falar que isso é um trabalho, é profissão. Quem trabalha com literatura reclama que não vende livro, que não tem espaço, que o livro não é valorizado, reclama que o autor ganha pouco, reclama de um trato que se tem com a literatura no Brasil de pouco respeito, pouca valorização. Mas, às vezes, a gente não lembra que essa valorização precisa começar pelas pessoas que fazem literatura e que fazem a cadeia do livro inteira. Então, quando você se coloca defendendo que escreveu esse livro por uma questão tão, às vezes… Ai, vai entrar em polêmica de autoficção, melhor não falar, vamos mudar de assunto.

CONTINENTE Está exatamente na minha lista uma pergunta sobre a autoficção, que virou uma questão depois do Nobel de Annie Ernaux.
SOCORRO ACIOLI 98 % dos alunos dos cursos que eu tenho feito, tanto na Unifor, quanto os cursos curtos, eu fiz em Curitiba, 98 % eu estou falando porque eu já fiz as contas, quer escrever autoficção. Aí eu não sei, eu não consigo entender, porque quando eu sento para escrever, eu quero pensar em tudo, menos na minha vida. Eu não aguento mais minha vida, mas isso é um problema, a gente tem questões. O meu pai, a minha mãe, não sei o quê, as minhas filhas, eu não aguento mais. Já acabou o tanto que eu tenho que lidar. Então, quando eu sento, tanto para ler como para escrever, é o momento em que eu me desvinculo disso, da realidade, e vou para essa outra realidade, para esse universo paralelo da história. E a coisa mais prazerosa do mundo, para mim, está ali, onde eu estou lidando com outras regras de jogo, com outras experiências, com outras situações. Não vou falar de autoficção. É melhor mudar de assunto.

CONTINENTE Estava na minha lista perguntar se você teria interesse em algum momento escrever autoficção, mas você já respondeu. Mas você tem interesse em ler autoficção?
SOCORRO ACIOLI Depende de quem, mas escrever no momento, Deus me livre. Não tenho a menor vontade. Pelo contrário, saíram os dois, o Cabeça do Santo e a Oração, agora estou fazendo um outro, que é o Delírio de San Pedro, e eu não sei qual vai ser o próximo ainda. Eu fico com medo de não aparecer uma outra história muito boa da realidade, de não aparecer pra mim uma que me chame a atenção e que me dê vontade de escrever, porque eu não tenho a menor vontade de escrever sobre a minha vida de jeito nenhum. Eu acho que tem a ver com o fato de ser jornalista, tem a ver com essa formação. A gente trabalha a gente é preparado como jornalista. A nossa formação é pra olhar pras coisas da realidade para olhar, ouvir as pessoas para ouvir as fontes e pra produzir algo com isso, para produzir informação, para criar conexões entre as pessoas entre esses fatos e as pessoas. então não sei se tem a ver com a minha formação como jornalista. Eu acho que o mundo tem tanta história a realidade tem tanta coisa boa tanto absurdo e como as pessoas sabem que eu gosto de absurdo, ficam me mandando matéria, jornal história eu vi hoje uma história de uma tia minha que me contou, aí conta umas coisas então é tanta história no mundo é tanto material de trabalho bom que a gente tem pra fazer que eu acho tão minúscula a minha própria experiência diante disso tudo que, pelo amor de Deus, eu não tenho a menor vontade. Eu tô muito empolgada com o livro novo pensando que é um mundo tão diferente do meu, um personagem tão diferente da minha. Eu acabei de ler a Camila Souza Bilardo. Li uma tacada, eu li dois li o Parque das Irmãs Magníficas e li o que vai sair pela companhia que é o Tese sobre a Domesticação ela no Parque das Irmãs Magníficas fala da experiência dela como travesti em Córdoba num parque com essas pessoas mas não é centrado nela ela é uma narradora que está ali, que se coloca como Camila e que está ali em observação mas o livro não é sobre a vida dela o livro é sobre uma experiência coletiva dolorosa e sofrida e ao mesmo tempo divertida daquelas pessoas que convivem com ela. eu acho um bom exemplo de como pegar a própria experiência como matéria de literatura mas ao mesmo tempo não fazer daquilo uma escrita terapêutica que eu acho que as pessoas estão querendo precisando lidar com as próprias experiências com a própria vida, com os próprios traumas aí acham eu não estou dizendo que todo trabalho de autoficção é ruim não, muitos são excelentes inclusive da Annie Arnault que eu gosto muito mas a Annie Arnault é a Annie Arnault também. ela escreve sobre a experiência dela de ser de uma geração, posterior a uma geração que viveu a guerra e ser filha de um pai que viveu a guerra e o que era isso o que era ser jovem na França o que era viver ali eu acho que várias pessoas se identificam com aquela vivência dela, mas ela sabe fazer isso, construindo ali um texto literário, isso é muito polêmico. Isso vai dar confusão, eu vou parar de falar isso, eu vou parar de falar nesses assuntos de autoficção.

