"Eu precisava me respeitar também como artista"
Atriz e cantora carioca, que recebeu homenagem especial na 36ª edição do Prêmio Shell de Teatro, fala, em entrevista exclusiva, sobre os 60 anos de carreira e o enfrentamento ao racismo
TEXTO Bruno Albertim
19 de Março de 2026
Foto Gustavo Arrais/Divulgação
RIO DE JANEIRO - Aos 81 anos, Zezé Motta chega a um raro ponto de síntese na cultura brasileira: seis décadas de carreira em que arte e enfrentamento caminharam lado a lado — trajetória celebrada com uma homenagem especial na 36ª edição do Prêmio Shell de Teatro, realizada no dia 18 de março, em São Paulo, uma das mais importantes distinções das artes cênicas no País, quando foi aclamadíssima numa edição que, historicamente, já pode ser reconhecida como a que marcou um grande reconhecimento de artistas negros em atuação no país.
Formada em O Tablado, sob a orientação de Maria Clara Machado, Zezé estreou profissionalmente em 1968 na montagem de Roda Viva, dirigida por José Celso Martinez Corrêa — espetáculo que se tornaria símbolo da contracultura e da resistência artística à ditadura, e alvo de violentos ataques de grupos paramilitares de extrema direita, pelo qual ela recebeu o reconhecimento direto dos cassetetes do chamado Comando de Caça aos Comunistas. Ali começava uma carreira que, muito além da arte, se revelaria também como uma longa travessia política: a de uma mulher negra que precisou disputar espaço em um país que insiste em esconder, sob a cordialidade tropical, as marcas profundas de seu racismo.
Esse enfrentamento atravessa momentos emblemáticos de sua trajetória. Depois da consagração internacional com Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues, Zezé se tornaria um dos rostos mais reconhecidos da cultura brasileira — mas também alvo das tensões raciais que marcam o imaginário nacional. Em 1984, ao protagonizar um par romântico com Marcos Paulo na novela Corpo a Corpo, enfrentou uma reação brutal.
A simples presença de um casal interracial no horário nobre provocou uma avalanche de cartas racistas enviadas à emissora e à atriz. Alguns afirmavam que “lavariam a boca com água sanitária” depois de ver um homem branco beijar uma mulher negra. O episódio expôs de forma crua aquilo que a atriz hoje sente como o apartheid tropical brasileiro — um racismo em verde e amarelo, cordial na aparência, profundamente violento na prática. “O racismo no Brasil muitas vezes não aparece de frente”, diz Zezé. “Mas ele está ali, o tempo todo, tentando limitar até onde a gente pode ir”, segue a atriz que, depois daquele 1984, fundou com colegas o Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, um banco de dados e catálogo criado para combater a invisibilidade de artistas negros no mercado audiovisual brasileiro, mapeando talentos para produtores e diretores que alegavam não encontrá-los.
Numa sexta-feira chuvosa no Rio de Janeiro, dias antes de embarcar para São Paulo, onde seria homenageada, Zezé Motta recebeu o jornalista Bruno Albertim em seu apartamento no Leme — o mesmo endereço mítico onde viveu a escritora Clarice Lispector — para uma conversa franca sobre carreira, racismo, o tempo como aliado, muitas risadas e algumas lágrimas pelas ausências mais presentes. Em determinado momento da conversa, ao lembrar os primeiros anos no teatro e a convivência com aquela que se tornaria uma de suas maiores cúmplices na vida, a Tigresa, reconhecida pela música homônima do admirador Caetano Veloso, se emociona: “Não consigo imaginar um mundo sem minha grande amiga Marília Pêra.”
CONTINENTE Você chega aos 80 anos de vida e 60 de carreira como uma das artistas mais importantes do país. O que sentiu ao saber da homenagem do Prêmio Shell?
ZEZÉ MOTTA Fiquei muito honrada. Quando recebi a notícia, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: "Valeu a pena". Porque nada é fácil nessa vida. As pessoas pensam que a vida do artista é só glamour, reconhecimento, festa o tempo todo — e não é assim. Tem espinhos, tem dificuldades, tem muitos desafios. Mas é preciso enfrentá-los sabendo o que se quer da vida. Eu sempre soube que queria ser artista. Então, quando chega um reconhecimento desse tamanho, depois de tanto tempo de estrada, você olha para trás e pensa: "Valeu a pena ter insistido".

CONTINENTE Em que momento você percebeu que sua carreira artística também seria atravessada pelo racismo?
