Entrevista

As Centenárias, de Newton Moreno, confirma sua condição de clássico

Sob a direção de Luís Carlos Vasconcelos, nova montagem, com Juliana Linhares e Laila Garin, estreou no dia 10 de abril, está em cartaz no Rio de Janeiro e segue para São Paulo, com possibilidade de circular, em seguida, pelo país

TEXTO Bruno Albertim

30 de Abril de 2026

Laila Garin e Juliana Linhares em cena de As Centenárias

Laila Garin e Juliana Linhares em cena de As Centenárias

Foto Andrea Nestrea/Divulgação

Rio de Janeiro - Em 2007, Marieta Severo e Andréa Beltrão rodaram o Brasil carpindo mortos no palco. Algo de tão sertanejo quanto profundamente teatral: não apenas representar a morte, mas administrá-la como trabalho, herança e linguagem. Dirigido originalmente por Aderbal Freire-Filho, o texto fincava raízes no sertão nordestino para tratar de morte, memória e permanência.

Não se sabia ainda, mas nascia ali um espetáculo que não envelhece. Ao contrário, decanta. A escrita de Moreno reafirma seu lugar privilegiado como clássico do teatro contemporâneo brasileiro nesta nova montagem, idealizada por Juliana Linhares e Andrea Alves, da Sarau Produções, produtora carioca responsável por injetar doses vibrantes de brasilidade nos musicais recentes.

Com Linhares em cena ao lado da também luminosa Laila Garin e do versátil ator e músico Leandro Castilho, em múltiplos papéis, a saga das carpideiras Socorro e Zaninha ocupa uma concorridíssima temporada de estreia no Teatro Carlos Gomes. Uma montagem que o Brasil não apenas deve, merece assistir.

Na encenação original, havia um rigor quase essencial: duas atrizes, corpo e palavra, e um mundo inteiro erguido a partir disso. A cena era seca, jamais árida. Sob a direção de Luís Carlos Vasconcelos, a versão atual preserva essa ossatura, mas desloca sutilmente seu centro de gravidade. Com Linhares e Garin, e música executada ao vivo, o espetáculo ganha outra espessura. Uma dimensão lírica antes menos evidente.

Não se trata apenas de cantar, embora o canto surja com precisão e força, mas de como essas vozes reorganizam o espaço cênico. O lamento deixa de ser somente rito para se tornar também melodia, respiração, continuidade. Há instantes em que a palavra parece nascer do canto, e não o contrário.

Na engrenagem dramatúrgica de As Centenárias, há uma filiação clara e, ao mesmo tempo, reinventada. Zaninha e Socorro ecoam João Grilo e Chicó, desdobramentos femininos desses arquivos vivos do Sertão, sustentáculos da comédia popular brasileira feita de astúcia, fé e invenção, arlequinas de uma commedia dell’arte nordestina. Como Ariano Suassuna, Moreno entende o riso nordestino como método e sobrevivência.

As canções de Chico César, plenas de sugestões e imagens poderosas, não apenas atravessam a cena. Reconfiguram-na, criando uma atmosfera em que memória e imaginação se confundem. Garin e Linhares vocalizam o universo das personagens com musicalidade ao mesmo tempo lírica e irônica. Cantoras de grande envergadura, ampliam a densidade cênica: o canto não ilustra. Tensiona, expande. Juliana Linhares leva o corpo ao limite da expressividade. Suas acrobacias não são ornamento coreográfico, mas gramática física que eleva a comicidade de Zainha à máxima potência: o riso atravessando a carne. O texto passou ainda por ajustes sutis, apagando, com comicidade dilacerante, momentos em que a submissão feminina surgia como paisagem naturalizada. Agora, há revolta, resposta e esperteza.

Depois da temporada carioca, o espetáculo segue para São Paulo e deve ser interrompido no segundo semestre, quando as atrizes se dedicam a projetos solo. Juliana Linhares, por exemplo, parte em turnê com seu novo disco e só deve retomar a peça no início do próximo ano. Há, contudo, a possibilidade, já em discussão, de incluí-la na programação do Festival de Teatro do Recife, previsto para novembro. Roguemos que sim: As Centenárias é um desses espetáculos que podem atravessar o tempo com a mesma obstinação das figuras que coloca em cena.

BRUNO ALBERTIM, jornalista, antropólogo e escritor

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