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Entremez

E assim vou perdendo a humanidade

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

03 de Maio de 2021

FOTO Frame do vídeo 'Senses', de Ian Pons Jewell

Cena 1 – Abril de 2019, Barra Grande, Maragogi, Alagoas

O menino se aproxima com a bacia de plástico, coberta por um pano branco de algodão.

– Quer manuê?
– Quero, respondo. 

Estamos na casa amarela de frente para o mar: esposa, filha, filhos, noras, genro, netas e neto. Uma fuga do quarto mês de pesadelo. Ao escutarem a voz estranha à família, as crianças se aproximam de mim. Apresento o menino de 9 para 10 anos, que trabalha na folga da escola para ajudar a mãe. Ele repete o nome várias vezes para a gurizada, sorri, é lindo na mistura negra e indígena.

– Vovô também começou a trabalhar bem cedo, falo aos netos, enquanto retiro a folha de banana usada para assar o bolo, que na Mata Norte de Pernambuco chamam erradamente pé-de-moleque. 

Provo, ofereço às crianças, só uma aprecia, as outros dizem “eca”. Trata-se de uma culinária muito simples, feita com massa de mandioca puba, leite de coco, açúcar, podendo levar erva-doce e cravo, ao gosto da quituteira. É assado idealmente em forno de lenha, envolto na folha de banana, que invariavelmente queima, deixando um sabor especial.

Acho uma delícia a iguaria de origem indígena, compro algumas, pergunto quanto devo e pago o valor dobrado. Afago os cabelos do vendedorzinho, os netos já puxaram altas conversas com ele, que se despede prometendo voltar no dia seguinte com mais bolos.

O sol está alto e quente, o mar secou bastante, alcançando a temperatura e a profundidade ideal. As crianças correm para a água e a vida me parece só felicidade. Apanho um livro, deito numa rede e, antes de adormecer e sonhar, contemplo as coroas descobertas ao longe e imagino o estupor dos navegantes ao se depararem com paisagem tão exuberante.

Na casa vizinha ligam o som alto, empregados de farda arrastam uma lancha para o mar, alguém carrega um cooler repleto de bebidas e gelo, vão até os arrecifes fazer barulho, encher a cara e destruir os corais. Irrito-me, amaldiçoo a classe rica over, à noite haverá festa de aniversário, mais barulho e bebedeiras. Sinto-me infeliz e passo a enxergar tudo feio.

Cena 2 – Abril de 2021, Bitingui, Japaratinga, Alagoas.

Faz cinco dias que chove sem parar, os rios e riachos trouxeram toneladas de baronesas, galhos e troncos de árvores, cocos secos, lixo plástico e barro. Apesar da maré viva, a água represada pelos arrecifes de corais, normalmente transparente e azul, tornou-se um mar de lama. Comento a metáfora e lembro de Brasília. A casa bonita e aconchegante sofre sob a tormenta. Num hiato da chuva, quando o sol aparece tímido, sento-me no terraço com o laptop para escrever. Minha esposa, no jardim, lê uma biografia de Humboldt. De vez em quando, me arranca do trabalho para mostrar as descobertas do viajante genial, grande amigo de Goethe. 

Na cozinha, Dona Rosa prepara uma refeição ligeira. Reduzimos sua jornada de trabalho de oito para duas horas. Não precisamos mais do que isso, nos habituamos a fazer tudo sozinhos. Dona Rosa usa máscara, também usamos máscaras, com mais rigor agora que a nora está grávida e vem ficar uns dias conosco. A casa recebe confortavelmente oito pessoas, mas limitamos a quatro adultos e proibimos que o genro médico nos visitasse. Ele trabalha em emergências e unidades de hemodiálise. Vivemos a pandemia do coronavírus há 13 meses e a outra pandemia que não preciso denominar, há mais de 2 anos.

Um navio passa além das coroas, paro o trabalho e aprecio os vários tons da água secando na praia.  Seria bom permanecer três meses ali, mas sei que não é possível. Desacelerei e até o ritmo de minha escrita mudou. A casa fica tão à beira-mar que flutua na maré cheia. Não fosse o barulho enlouquecedor da avenida próxima, seria perfeita. Dona Rosa acha que existe uma fábrica de motos em Japaratinga e que todas saem sem os escapes. É uma mulher alegre, apesar de a filha ter sido assassinada pelo marido há pouco tempo, e viver temerosa com as rachaduras na casa onde mora. Membro da Igreja Assembleia de Deus, nos poupa de evangelização e não escuta gospel num radinho. Felizmente. 

Paro a escrita, a praia não convida a uma caminhada, há sargaço, conchas e lama em excesso, sinto o cheiro forte de maresia. Um homem branco e louro, com a pele estragada pelo sol, os lábios rachados, se aproxima com um depósito plástico. De longe pergunta se eu quero manuê. Respondo que sim e imediatamente ajusto minha máscara. A dele, pende das orelhas, abaixo do queixo. 

Ele avança. 

– Pare, fique aí mesmo! grito.
– A máscara! Bote a máscara no rosto! Minha esposa ordena. 

O homem perplexo, sem compreender o que se passa, cobre o nariz e a boca, faz um movimento em nossa direção e eu novamente peço que não se aproxime. Entro na casa e apanho a carteira e o álcool. Vou até o vendedor com aparência de 40 anos, guardo distância de três metros e pergunto como é feito o manuê. 

– Com leite de coco, sal e goma.

Estranho os ingredientes.

– Não leva açúcar, nem erva-doce?
– Não.

Ele abre o depósito, tira um manuê sem a folha de banana, mas envolto num saco plástico transparente, me entrega e sugere que eu prove. 

– Não é preciso, obrigado. 

Compro dois, pergunto o preço, pago e recebo as cédulas do troco com indisfarçável terror. Reparo no homem e lembro o romance Humilhados e ofendidos, do russo Dostoievski. Imagino o que lhe custa ocupar-se de um ofício habitual de mulheres e crianças e a necessidade que o sujeita a um ganho tão pequeno. Ele me pergunta se desejo que passe nos outros dias, respondo não. Estou de férias completas, até do confronto com a realidade. Penso e não falo, mas desejaria justificar as atitudes.

Vou à cozinha, sugiro a Dona Rosa que asse novamente os manuês.

– Já foram assados.
– Eu sei. É apenas por via das dúvidas.

De que dúvidas? 

Tento rir, mas o meu dia se estragou.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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