ZEZÉ MOTTA Muito cedo, muito jovem. E foi difícil porque eu não estava preparada. Eu era muito ingênua, encantada com o mundo artístico. Um dos primeiros choques aconteceu quando fui indicada para fazer um comercial de uma loja de tecidos. Fiz um teste para ver se eu me “encaixava”. Depois disseram para a produtora que a clientela da loja era racista e que não aceitaria a sugestão de uma negra. Eu tinha pouco mais de 20 anos e já fazia pequenas participações em novelas. Aquilo foi um choque muito grande para mim.
CONTINENTE Você já contou que, quando jovem, tentou se adequar a padrões brancos de beleza...
ZEZÉ MOTTA Passei por um processo de embranquecimento, como muitas mulheres negras da minha geração. Eu alisava o cabelo, usava por muito tempo uma peruca tipo Channel. Que loucura, já pensou (risos)? E pensava até em afinar o nariz. Tentava clarear a pele com receitas caseiras que minha mãe ensinava. Uma delas era lavar o rosto com a água do cozimento do arroz, porque diziam que aquilo clareava a pele. Era um conjunto de coisas que iam acontecendo — episódios de racismo, rejeições, comentários — e eu pensava: “Se o problema é esse, então vou embranquecer para ver se as coisas dão certo”. Era uma tentativa de caber naquele padrão que diziam ser o único possível.
CONTINENTE Em que momento você decide assumir plenamente sua identidade negra?
ZEZÉ MOTTA Quando conheci Lélia Gonzalez, a escritora e feminista negra. Li no jornal que ela daria um curso sobre cultura negra e fui fazer porque estava muito confusa. Aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Eu aprendi que o negro se sente feio porque disseram para ele que ele é feio. Que temos vergonha do nosso cabelo porque dizem que nosso cabelo é ruim, que nosso nariz é feio porque dizem que ele é abatatado. Aquilo foi um batismo para mim. Ali eu renasci. Parei de alisar o cabelo, parei de pensar em operar o nariz, parei de tentar clarear a pele. Passei a me aceitar. Viajei também para fazer teatro com Augusto Boal nos Estados Unidos, e vi o movimento Black Power, os Panteras Negras no meio da rua. Tudo isso foi muito importante para a minha afirmação.
CONTINENTE Seu papel em Xica da Silva teve enorme impacto e fez de você um símbolo sexual. Como lidou com isso?
ZEZÉ MOTTA Quando começaram a me chamar de símbolo sexual, quem ficou feliz não foi a Zezé. Quem ficou feliz foi a militante da causa negra. Porque finalmente estavam reconhecendo que uma mulher negra também podia ser considerada bonita. Durante muito tempo nos disseram o contrário. Então, para mim, aquilo tinha também um sentido político. Eu estava muito bem comigo mesma. Quem tinha problema com meu cabelo, com meu nariz, com meus traços, eram os outros.

CONTINENTE Mesmo depois do sucesso de Xica da Silva, você ainda recebeu convites para papéis estereotipados e subalternizantes...
ZEZÉ MOTTA Recebi, sim. Depois do filme, me chamaram para fazer uma novela em que minha personagem basicamente aparecia numa festa de aniversário servindo salgadinhos para gente rica e branca. Aquilo me incomodou profundamente. Eu tinha estudado na escola de Maria Clara Machado, que era uma formação muito sofisticada de teatro. E, mesmo depois de um filme como Xica da Silva, ainda me ofereciam esse tipo de papel. Foi quando eu disse: “Não, chega”.
CONTINENTE E disseram que isso poderia fechar portas para você.
ZEZÉ MOTTA Disseram. O querido (diretor teatral) Ziembinski chegou a me alertar: “Cuidado, você pode estar fechando portas importantes”. Mas eu senti que precisava tomar aquela decisão. Eu precisava me respeitar também como artista. Se fosse fechar portas, que fechasse. Eu não iria fazer mais parte daquele esquema perverso.
CONTINENTE Na novela Corpo a Corpo, quando sua personagem formava par romântico com Marcos Paulo, algo inédito num horário nobre, houve uma reação racista muito forte do público. Como você atravessou aquele momento?
