Entrevista

36º Prêmio Shell de Teatro celebra a diversidade

Premiação mais longeva do teatro nacional reverenciou a carreira de Zezé Motta e premiou, em sua maioria, atores e profissionais negros

TEXTO Bruno Albertim

19 de Março de 2026

Zezé Motta é homenageada pelos 60 anos de carreira e contribuição ao teatro

Zezé Motta é homenageada pelos 60 anos de carreira e contribuição ao teatro

Foto Divulgação

SÃO PAULO - Na noite de 18 de março, no Teatro Paulo Autran, o 36º Prêmio Shell de Teatro pareceu, por instantes, deslocar o próprio eixo. Não porque tenha deixado de ser o que sempre foi - uma das mais longevas e influentes legitimações da cena brasileira, ainda que circunscrita ao circuito RJ –SP -, mas porque algo ali operou como sintoma da reescritura da cena contemporânea: de maneira quase inédita, atores e profissionais negros majoritariamente consagrados. “Esses resultados não foram premeditados, acabaram evidenciando o momento das artes e da sociedade brasileira”, diz Celso Curi, coordenador geral do juri.

Houve, claro, consagração de trajetórias. Justíssimas: Eduardo Moscovis, em seu primeiro prêmio no teatro depois de 37 anos de palco, por sua atuação vertiginosamente intimista em O Motociclista no globo da morte, o delicado depoimento de Leornado Netto sobre a ferocidade das violências cotidianas. Pelo juri de SP, o melhor ator foi Renato Libera, num espetáculo sobre o escritor chileno Roberto Bolaño.

Houve ainda Silvia Gomez. pela potente dramaturgia documental sobre a advogada e militante pernambucana Mércia Albuquerque sob a pele de Andrea Beltrão; e Rodrigo Portella, o mais profícuo e inquieto diretor brasileiro de hoje, pela estupenda direção em Ensaio sobre a cegueira.

Mas o que atravessava a noite, como um veio subterrâneo finalmente exposto, era a força de uma presença negra que não se apresentava como exceção, e sim como estrutura.

O reconhecimento da baiana Larissa Luz por Torto Arado – O Musical não se esgota na categoria de melhor atriz. Sua cena — uma linhagem que articula música, corpo e memória — reinscreve no palco a experiência histórica da população negra brasileira, fazendo da terra, da ancestralidade e da violência legada pela escravidão, matéria viva de representação. Há, em sua atuação, tanto a interpretação de uma personagem como a atualização de um arquivo sensível.

Ícone do pensamento negro brasileiro atual, a escritora Leda Maria Martins foi reconhecida por seu amplo trabalho de pesquisa e orientação artística. Ao subir ao palco, usou sua voz suave para dizer que não tinha preparado um discurso porque realmente jamais imaginou que pudesse estar ali como vencedora.

Larissa Luz usou a fala de Leda como gancho: “Fiquei profundamente emocionada. Porque desde muito cedo nos foi ensinado o lugar do servir, da subalternidade. Não nos foi acostumado que podemos e devemos ganhar. E, agora dizemos: sim, podemos!”.

A noção de “oralitura”, no pensamento de Leda Maria Martins, que aproxima corpo, voz e memória, ecoa (não por acaso) nas próprias obras que, nesta edição, ocuparam o centro da cena.

No júri paulista, Sirlea Aleixo foi premiada por Furacão, trabalho tensionador de identidade, resistência e subjetividade negra. Muito emocionada, a atriz beijou o chão do palco, antes de agradecer a orixás e ancestrais pelo reconhecimento. “Só quem vive, sabe: para mim, uma atriz preta, vinda da comunidade do Jacarezinho (RJ), chegar até aqui, o caminho foi muito longo”.

Também negros, Mauricio Lima e Tainah Longras foram aclamados pela dramaturgia espirilar de Vinte, um espetáculo que usa como ponto de partida o Renascimento do Harlem, nos anos 1920, para investigar o que acontecia no Rio de Janeiro da época e apresenta a Companhia Negra de Revistas. Foi a primeira no Brasil a ter um elenco formado apenas por artistas negros, entre eles, Pixinguinha, maestro do grupo. Um texto rizomático sobre o passado e presente dos negros nas artes brasileiras. Pelo espetáculo, Muato recebeu o prêmio na categoria Música.

Em outro registro, Ananda Almeida, ao lado de Raphael Elias, foi reconhecida pelo figurino de Negra Palavra – Poesia do Samba, obra que, já no título, afirma a centralidade da cultura negra como linguagem estética e política. Nos quesitos mais técnicos, criadores como Eder Lopes foi premiado pelo figurino de Pai contra mãe ou Você está me ouvindo?, uma evocação às violências estruturais da formação brasileira.

A vitória de um espetáculo baiano na categoria Destaque Nacional - AKOKO LATI WA NI - Tempo de Ser, da Cia Única de Teatro, de Feira de Santana — sugeriu também fissuras nesse mapa historicamente concentrado, abrindo passagem para outras geografias negras que insistem em existir para além do eixo.

Como se organizasse a noite em camadas, a homenagem a Zezé Motta ofereceu a chave mais ampla. Ao lembrar que foi no teatro que se entendeu como mulher negra, Zezé não apenas rememorou uma trajetória individual: ela apontou para uma pedagogia da cena.

E, fora dos refletores, seu gesto de ter criado, ainda em 1984, um centro de documentação da arte negra no Brasil, tensiona silenciosamente o próprio prêmio — lembrando que aquilo que hoje se celebra precisou, por muito tempo, lutar para não desaparecer sem registro. O que se viu não foi apenas uma cerimônia, mas um momento de inflexão.

Vencedores da 36ª edição do Prêmio Shell de Teatro

Destaque Nacional
AKOKO LATI WA NI - Tempo de Ser, da Cia Única de Teatro, de Feira de Santana, Bahia

Vencedores pelo Júri do Rio de Janeiro

Dramaturgia
Mauricio Lima e Tainah Longras – Vinte

Direção
Camila Bauer – Instinto

Ator
Eduardo Moscovis – O Motociclista no Globo da Morte

Atriz
Larissa Luz – Torto Arado – O Musical

Cenário
Cachalote Mattos – À Vinha d'Alhos

Figurino
Ananda Almeida e Raphael Elias – Negra Palavra - Poesia do Samba

Iluminação
Marina Arthuzzi – Velocidade

Música
Muato – Vinte

Energia que Vem da Gente
Turma Ok – trajetória de mais de 60 anos

Vencedores pelo Júri de São Paulo

Dramaturgia
Silvia Gomez – Lady Tempestade

Direção
Rodrigo Portella – (Um) Ensaio Sobre a Cegueira

Ator
Renato Livera – Deserto

Atriz
Sirlea Aleixo – Furacão

Cenário
Luh Maza – Carne Viva

Figurino
Eder Lopes – Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?

Iluminação
Wagner Antônio e Dimitri Luppi – Filoctetes em Lemnos

Música
Clara Potiguara – Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira

Energia que Vem da Gente
Leda Maria Martins – pesquisa e orientação artística

BRUNO ALBERTIM, jornalista, antropólogo e escritor.

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