CONTINENTE Queria saber sobre essas histórias absurdas que você coleciona. Já são dois grandes livros nos quais você cria ficção a partir de histórias reais. Como é que isso acontece?
SOCORRO ACIOLI Eu adoro. Amigos que são funcionários públicos, que atendem o público, pessoal da área de agronomia, que faz trabalho de campo, que viaja muito para o interior, da sociologia, pessoas mais simples que conheço vêm me contar histórias absurdas. Por exemplo, eu estava agora em Cuba, na feira do livro de Havana, e lá estava muito quente. Muita gente entrou para assistir a minha palestra, sem saber o que estava acontecendo, por causa do ar-condicionado. Eles sentaram lá. E lá para tantas, o mediador, outro jornalista, ele contou que tem coisas que só acontecem com ele, se ele estiver comigo. Ele tinha passado já 15 dias em Havana antes de eu chegar e não tinha acontecido nada de anormal, aí no dia que ele viaja comigo a gente passa por um vudu palo, perigosíssimo lá da santeria. Eu disse eu adoro as pessoas me contarem histórias. E aí o pessoal que estava lá começou a contar histórias. Tinha um grupo do Chile, da Colômbia. Acabou essa palestra, que era uma palestra oficial do Ministério da Cultura com a Embaixada do Brasil em Havana, e virou uma conversa de comadre, porque o povo, ah, eu tenho uma tia, ah, eu tenho uma avó, contando histórias do Chile e da Colômbia. Aí o meu olho brilha, eu acho que é aí que está a energia do meu trabalho, é contar essa história contar essas histórias que vão aparecendo, me contam em eventos, me contam em Instagram, e eu vou colecionando, quanto mais absurdo, melhor e vou colocar nos personagens algumas histórias que eu já ouvi ao longo do tempo nesse livro que eu estou fazendo, Delírio de San Pedro. 

CONTINENTE Você pega esse mote, começa a construir a história, já sabe a linha narrativa e como vai ser o final, não é isso?
SOCORRO ACIOLI Demora pra saber. O Oração pra Desaparecer, por exemplo. Uma amiga foi para uma exposição de fotos históricas no Ceará. Viu uma foto dessa igrejinha, que é em Almofala, coberta de areia pela metade e umas pessoas na frente. Ela tirou a foto da foto e mandou pra mim. Disse: “Olha, isso aqui é a tua cara”. Então, eu tinha uma igreja que passou 45 anos enterrada, mas não tinha uma história. Fiquei um tempão pesquisando arquivos, documentos, entrevistando pessoas. Encontrei uma crônica de Drummond sobre essa igreja. O nome é Areia e Vento, publicada no Correio da Manhã dia 17 de novembro de 46 ou 48. Ele começava a contar a história do jeito que ele tinha recebido, porque ele trabalhava com os processos de patrimônio nacional e contou a história inteira. Aí o negócio começou a acontecer, porque aí apareceu uma personagem, uma mulher chamada Joana Camelo. Esse processo levou dois ou três anos de pesquisa. E, na crônica, Drummond pede que alguém escreva sobre essa igreja. Ele me deu essa ordem. Era uma questão de honra.

CONTINENTE É interessante você contar os bastidores da concepção do livro, porque ele também poderia ser um livro-reportagem, não é isso?
SOCORRO ACIOLI Poderia e espero que alguém faça um dia, porque, obviamente, muita coisa ficou fora do texto literário. Mas tem muita informação, muita coisa para dizer, para contar ainda. Eu tive acesso a documentos, mas não foi uma pesquisa profunda. Se alguém for fazer um livro-reportagem, vai encontrar muito mais. Mas eu espero que façam, assim como sobre a cabeça, que também rende um monte de coisa que eu não fiz, porque, no campo da ficção, meus objetivos eram outros, inclusive inventar coisas que não aconteceram, mas a história também é muito boa.

