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Entrevista

"A literatura surge como possibilidade de releitura das nossas memórias"

Autora do livro 'O corpo interminável', vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, Claudia Lage reflete sobre a Ditadura Militar, maternidade e o papel da literatura

TEXTO Valentine Herold

19 de Abril de 2021

Claudia Lage, escritora e dramaturga carioca

Claudia Lage, escritora e dramaturga carioca

FOTO Gustavo Stephan/ Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Identidades apagadas, terras roubadas, povos escravizados e dizimados, lutas políticas perseguidas… A história do Brasil é marcada por períodos de extrema violência que muitos prefeririam esquecer ou relegar apenas a alguns rasos capítulos nos livros didáticos. Um deles é o da Ditadura Militar que, no último dia 31 de março, foi amplamente relembrada na ocasião dos 57 anos do Golpe. Em contraponto à necessária hashtag #DitaduraNuncaMais que tomou conta das redes sociais, persistiam também as discussões daqueles que acreditam que 1964 foi o ano da “Revolução” e que não houve tortura contra os opositores do regime. Um revisionismo histórico perigoso que pode ameaçar os avanços alcançados a duras penas por historiadores, pesquisadores e ativistas ao longo dos últimos 30 anos. Além das iniciativas acadêmicas, a arte também é um poderoso instrumento de rememoração e que instiga novos olhares sobre o tema. 

Na literatura, uma das obras contemporâneas mais impactantes e elogiadas é o romance O corpo interminável, da escritora carioca Claudia Lage. Vencedor do último Prêmio São Paulo de Literatura, o livro é um mergulho intenso no universo dos anos 1970 marcados por perseguição política e também sobre a busca pela memória que permanece entre os familiares das vítimas nas décadas seguintes. Lançado no final de 2019 pela Record, O corpo interminável é ambientado em dois tempos e sob a perspectiva de três narradores.

De um lado está Daniel, filho de uma desaparecida política que, já adulto, tenta reconstruir a história de sua mãe, de quem ele não possui quase nenhuma informação e pouquíssimos registros fotográficos. Ele não sabe quem é seu pai e foi criado pelo avô, cujo silêncio sobre a filha assolou Daniel por toda sua vida (e também nos assola enquanto leitores). Nessa busca por materiais sobre a época da Ditadura, Daniel conhece Melina, filha única de pais que pareciam ignorar as atrocidades que eram cometidas aos que se opunham ao governo e que, por tentar “ver aquilo que seus pais não viram, abrir os olhos para o que eles fecharam”, também passa horas na biblioteca à procura de respostas. Melina é também uma das narradoras do livro e sua história familiar é uma das faces do Brasil de antes e de agora.

A terceira voz narrativa do romance é a da mãe de Daniel que, através de um diário, descreve seus dias de grávida nos porões, sendo torturada, seu envolvimento prévio com o pai dele e o que parece ser um momento posterior àquela prisão. Seu relato é duro, forte e emocionante. “Queria falar da solidão desses dois seres, a solidão extrema enquanto eram um só corpo, a absoluta quando se separam. A criança arrancada da mãe não chegou a ser aninhada em seus braços. Não houve acalanto. Não houve o mútuo reconhecimento pelo cheiro, nem a emoção de encontrar fora do corpo uma parte de si. A criança foi arrancada. O breve instante da separação foi também o único encontro”, escreve Claudia em trecho inicial do livro. 

Além de sua atuação enquanto escritora (fora O corpo interminável, ela também já publicou o romance Mundos de Eufrásia, a coletânea de contos A Pequena morte e outras naturezas e a de crônicas Labirinto da palavra, todos pela editora Record), Claudia Lage é também dramaturga e professora de escrita criativa. Como autora de televisão, ganhou em 2013 o Emmy Internacional pela novela Lado a Lado, da Rede Globo. Em entrevista à Continente, Claudia Lage fala sobre os desafios na busca pela verdade sobre o período da Ditadura Militar brasileira, as temáticas deste seu mais recente romance, seu processo de escrita e o papel da arte no atual contexto social, político e sanitário.

