A bossa sempre nova de Roberto Menescal
Violonista, guitarrista e compositor apresenta-se no Teatro RioMar com a cantora Patty Ascher e Danilo Caymmi. "Agora eu quero diversão na minha vida", diz o músico, entusiasta dos cantores da nova geração
TEXTO José Teles
26 de Março de 2026
Foto Clickmate
Roberto Menescal é um dos dois remanescentes do núcleo formador da Bossa Nova. O outro é o recifense Normando Santos, esquecido até pelos historiadores da BN, mas que continua firme e forte, os 94 anos, em Paris, onde vive desde meados dos anos 1960. Menescal está com 88 anos, mas com um pique dos tempos de “O barquinho”, de 1961, um dos primeiros grandes sucessos da bossa.
No domingo (29), ele se apresenta no Teatro RioMar, às 20h, com a cantora Patty Ascher e Danilo Caymmi, no show Bossa sempre nova. Além de viajar com frequência ao exterior (é figura carimbada no Japão), Menescal gravou discos, em 2025, com a cantora Cris Delano (O lado B da bossa), e Luisa Sonsa (Bossa sempre nova), está com disco pronto com o pianista Gilson Peranzzetta (lançam em maio), e promete um este ano com o cantor Theo Bial.
Mesmo tão ocupado, Roberto Menescal concedeu, com a maior boa vontade, a entrevista a seguir para o site da Continente em que fala sobre sua carreira, derrama-se em elogios aos novos da música brasileira, e sobre a bossa nova, dos talentos da geração 30-. E conta como conseguiu obter uma guitarra pela qual procurava há mais de seis décadas.
CONTINENTE Patty Ascher é brasileira, embora tenha este nome e more nos Estados Unidos. Como ela entrou nesse show?
ROBERTO MENESCAL Eu gravei com ela nos Estados Unidos faz alguns anos, música de Bacharach, em bossa, e foi muito bem lá e pelo mundo. Patty é doida para fazer shows no Brasil, então me perguntou: "Roberto topa a gente fazer uma turnê?" Eu falei: "É só me dizer quando, hora e local". Ela me disse que tinha falado com Danilo, e ele topou. Estreamos no Rio Grande do Sul e depois viemos para o Norte e Nordeste. É divertimento que eu esperava. E Danilo é um cara que adoro. Produzi discos dele, ele adora a Patti. É uma adoração total. Vamos mostrar essa adoração no palco. Uma vez ou outra, Patti vem ao Brasil, para gravar. Faremos esses shows e depois vamos gravar outro projeto.
CONTINENTE Danilo Caymmi é de uma geração surgida depois da bossa nova. Qual a ligação entre ele e este show, com o título de Bossa sempre nova?
ROBERTO MENESCAL Danilo faz parte da segunda geração da bossa, quando vêm os Caymmi, ele e Dori, Edu Lobo, Marcos Valle, e outros. A gente sempre trabalhou muito juntos, é uma pessoa de quem eu gosto muito. Acho que vamos nos divertir. Só quero fazer coisas com que eu me divirta. Eu já fiz muita coisa, agora eu quero diversão na minha vida.
CONTINENTE Entre este divertimento está a produção de discos?
ROBERTO MENESCAL Não tem mais gravadoras, mas eu continuo produzindo discos; não tudo, estou muito ligado nas pessoas que vêm com vontade de fazer, essas pessoas novas que estão surgindo. Tem uma geração jovem surgindo, muito boa, e eu estou trabalhando com eles. Tem Theo, o filho de Pedro Bial, um rapaz de 26 anos, compõe e canta muito bem. Tenho umas quatro músicas com ele, vamos gravar este ano. Estivemos no Japão juntos faz uns cinco meses, ele foi muito bem. Me dá alegria ver o cara com aquela força no palco, querendo começar a vida. Também tem uma menina da Bahia, que mora em São Paulo, Analu Sampaio, que é um fenômeno. Fizemos oito shows pelo Brasil, e toda hora que ela quiser eu faço. Quem vive de passado é o samba-canção. Já fiz muito o passado. Temos que fazer o presente e o futuro. Tenho feito muita coisa, principalmente com gente nova. A gente vai mostrar algumas coisas novas no show.
CONTINENTE A bossa é muito mais prestigiada no Japão do que aqui. O brasileiro não se interessa pela bossa?
ROBERTO MENESCAL Eu acho que tem muita coisa no Brasil, é um país muito grande. Então você vê o Nordeste, que é muito forte, tem músicos incríveis (derrama-se em elogios ao guitarrista Luciano Magno). Em Goiás, você tem o sertanejo, e é como se fosse outro mundo. Eu não conheço nada assim muito de sertanejo, mas o que tem de artistas que vendem música na Internet... Não dá para se concentrar numa coisa só, não dá. Eu sei que nunca fiz tanta coisa na vida o quanto tenho feito agora.
CONTINENTE Eu vejo sites estrangeiros de música e sempre tem gente com discos de bossa, que quase não se vê no Brasil. Talvez seja porque as editoras cobram muito caro para liberar as músicas. As com mais de 60 anos são muito caras. Assim ninguém grava mais Ary Barroso, Luiz Gonzaga, Capiba. Seria o motivo de se gravar pouco bossa nova.
