Entrevista

"O filme fez muito bem ao Brasil e a mim também"

Terceira dos cinco filhos de Eunice e Rubens Paiva Filha, Nalu Paiva, que mora na França, fala sobre "Ainda estou aqui", a adaptação do livro do irmão Marcelo, da relação com os pais e Pernambuco

TEXTO Fred Navarro

03 de Março de 2026

Nalu Paiva e Fred Navarro, durante a entrevista

Nalu Paiva e Fred Navarro, durante a entrevista

Foto Divulgação

Como foi mostrado no filme Ainda estou aqui, de Walter Saller Jr., a pré-adolescente Ana Lúcia Paiva, terceira dos cinco filhos de Rubens e Eunice Paiva, testemunhou os acontecimentos que levaram à prisão e morte de seu pai em 1971. E já era chamada de Nalu. Nas décadas seguintes, ela acompanhou a luta silenciosa de Eunice para cuidar dela e dos irmãos, e para restabelecer a verdade sobre a tragédia que se abateu sobre a família.

Formada em Matemática pela USP e especializada em Tecnologia da Informação, ela mudou-se para Paris em 1992, tem três filhos e duas netas, e atuou como consultora de TI ao longo de sua carreira profissional.

Aqui, ela revela os bastidores dos festivais de Veneza em 2024 e da entrega do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro a Walter Salles Jr em 2025. Comenta sobre a expectativa de julgamento dos torturadores ainda vivos de seu pai e relembra suas visitas ao Recife nos anos 1980.

CONTINENTE Agora, um ano após o impacto e o sucesso do lançamento do filme “Ainda estou aqui”, de Walter Salles Jr., qual a sensação ou sentimento mais forte que ficou?
NALU PAIVA Após o lançamento do filme, percebi que alguma coisa mudou, liberou em mim algo que era uma espécie de véu, era como se eu fosse uma pessoa que não podia se revelar, que ninguém podia ver, que vivia um pouco na sombra, e isso foi alterado pelo filme. Hoje, posso falar sobre esse assunto com qualquer pessoa que leu o livro de Marcelo Paiva ou viu o filme, muitos sabem agora o que foi a ditadura militar. Após o desaparecimento do meu pai, o assunto era uma espécie de tabu, eu não conversava ou comentava com ninguém, à exceção dos membros da família e amigos próximos. Hoje, não, a conversa e o debate são francos e abertos. O filme fez muito bem ao Brasil e a mim também.

CONTINENTE Você mora em Paris há mais de três décadas, mas vem sempre ao Brasil. Do que sente mais saudade ou falta daqui?
NALU PAIVA Venho ao Brasil ao menos uma vez por ano, desde então, às vezes duas ou três. O que sinto mais saudade é do clima, da temperatura, que é quente aqui e ali, mas é agradável a maior parte do tempo, dá para usar roupas leves, vestidos, sentir o sol. Na França, além do inverno ser bastante frio, há a escuridão durante os dias em boa parte do ano. As frutas deliciosas daqui também fazem falta, a gentileza das pessoas, elas são sorridentes e amáveis. Lá, é difícil alguém sorrir espontaneamente, para estranhos principalmente. E sinto falta, é claro, dos bons amigos e da minha família.

CONTINENTE Qual a sua trajetória escolar e profissional depois daqueles anos sombrios? Como chegou à idade adulta?
NALU PAIVA Os anos eram sombrios, sim, mas eu era estudiosa, sempre fui bem em matemática e física. Lembro que no então curso colegial (Ensino Médio, hoje) participei de um jornalzinho de esquerda que foi censurado pela direção da escola. Na faculdade, fui presa com minha irmã Eliana durante uma manifestação e interrogada durante doze horas, ficou evidente que isso tinha relação com o ocorrido com o meu pai. A minha mãe, coitada, quase teve um ataque quando soube, achou que algo trágico poderia acontecer de novo. Após me formar em Matemática, as coisas foram mais tranquilas, a ditadura estava no fim, minha vida profissional aqui e na França sempre foi voltada para a área de tecnologia, trabalhei com isso até recentemente na França. No ano passado, na empresa em que trabalhava há dez anos, ninguém sabia da história e, com a repercussão do filme, as pessoas tiveram uma enorme surpresa, elas não imaginavam que algo tão trágico tinha acontecido comigo e com o Brasil.