CONTINENTE Você fez uma grande pesquisa aprofundada sobre a obra de Monteiro Lobato e recentemente teve um encontro na Unicamp para discutir se ele deveria ser ou não cancelado. Inclusive uma professora que é especialista também em Monteiro Lobato, Tâmara Abreu, do Rio Grande do Norte, questionou esse tipo de evento. O que você acha dessa discussão em torno de Monteiro Lobato?
SOCORRO ACIOLI Acho tão violenta quanto a censura ao livro do Jefferson Tenório, mas, guardando as devidas proporções, porque o Monteiro Lobato foi um homem do seu tempo e ele teve, sim, muitas falas racistas, tanto na obra infantil, quanto na obra adulta. Ele teve muitos posicionamentos retrógrados em vários aspectos, não só o tema do racismo. O ponto focal da minha pesquisa era como o universo da leitura era tratado dentro da obra infantil. Porque a gente tem uma figura, que é a Dona Benta, que é uma mulher que mora num sítio, mas ela compra livros no livreiro da capital, ela pergunta ao livreiro quais são as novidades, ela lê livros no original, ela lê traduções, ela lê clássicos... Ela coordena um clube de leituras, O Sítio é um clube de leitura. As crianças, os seres, as criaturas que fazem parte desse clube de leitura podem escolher os livros. E aí o meu foco foi o Don Quixote, porque a Emília, um dia, decide que o livro que ela vai pedir para a Dona Benta ler é o maior livro da biblioteca, porque ela quer que dure mais. Em um dos livros, a abertura para a obra do Câmara Cascudo, que é quando a Tia Anastácia conta as histórias dela... Os clássicos da literatura infantil e juvenil do mundo inteiro estão ali, os ingleses, o Peter Pan, Alice no País das Maravilhas e os personagens estão ali junto... É uma obra muito rica, muito vasta, e dentro dessa obra muito vasta existe um componente, que é o racismo, que não se tem não tem dúvida, não se contesta isso. Mas aí, como é que se destrói tudo, como é que se cancela tudo, como é que se queima e joga no lixo uma obra de 22 livros para criança e mais 20 e tantos livros que são obras adultas, são quarenta e tantos volumes? Como é que se joga tudo isso no lixo por causa de falas racistas de um homem que vivia num tempo em que as pessoas tinham essas mesmas falas racistas, e que é um reflexo da história da formação do povo brasileiro, que é essa herança escravocrata que a gente tem, todos temos, que existiu, que existe, que continua existindo, esse desconhecimento, essa negação? Quando eu estava escrevendo Oração para Desaparecer, eu li muito o Roberto Gambini, que é um cara que é um junguiano, que fala que os problemas estruturais do Brasil estão muito arraigados no princípio, que é como se o Brasil fosse um paciente em terapia que nega o próprio pai e nega a própria mãe. Que nega a sua origem, que é a origem dos povos originários e dos povos africanos. Ninguém quer ser... Estou falando das pessoas desse grupo que a gente considera e coloca no rol das pessoas ainda racistas. Ninguém quer ser descendente de escravizados africanos, mas todo mundo quer ser descendente de portugueses, italianos, poloneses. Todo mundo exalta seus sobrenomes estrangeiros. Eu tenho um sobrenome estrangeiro, o Acioli. É italiano, e tenho esse sobrenome do meu tataravô, que é italiano. Isso é uma realidade. Mas a minha outra realidade é que a minha bisavô nasceu nesse sítio, Sabe Muito, que era um sítio de escravizados no Rio Grande do Norte. Isso é a minha formação. Então eu não sou italiana. Eu sou fruto de um processo de colonização violenta, de miscigenação, e é o que nós todos somos. Mas ele fala que o Brasil é esse paciente confuso, que não quer ser filho da sua mãe nem quer ser filho do seu pai. A minha geração, ainda, eu tenho 49 anos, a gente estudou que não tinha nada aqui, existiam alguns selvagens, e finalmente chega o colonizador português para colocar ordem e transformar isso em um país. Então o país nasce em 1500, e aí eles vão para Salvador, vão para o Rio de Janeiro, fundar a maior biblioteca, a imprensa, e aí o país passa a existir. Pelo menos foi assim que a minha geração foi educada. A geração da Camila, que estuda numa escola super progressista, é outra coisa. O livro didático da Camila sobre a História do Brasil é completamente diferente, outra visão de formação de país. E aí o Monteiro Lobato é um escritor fruto dessa realidade que é a nossa, que teve várias falas infelizes e vários trechos infelizes e muito racistas na obra dele. Mas daí a pegar e destruir uma obra inteira por causa dessas falas e privar os leitores dessa discussão porque um homem que nasceu de uma família abastada em São Paulo, convivendo com descendentes escravizados servindo a casa dele, fazendo as coisas na casa dele… Não tem como um homem, produto de um contexto histórico desse, não repetir, não reproduzir. Mas isso é a história do nosso país. Eu não falo, não gosto muito de falar. Já me colocaram num programa ao vivo pra tratar disso sem me avisar, e era eu e uma pessoa ativista do movimento negro, para debater Monteiro Lobato. Eu não sei, naquele dia eu tive que ter muito cuidado, ser muito respeitosa, mas a partir de determinado momento eu já não argumentei mais, porque ela também estava certa nos argumentos dela. Mas eu tenho pena, eu estudei muito tempo e muito profundamente Monteiro Lobato, para não lamentar. Tem coisas geniais na obra dele, na obra infantil principalmente, que nunca foram superadas na literatura brasileira. Nunca ninguém escreveu pra criança como ele escreveu, apesar da gente ter grandes autores, a Ana Maria Machado, que inclusive concorda comigo. É uma pena muito grande.