ROBERTO MENESCAL É difícil explicar isso, mas a produção nossa, estou falando em geral, é muita coisa nova o tempo todo. Você liga a televisão e é gente nova que não conheco. Agora mesmo fiz um disco com Luisa Sonza, uma menina que não conhecia. Ela queria que eu fizesse um arranjo para uma música que compôs com intenção de bossa nova. Fiz, e ela disse que a gente tinha que fazer outras coisas. Fiz um álbum com ela, um vídeo. Então, o pessoal não tem motivação de olhar pros Ary Barroso da vida. Quer o novo, sempre o novo, o tempo todo. É complicado, mas tem tempo pra tudo. Num país com muita música não dá para tudo o que a gente faz, não dá.
CONTINENTE Vocês foram uma geração privilegiada, com muitos bons compositores, bons letristas, um nível realmente muito alto. Isso se repetiu na geração seguinte, de Chico, Edu e tal. Você acha que a geração de hoje chega a este nível? Como está a geração de hoje?
ROBERTO MENESCAL Estão chegando. Quando falo dessa menina, Analu Sampaio, ela é incrível. Sem medo de comparar, é uma Elis Regina. Fez um show agora em Fortaleza, sozinha, ela e o violão, lotado. Lotou tanto, que os caras tiveram de botar um telão do lado de fora do teatro para o povo que não conseguiu entrar, Este menino que te falei, Theo Bial é muito bom. Não é que eu esteja de olho no que está chegando Estou de olho no está chegando de bom. E tem muita gente boa, posso te garantir.
CONTINENTE A bossa continua tocando muito em nível mundial. Ainda rende muito dinheiro de fora?
ROBERTO MENESCAL Olha, a gente está vivendo basicamente disso. Eu fiz um levantamento há duas semanas de “O barquinho”, que é minha composição mais conhecida, e tem mais de três mil gravações só no exterior, eu não tinha noção disto. No Japão, na Coreia, na China, que está entrando muito na nossa música. Mas o direito autoral é muito pouco, não sei por que isto. O que pagam de direito é 0,006 não sei o quê. Não digo que seja roubo, porque é em todo o mundo. Para você viver de direito, tem que ter muita música e fazer muito sucesso.
CONTINENTE Quando Tom Jobim e Vinicius editaram lá fora “Garota de Ipanema” fizeram um negócio que não foi bem-feito. E acabou ganhando muito dinheiro o cara que fez a versão, Norman Gimbel. Isto aconteceu muito com a bossa nova no começo?
ROBERTO MENESCAL Tom e Vinicius ganharam dinheiro também. “Garota de Ipanema” é uma das três músicas mais tocadas no mundo. Não sei se Norman Gimbel ganhou mais, porém os dois não têm do que reclamar.
CONTINENTE Nos anos 1960, houve todo aquele barulho por causa da guitarra, que aumentou com o Tropicalismo. Porém, você já usava guitarra na bossa nova. Por que fizeram aquele bicho todo com a guitarra?
ROBERTO MENESCAL Eu sempre usei guitarra. Mas teve um tempo que a própria Elis participou de manifestações contra a guitarra pelas ruas de São Paulo. Uns seis anos depois eu toquei com Elis, pelo mundo, e com guitarra. Alguém inventou está coisa e Elis, na empolgação, entrou. Fizemos a Europa inteira, eu de guitarra. Até hoje uso guitarra, meio violão, semiacústica. Procuro ter boas guitarras semiacústica. Gravei guitarra com a neta de João Gilberto, Sofia Gilberto, tem dez anos, logo vai dar trabalho.
CONTINENTE Qual sua marca preferida de guitarras?
ROBERTO MENESCAL Eu não sei dizer o nome, que vergonha. Tenho várias guitarras, Gibson e outras. Tem uma americana, que é a minha preferida, mas esqueci do nome. Hoje em dia, esqueço até meu sobrenome. Mas posso contar uma historinha rápida? Eu tinha 18 anos, tocava violão, mas meu sonho era ter uma guitarra. Vi na capa de um disco de um jazzista americano uma foto dele com uma guitarra. Eu até o conheci, mas não me lembro mais do nome. Fiquei louco pela guitarra, mas não achava ela em canto algum. Quando foi uns anos atrás, fui pra Las Vegas receber o prêmio pela minha obra (o Grammy Latino, de 2013). De noite, aquela badalaçâo, de dia todo, mundo dormindo. De manhã, fui ver o Sea Aquarium. De volta ao hotel, vinha no corredor vazio. Daí, apareceu um cara e disse: “Roberto Menescal? Posso falar contigo?” É claro, falei. Ele disse que leu num jornal de lá uma entrevista comigo, em que eu falo de uma guitarra que eu procurava desde os 18 anos. Eu disse que era meu sonho, mas nunca consegui ter uma. Ele me disse que era quem fazia, em Nova York. Comentei que ele era muito jovem para ter feito a guitarra. Explicou que a fábrica foi fundada pelo pai dele, que construiu a guitarra, mas tinha morrido, e ele agora era quem fazia. Fiquei impressionado com a coincidência. Perguntou quando eu iria a Nova York. Disse que dali a dois meses, eu ia fazer um show com Marcos Valle. Ele disse que iria assistir. E foi. Depois do show, veio falar comigo. Me perguntou quando eu estava livre. Eu disse que todos os dias. No dia seguinte, veio me buscar para conhecer a fábrica. Claro que eu voltei com a Sadowsky, né? Mais de 50 anos depois, eu peguei a guitarra que adorava, olha que loucura.
JOSÉ TELES, crítico musical, pesquisador e escritor