CONTINENTE Como está o processo de liberação das informações a respeito dos agentes públicos que torturaram e assassinaram Rubens Paiva? Você tem esperança de que a justiça será feita nesse caso?
NALU PAIVA Estou surpresa com o andamento do processo, nunca acreditei que isso chegasse a ser feito. Mas não tenho muita esperança, acho que a família nunca vai conseguir saber exatamente o que aconteceu com o meu pai nem o que fizeram com o corpo dele. Penso que isso não interessa ao governo, não interessa ao Exército. Eu gostaria que os torturadores fossem julgados, não por mim, mas pelo Brasil, para todo o país saber que quem faz isso é julgado e condenado, não pode ficar impune.

CONTINENTE Você tem uma antiga ligação com o Recife, fez amigos na cidade, brincou carnaval em Olinda, esteve em Gravatá, conheceu Fernando de Noronha ainda nos anos 1980. Que lembranças você guarda dessas visitas?
NALU PAIVA O Recife sempre esteve presente na minha vida. Por ter feito aulas de dança durante a adolescência, eu queria conhecer o carnaval do Recife e de Olinda e, no final dos anos 1970, eu e uma amiga compramos as passagens sem nem saber onde ficaríamos hospedadas. Minha irmã Veroca me indicou uns amigos dela que poderiam nos receber e foi uma agradável surpresa, conheci dois amigos pernambucanos com os quais mantenho contato até hoje. Um deles, o autor desta entrevista, além de nos acompanhar até Olinda, me mostrou lugares na cidade que eu nunca teria conhecido, as praias pernambucanas, Gravatá, no ano seguinte voltei e fui a Fernando de Noronha. As lembranças que tenho do Recife são muito boas, principalmente pela música e pelas danças, os ritmos pernambucanos, tão diferentes, o frevo e o maracatu entram no corpo da gente. Enfim, o Recife e Pernambuco são muito especiais para mim.

CONTINENTE Certa vez, no Recife, você esteve com Arthur Lima Cavalcanti, ex-prefeito da cidade, ex-deputado federal do PTB, colega de bancada do seu pai, cassado igualmente no dia 1º de Abril de 1964. Você se lembra de outros políticos que conviviam com a sua família ou frequentavam a sua casa no Rio ou em São Paulo?
NALU PAIVA Sim, estive com o ex-prefeito e deputado Arthur Lima Cavalcanti, que era amigo do meu pai. Encontrei também o ex-governador Miguel Arraes, outro grande amigo dele, que soube que eu estava no Recife e quis me ver no início dos anos 1980. Ele me contou diversas histórias que viveu com Rubens Paiva, contou sobre a prisão em Fernando de Noronha. Foi emocionante, para mim, estar com ele, dona Madalena e sua família. Quando crianças, conhecemos esses amigos do meu pai, eles frequentavam nossas casas no Rio e em São Paulo. Muitos, reencontrei depois, já adulta, é como se a relação de meu pai com eles nunca tivesse se acabado. Lembro de Waldir Pires, ex-governador da Bahia, e um dos meus padrinhos de casamento, do ex-ministro e vice-governador de São Paulo, Almino Afonso, e de Fernando Santana, ex-deputado federal da Bahia. Eles eram bem carinhosos com a gente, nos protegiam, perguntavam se minha mãe precisava de alguma coisa, havia uma solidariedade forte entre eles e a nossa família.

Bárbara Luz (Nalu) e Selton Mello (Rubens Paiva) em "Ainda estou aqui" Foto: Divulgação