ZEZÉ MOTTA Foi muito duro. Naquela época, a televisão ainda não estava preparada para mostrar um casal interracial em horário nobre. Recebíamos cartas com comentários racistas muito, muito violentos. Algumas pessoas diziam coisas horríveis, do tipo que, se fossem obrigadas a beijar uma mulher negra, lavariam a boca com água sanitária. Era uma brutalidade. Aquilo mostrava o quanto a sociedade brasileira ainda carregava — e em muitos casos ainda carrega — um racismo profundo, muitas vezes disfarçado.

CONTINENTE Como você lidava emocionalmente com esse tipo de reação?
ZEZÉ MOTTA Não era fácil. Aquilo machucava, claro. Mas também me fazia entender que o trabalho que estávamos fazendo ali tinha uma importância muito grande. Aquela reação mostrava exatamente o quanto era necessário quebrar esse tipo de barreira. A televisão tem um papel enorme na formação do imaginário das pessoas. Quando você coloca um casal interracial na tela, você está mexendo com estruturas muito antigas. Meus colegas de novela me protegeram muito, isso evitou o sofrimento maior.
CONTINENTE Em 1976, Lucélia Santos foi escalada para viver Escrava Isaura sob a alegação de que não havia atrizes negras com talento suficiente no Brasil para assumir o papel…
ZEZÉ MOTTA Não é pessoal, até porque a Lucélia é minha grande amiga e uma atriz extraordinária, mas é essa invisibilização perversa que opera ou operava muitas trajetórias negras no Brasil...
CONTINENTE Anos depois você participou de A Próxima Vítima, que trouxe um núcleo familiar negro de classe média alta no horário nobre. Essa já é uma realidade brasileira? O racismo arrefeceu?
ZEZÉ MOTTA A Próxima Vítima foi muito importante. Pela primeira vez se mostrava uma família negra estruturada, de classe média, com conflitos e histórias próprias — e não apenas personagens colocados ali para servir ou ocupar posições subalternas. Aquilo representou um avanço muito grande na televisão brasileira. Claro que o racismo diminuiu, tivemos quotas nas universidades, negros com formação. Mas o racismo mais amplo só desapareceu na aparência. Ele é quase imperceptível nas praias, nas ruas, no Carnaval, no dia a dia mais simples. Mas se manifesta brutalmente quando a questão é a ocupação dos espaços de privilégio e de poder. Ai, ele aparece silenciosamente e determina até onde podemos ir, quem pode e quem não pode ter os acessos.
CONTINENTE Na sua visão, em que momento a televisão começou a perceber que precisava parar de reforçar estereótipos racistas?
ZEZÉ MOTTA Esse processo foi muito lento. Durante muito tempo, a televisão repetiu imagens muito limitadas dos personagens negros: a empregada doméstica, o motorista, a figura subalterna. Aos poucos, isso foi mudando, também por pressão da sociedade, do movimento negro e dos próprios artistas que começaram a questionar esses papéis. Mas muito pelos profissionais da TV que começaram a forçar pela mudança dentro das empresas e nos padrões da audiência.
CONTINENTE Hoje vemos muito mais personagens negros nas novelas. Você acha que eles estão ali com profundidade ou apenas cumprindo uma pauta de reparação histórica?
ZEZÉ MOTTA Depende muito da obra. Há avanços, sem dúvida. Hoje você vê personagens negros médicos, advogados, protagonistas de histórias complexas. Existe um caminho a percorrer. O importante é que esses personagens estejam ali.
CONTINENTE Você estará na nova novela das seis da TV Globo. Como é seu papel nessa trama?
ZEZÉ MOTTA É um personagem muito bonito, que dialoga com a cultura afro-brasileira de uma maneira respeitosa. Eu fico feliz quando vejo que as histórias começam a tratar essa herança com mais cuidado e mais conhecimento, mostrando a riqueza da cultura africana para além dos estereótipos.
CONTINENTE Você chega aos 80 anos com uma trajetória artística muito ativa. Como vive o envelhecimento?
ZEZÉ MOTTA Eu vivo isso com muita gratidão. Chegar aos 80 anos trabalhando, fazendo teatro, televisão, música, é uma bênção. A maturidade traz uma liberdade muito grande. Você passa a se preocupar menos com certas pressões e entende melhor quem você é. Hoje eu me sinto mais tranquila, mais segura do meu caminho.
CONTINENTE Artistas como Fernanda Montenegro, Ney Matogrosso e Caetano Veloso seguem criando intensamente na maturidade. Como você se vê nesse momento da vida?