CONTINENTE Você acha que a literatura infantojuvenil ainda é menosprezada no mercado?
SOCORRO ACIOLI São dois mundos. Existe o mundo da literatura infanto-juvenil de premiações, de instituições que trabalham com o livro infantil. Existe esse universo à parte, que muita gente não conhece. Mas, de fato, são mundos até apartados. Tem gente que diz assim, “ah, porque você escrevia pra criança e agora…’ É como se tivesse sido uma evolução.
E nem é porque eu acho muito mais difícil escrever para criança. O meu afastamento foi motivado pela minha dedicação a escrever o romance, a dar as aulas. Mas é também porque eu acho muito difícil escrever um livro infantil que preste. Escrever a gente escreve, mas que fique bom, eu acho muito mais difícil. 

CONTINENTE Queria saber se o fato de ser uma autora bem-sucedida, que vende bastante, premiada, se isso tem um peso, se isso tem um impacto na hora de você escrever.
SOCORRO ACIOLI Vende bastante de novembro pra cá. Até o ano passado, era assim: sempre vendendo, mas nunca foi uma venda mais expressiva, como agora, motivada pela minha participação na matéria do Fantástico e pela participação na Flip. Quando o Pedro Pacífico, que tem o Instagram de literatura, Bookster, falava do A Cabeça do Santo, sempre tinha também um aumento grande das vendas. O Fantástico alcança um público ainda muito, furou a bolha do universo da literatura, da comunicação no nosso mundo, que é um mundo muito restrito. 

CONTINENTE O fenômeno veio daí, assim como ocorreu com o primeiro disco do Secos & Molhados.
SOCORRO ACIOLI É muito impressionante. Eu estava completamente desavisada. Quando foi ao ar, fiquei muito preocupada porque eu me expus muito. Falei coisas que eu nunca tinha falado publicamente da minha família. Fiquei muito preocupada com a repercussão disso. Mas aí comecei a ver as pessoas comentando, querendo comprar o livro. O porteiro do meu prédio me pediu um livro, o porteiro da escola da minha filha também queria o livro. E eu comecei a ver a coisa se ampliando, comecei a ter noção do quanto a TV aberta ainda alcança as pessoas. E aí muita gente veio falar comigo. Porque eu contei que a minha mãe era esquizofrênica. Muita gente veio falar que a mãe também era esquizofrênica. As pessoas abriram o coração. Isso ajudou a quebrar o preconceito. Muitos filhos de suicidas vieram falar comigo. Uma história me tocou muito, de uma menina que tinha perdido o pai e estava trancada no quarto há meses. Por um acaso, essa menina passou na sala quando a mãe estava vendo Fantástico, e ela ouviu e sentou-se para ouvir. A partir desse dia, saiu do quarto, voltou para a escola. Eu já estou meio acostumada com isso, que eu digo de um jeito tão automático, que o meu pai é suicida e minha mãe esquizofrênica. Eu perco a noção do quanto se expor, você também chega no coração de outras pessoas. Eram depoimentos de agradecimentos. Para quem está de fora, é uma história de vitória de superação. De perto, não é assim, ter uma história de vida trágica e depois ficar tudo bem. São muitas marcas, são muitas feridas, mas, para as pessoas, eu passo a representar uma possibilidade de vitória, de vencer, de superar. Aí veio o lançamento do Oração para desaparecer, que saiu primeiro na TAG para 12 mil pessoas, em outubro, depois, com o lançamento oficial, em novembro, sendo o livro mais vendido da Flip, com uma fila de quatro horas. Então, somou tudo, e veio esse aumento muito grande nas vendas. Tem muita gente envolvida nisso, os livreiros, a editora, os outros autores, os meus alunos. É bom pra muita gente que o livro venda bem e pra mim que tem apartamento pra pagar também é ótimo. Então, quero que venda mais mesmo, quero que venda muito (risos).

DÉBORA NASCIMENTO, repórter das revistas Continente e Pernambuco

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