CONTINENTE Sua mãe, Eunice Paiva, além do que foi mostrado no livro de seu irmão, Marcelo, e no filme “Ainda estou aqui”, teve atuação de destaque, durante muitos anos, como advogada do CIMI-Conselho Indigenista Missionário. Você pode contar um pouco sobre isso.
NALU PAIVA Como foi mostrado no filme, minha mãe era uma pessoa muito reservada, não ficava contando o que fazia nem as pessoas que encontrava. Mais tarde, eu e meus irmãos descobríamos por acaso, as pessoas nos procuravam, “sua mãe esteve lá em casa”, “conheci sua mãe em tal lugar”. Ela não falava sobre a atuação dela no CIMI, trabalhava lá e pronto! Eu só sabia que ela atuava junto à luta dos indígenas porque, às vezes, ela mostrava fotos das tribos que visitou, contava sobre os pratos típicos, essas coisas. Depois do filme de Walter Salles, as pessoas que trabalharam com ela vieram contar sobre as coisas que ela fazia, suas viagens e atividades. Descobrimos, por exemplo, que a parte da Constituição de 1988 referente à proteção dos indígenas tem dois artigos que foram redigidos por ela. Ela nunca contou isso para os filhos. Hoje, sabemos que ela fez muito mais do que a gente imaginava.

CONTINENTE Entre outros eventos, você foi convidada por Walter Salles para as apresentações do filme em Veneza e Cannes em 2024, e na entrega do Oscar em 2025. Além do glamour inevitável desses festivais, como você encarou a receptividade do filme, as polêmicas, críticas e elogios?
NALU PAIVA Foi muito legal ter tido a sorte de ser convidada por Walter Salles para o Festival de Veneza, fui acompanhando o Marcelo, tínhamos crachás para poder circular com tranquilidade, ver os filmes em disputa e as entrevistas. E foi emocionante estar ao lado de Fernanda Torres, do Selton Mello e de outras pessoas da produção bem carinhosas comigo e com meu irmão. Estive em festivais em Londres e Paris, e em pré-estreias em outras cidades. Walter Salles e eu somos amigos de infância, temos a mesma idade e estar junto dele nesse filme foi emocionante, principalmente por reencontrá-lo, pois não o via há bastante tempo. O curioso é que ele ainda lembra o amigo que tive aos 13 anos. Bom, na noite de entrega do Oscar, quando anunciaram o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, foi aquela gritaria e choradeira, Selton, Fernanda, Daniela Thomas, os produtores, todos se abraçando, aquela explosão de emoção. Quanto às críticas e polêmicas, sinceramente, nunca prestei muita atenção a elas. Cinema é uma coisa muito pessoal, uns gostam de um filme, outros não gostam, cada um interpreta como quer, ou seja, as pessoas têm o direito de gostar ou não, de criticar ou não. No atual momento que o país atravessa, a gente tem que respeitar mais uns aos outros, aprender a ouvir. Eu, meus irmãos e a equipe do filme decidimos não entrar em polêmicas porque o importante, para nós, é manter a calma no Brasil para a gente continuar a avançar no caminho da democracia.

CONTINENTE Se fosse possível resumir, ou sintetizar, as personalidades de seu pai e de sua mãe, o que você diria?
NALU PAIVA Eles eram bem complementares. Meu pai era carismático, inteligente, humanista, generoso, que ria e contava piadas, gostava de reunir os amigos. E era uma pessoa que lutava pela democracia no país. No dia do golpe militar, 31 de março de 1964, ele foi à Rádio Nacional para incentivar a população à resistência. Ele tinha um jeito bonachão, mas era uma pessoa séria, que acreditava na democracia, sempre lutou e batalhou por ela, talvez tenha morrido por isso, os militares devem ter perdido a paciência com ele. Já a minha mãe era uma pessoa séria, talvez séria não seja a melhor palavra, era muito fechada, não contava nada da vida dela, o que estava fazendo, o que estava pensando. Tinha um lado alegre, é claro, mas a discrição era maior, discreta é a palavra que pode defini-la melhor. Era muito inteligente, lia o tempo todo, era a rainha da organização, quando meu pai reunia as pessoas em casa tudo estava sempre impecável. Ela fez faculdade de Letras naquela época, nos anos 1960, o que era uma raridade. E dizia às amigas que voltaria a trabalhar assim que a filha caçula crescesse, ela queria trabalhar, falava nisso sempre. Então, é isso, ela teve pulso firme, educou os cinco filhos, voltou à faculdade, formou-se em Direito, conseguiu emprego, pagou as contas, os filhos entraram na faculdade. O tempo todo ela estava lá, firme, era uma pessoa de uma solidez impressionante e, na verdade, foi isso o que nos manteve, a mim e aos meus irmãos, de pé.

FRED NAVARRO, jornalista e escritor

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