CONTINENTE Em O Corpo Interminável você mergulha de forma muito íntima e intensa no lado mais sombrio da Ditadura Militar no Brasil. O romance também nos revela como as vidas dos perseguidos e desaparecidos políticos continuam sendo um grande ponto de interrogação nos dias atuais. Como foi seu processo de pesquisa para a escrita do livro?
CLAUDIA LAGE Foi a partir de leituras de relatos dos ex-guerrilheiros, livros, vídeos, documentários, filmes. De certa forma, eu segui o mesmo caminho de Daniel e Melina, buscando remontar a história pelo seu arquivo, seu registro, enquanto, ao mesmo tempo, me questionava como mulher e brasileira vivendo dentro de um país em constante amnésia, pergunta que também atingiu meus personagens, especialmente depois do Golpe de 2016, embora o livro não se passe nessa época nem trate disso como uma referência real. O pavor e perplexidade que senti, no entanto, eles sentiram também, como um estado emocional, uma memória inconsciente, algo entranhado no corpo, no DNA, um arquivo em cada um de nós. Nesse ponto, ficou mais do que evidente que a democracia não era um valor sólido no Brasil, como se podia imaginar, e o que estava acontecendo era consequência do profundo desconhecimento da nossa própria História. “O Brasil tem um enorme passado pela frente”, como disse Millôr Fernandes. Só poderemos reescrever esta história se a conhecermos realmente. 

CONTINENTE Entre 2012 e 2014 a Comissão Nacional da Verdade (CNV) procurou preencher algumas dessas lacunas históricas de dados e informações em relação ao período da Ditadura. Ainda assim, muitas famílias de desaparecidos continuam sem saber o que aconteceu de fato. O que falta para conseguirmos reconstruir esses anos e responder aos tantos porquês que continuam nos assombrando quase 40 anos depois?
CLAUDIA LAGE É a pergunta que também faço, e a resposta que me vem agora me assusta, porque percebo que, como nação, falta muito. Se lembrarmos que a CNV foi uma das causas do Golpe contra a Dilma, mesmo sem ter tido consequências legais contra os torturadores, que o atual presidente fez homenagem ao Ustra no congresso no dia do voto para o impeachment, sem nenhuma retaliação por isso, comprovamos mais uma vez que a amnésia é uma escolha, um projeto. Nesse sentido, a literatura surge como uma possibilidade de reescrita, de ressignificação. Reescrita e releitura, como uma possibilidade de reconstituição das nossas memórias.

capa do livro de claudia lage

CONTINENTE Você nasceu e cresceu nos anos 1970, sob o governo Médici, assim como os personagens Daniel e Melina. Guarda alguma lembrança dessa época em relação às questões políticas, era um assunto que se discutia na sua casa?
CLAUDIA LAGE Não, lembro apenas da palavra “terrorista” solta no tempo e espaço, não sei dita por quem nem quando. Só adolescente percebi que cresci imersa nesse silêncio, por conta de todo o movimento da redemocratização e das Diretas Já. Ainda assim, pouco se falava, nas ruas, nos jornais, na TV, no que tinha acontecido recentemente, foi um trauma rapidamente silenciado, todo o foco estava voltado para as Diretas Já, uma repetição da Anistia do Estado Novo, vamos em frente, para o bem do Brasil. O Brasil colocou essa história muito rápido para debaixo do tapete, e havia toda uma geração traumatizada, exausta e violentada, que nem tinha como processar tudo aquilo. No final da década de 80, alguns livros, filmes, relatos, começaram a aparecer, mas o assunto só foi desenterrado mesmo em 2011, com a CNV. A Casa da Morte, em Petrópolis, diz muito como o assunto é tratado no país até hoje. Apesar de várias tentativas de tombamento, a Casa da Morte permanece para a sociedade como uma casa qualquer.

CONTINENTE O livro é ambientado nessa época, mas toca, principalmente, no tema da maternidade. É uma abordagem muito envolvente porque temos o relato de uma mulher cuja maternidade é negada pelos militares e também a vivência de seu filho, que passa a vida toda tentando saber quem ela foi. E há também a relação conturbada de Melina com sua própria mãe. Como foi se debruçar sobre essas maternidades plurais e que atravessam gerações?CLAUDIA LAGE O corpo das mulheres, no livro, está sempre antes, durante ou depois da gravidez, como se a gestação fosse ocupando todos os espaços até chegar no tempo presente e desembocar no corpo da Melina. É uma ideia de continuidade desse corpo feminino dentro de um mesmo processo coletivo. Essas mulheres todas, de certa forma, coexistem na mesma experiência, da tortura, do exílio, da prisião, da clandestinidade, da gravidez e da maternidade nessas duras condições. No caso da Melina, ela não vive num país com regime totalitário, mas a ameaça desse retorno está presente, não só em suas lembranças, mas também em seu corpo. A relação difícil com a mãe faz parte de um elo que se perde, uma conexão que nem a maternidade conseguiu manter. A busca de Melina é enxergar o que seus pais se recusaram a ver, o que a sua mãe omitiu, relativizou e não conseguiu denunciar. Essa busca passa pelo olhar, a imagem, as mãos, que não querem mais tocar as superfícies, querem o que está mais fundo, o escondido, o além, e também se manifesta fisicamente, por meio da gravidez, para ela uma esperança de reatar os fios partidos. 