ZEZÉ MOTTA Eu me identifico muito com essa ideia de continuar criando. A arte não tem prazo de validade. Enquanto a gente tem vontade, curiosidade e energia, sempre existe algo novo a fazer. Eu gosto de me sentir em movimento, experimentando coisas novas, encontrando novas formas de expressão.
CONTINENTE Atualmente, você emociona a audiência com um monólogo. Seu espetáculo Vou fazer de mim um mundo reúne música, memória e reflexão sobre sua trajetória. O que esse trabalho representa para você hoje?
ZEZÉ MOTTA Durante muito tempo eu me neguei a fazer esse espetáculo. As pessoas me convidavam, diziam que eu precisava contar minha história no palco, mas eu resistia. É uma adaptação para o livro da Dra. Maya Angelou, “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, lançado em 1969, que agora chega ao Brasil com dramaturgia e direção de Elissandro de Aquino. É uma autobiografia dela, que fala da comunidade negra dos Estados Unidos durante a segregação dos anos 1930-1940. Mas que mexe com muito das minhas memórias, e muitas dessas memórias são de dor. Na escola de teatro, eu aprendi a entrar e a sair dos personagens sem me apegar. Mas nesse espetáculo, é impossível. Revisitar certos episódios da minha vida não é fácil. Dói, dói, dói muito (a atriz se emociona em lágrimas). Mas chegou um momento em que eu entendi que precisava fazer isso — não só por mim, mas também pelo público. Então o espetáculo acabou virando uma forma de olhar para minha trajetória, com tudo o que ela tem: as conquistas, as lutas, as perdas e também as alegrias. As pessoas chegam chorando para conversar comigo no camarim. Vou retomar o monólogo assim que possível.
CONTINENTE Você também construiu uma carreira importante como cantora. São 14 discos...
ZEZÉ MOTTA A música sempre fez parte da minha vida. Eu comecei cantando, antes mesmo de muita gente me conhecer como atriz. A música é uma forma de expressão muito profunda para mim, porque ela toca diretamente a emoção das pessoas. Seguirei cantora. A televisão tem uma força muito grande no Brasil. Quando você começa a aparecer nas novelas, aquilo ganha uma visibilidade enorme e acaba se impondo sobre outras áreas do trabalho artístico. Então muita gente passou a me identificar mais como atriz. Mas eu nunca deixei a música de lado. Sempre que posso, volto a cantar.
CONTINENTE Depois de seis décadas de carreira, que legado você gostaria de deixar para as novas gerações de artistas negros?
ZEZÉ MOTTA Eu gostaria que eles soubessem que é possível persistir. Que o caminho pode ser difícil, mas que vale a pena lutar pelo seu lugar. E que cada conquista abre espaço para quem vem depois. Se hoje vemos mais artistas negros ocupando espaços na televisão, no cinema e no teatro, é porque muitas pessoas antes lutaram por isso.
CONTINENTE O fato de morar no apartamento em que viveu Clarice Lispector não deixa de ser inspirador. Você é mística, Zezé? Ela já mandou mensagens para você (risos)?
ZEZÉ MOTTA Não, nunca (risos). Meus amigos sempre dizem que se ela mandar alguma mensagem, avisem a ele rapidamente, que eles vem correndo para falar com ela. Clarice nunca me mandou mensagem. Graças a Deus (mais risos). Mas a primeira coisa que fiz quando me mudei foi ler e reler toda a obra dela. Eu sou louca pela obra de Clarice, nem sei dizer do que mais gosto.
CONTINENTE Você conta tudo o que viveu, mesmo os momentos mais perversos, com um sorriso imenso no rosto. Zezé Motta é uma mulher feliz? Há ainda ausências que não passam?
ZEZÉ MOTTA Sou uma mulher feliz, porque, olhando para trás, vejo que tudo valeu a pena, que no final tinha o abraço e o sorriso (risos). Mas há faltas que não passam. Sinto muita falta da minha mãe, que sempre me apoiou nas minhas escolhas e nos enfrentamentos, e da minha grande amiga Marília Pêra. Trabalhamos juntas em Roda Vida, apanhamos juntas no espetáculo, e desde então nunca mais nos perdemos. Marília me dava suporte em tudo na vida. Éramos tão próximas que pessoas maldosas diziam que nós tínhamos um caso (risos).
CONTINENTE E tinham?
ZEZÉ MOTTA Claro que não! (gargalhadas) (…) Mas é muito difícil imaginar um mundo sem minha grande amiga Marília (lágrimas).
BRUNO ALBERTIM, jornalista, antropólogo e escritor.