CONTINENTE O Corpo Interminável também é uma reflexão sobre a escrita e seus processos. Daniel está sempre compartilhando seus sentimentos em relação à literatura. "Nada parece mais real do que a leitura de uma página, mas nada se desfaz tanto ao se voltar ao mundo", ele escreve. Em seu livro de crônicas Labirintos da Palavra você já havia se voltado para essa questão metalinguística. É muito diferente tratar desse tema em um romance?
CLAUDIA LAGE Sim, é bem diferente, e ao mesmo tempo nem tanto assim. No Labirinto, teci uma reflexão sobre a escrita e a leitura a partir das minhas experiências como leitora e escritora, desde menina até já adulta. Para mim, a leitura e a escrita foram ao mesmo tempo uma abertura incrível para um mundo imaginário, lúdico, e também uma forma de proteção, ali tudo poderia acontecer, e estava tudo bem. Eu pensava assim, e nesse espaço que se expandia, eu, que era uma criança alegre, mas tímida, fui também me conhecendo, me expandindo. Eu escrevia histórias desde que aprendi a escrever, e, em alguns aspectos, essa foi uma forma de reescrever a minha infância, de encontrar um lugar, de preencher lacunas. Nesse sentido acho que no romance a escrita é também uma procura, a partir de um vazio, a busca por algum preenchimento. Parte daí mas ganha outros significados para Daniel, como na sua citação. A construção feita pela leitura e escrita, por mais que preencha as lacunas do personagem, ou pareça preencher, a ponto de parecer tão real, não se sustenta quando ele volta ao mundo, é como se fosse sempre um choque de realidade.

CONTINENTE Você também ministra cursos de escrita literária e roteiros. Sua atuação enquanto professora é complementar à de escritora e roteirista?
CLAUDIA LAGE Dar aulas me alimenta e energiza para a escrita, é muito estimulante voltar ao espaço da leitura e da reflexão sobre a criação literária e a dramaturgia junto a pessoas com o mesmo interesse, o mesmo entusiasmo pela leitura e escrita. É renovador também ver o processo criativo dos alunos, a entrega, a descoberta dos caminhos, da voz autoral. Escrever envolve muita entrega e risco, mais do que “o resultado”, nas oficinas se evidencia a importância da experiência do processo criativo.

CONTINENTE Mês passado completamos um ano vivendo com a pandemia. A produção cultural também, assim como tantos setores, foi profundamente afetada. Mas foi a arte que também salvou muita gente nesse período de confinamento, com séries, filmes, livros, lives etc... Como você avalia essa nova dinâmica da fruição totalmente virtual e o papel da produção artística nessa pandemia?
CLAUDIA LAGE A arte permanece como conexão, e talvez uma das únicas formas de conexão, com a nossa capacidade de refletir e nos sensibilizar. É um espaço também de fortalecimento, a pandemia tem nos mostrado isso, é um lugar que podemos ir, de certa forma estar em outro lugar, sentir mesmo temporariamente que existem outros caminhos, outros mundos. Não como uma fuga, mas um abrigo, uma troca, e uma possibilidade de renovar as esperanças.   

CONTINENTE E por falar em produção artística, quais foram os autores e cineastas que fizeram parte de sua formação enquanto leitora e autora de teledramaturgia, suas referências?
CLAUDIA LAGE São tantos, tantos. Na dramaturgia sou apaixonada pelo teatro do Absurdo, especialmente Ionesco, Beckett e Arrabal. Lia tudo de Nelson Rodrigues que encontrava pela frente. Incrível como Toda nudez será castigada, e toda a sua obra permanecem atual, um escárnio na hipocrisia da moral conservadora brasileira. Outro dia comecei a rever filmes que fizeram parte desse momento, de formação, e revi O Fantasma da liberdade, de Buñuel, que me abriu os olhos para a descontinuidade da narrativa, perspectivas desencontradas. Pina Baush é uma lembrança constante para mim, de que o corpo, cada gesto, olhar, movimento, é repleto de conexões e relações com o espaço, o tempo, os outros, com nós mesmos, que estamos sempre solitariamente entrelaçados.

VALENTINE HEROLD é jornalista e mestre em Sociologia.

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