Cena do espetáculo 'Baile do Menino Deus'
Foto Hans Manteuffel/Divulgação
Só reparei na família de pé na calçada, quando o homem me cumprimentou com boa noite e em seguida desejou feliz Natal. Já passava das 22 horas, a neta de 3 anos dormia no meu braço e a filha carregava no colo uma bebê de 4 meses. Tínhamos pressa em chegar ao carro, estacionado numa das ruas próximas ao Marco Zero. Em casa, nos esperavam para a ceia. Exausto, eu só desejava a cama e algumas horas com o corpo na horizontal.
– Posso apertar sua mão?
Era o desconhecido, tentando se aproximar de mim.
Observo que é branco, alto, forte, a aparência de estrangeiro. Ao seu lado, uma mulher bem-vestida – também alta e branca –, crianças e um casal da minha idade. Imagino serem a esposa, os filhos e os sogros do desconhecido.
– Sim, por favor, respondo e estendo a mão, temeroso de acordar a neta.
O Baile do Menino Deus acabara havia pouco tempo. A praça e as ruas ainda estavam cheias de gente que viera assistir ao espetáculo, talvez porque não quisesse ficar em casa para a tediosa ceia regada a vinho, chester, farofa e selfies. Nos países frios, é comum ir-se ao teatro na noite de Natal. As companhias de dança oferecem a Suíte Quebra nozes, de Tchaikovsky. O grupo Cisne Negro, de São Paulo, mantém a tradição no Brasil. Aqui no Recife, nosso The Nutcracker talvez seja o Baile do Menino Deus.
Sempre que contemplo a multidão assistindo ao Baile, lembro a Praça de São Pedro, onde o papa reza a Missa do Galo para milhares de fiéis do mundo inteiro. As pessoas escrevem e se candidatam a uma vaga na seleta plateia. Os que não têm a graça de ser sorteados, acompanham a solenidade pela televisão. Mesmo com o catolicismo em baixa e o Papa Francisco sendo considerado um inimigo do novo governo brasileiro, a missa ainda é um sucesso.
Acomodo a neta no braço e aperto a mão do interlocutor. Não tenho receio quando me abordam na rua, o que vem se tornando cada dia mais frequente. Também não aceito tornar-me refém da cidade onde moro, nem alimento a paranoia gerada pela violência. Quando o medo for mais forte do que a coragem, vou me fechar numa clausura de carmelitas descalços.
Ainda existem esses eremitas da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo? Certamente, não. O sucesso das igrejas evangélicas decorre da oferta de uma vida social, um espaço comunitário de fala e inclusão, o que os católicos e as políticas públicas oferecem bem pouco. A vida silenciosa e monástica é impensável nos novos tempos pentecostais e neopentecostais.
– Queria lhe pedir perdão.
– A mim?
Reparo no homem à minha frente. Será louco?
– Primeiro em meu nome, por tudo o que falei mal dos nordestinos e fiz contra eles.
A neta se inquieta no braço, ameaça acordar. Minha filha abriu o carro e acomoda a bebê na cadeirinha.
– O que é isso?, pergunta estranhando a conversa insólita.
– Sou paulista.
– Adoro São Paulo, digo. Se não vivesse no Recife, moraria lá.
Dou sinal de que preciso ir embora.
O homem ainda tem coisas a dizer e me retém.
– Também peço perdão em nome de todos os paulistas que maltratam os nordestinos. Compreendi o Nordeste vendo o seu espetáculo. Vocês são diferentes. Muito obrigado por essa revelação.
De volta à casa, onde nos esforçamos por oferecer aos filhos e netos uma ceia sem chester e selfies, a filha capricorniana e racional diz que eu preciso contextualizar o diálogo com o turista. Não gosto de neologismo, nem do verbo contextualizar.
– O homem estava impressionado com o espetáculo e com seu discurso.
– E eu discursei?
– É claro que sim. Faz isso toda noite, sobe ao palco pra desejar feliz Natal ao público e aproveita pra dizer outras coisas.
É verdade, nunca me contenho. Digo que no Nordeste do Brasil se guardaram tradições de Portugal e Espanha nas brincadeiras populares. Nosso isolamento possibilitou isso. Os povos negros e índios contribuíram com suas culturas e, durante anos, transformaram o que aprendiam com os brancos, num jeito próprio de brincar. Um milagre antropofágico, uma ceia carnal, a nova missa. O que chegou do Oriente e do Ocidente, da África, Europa e Ásia, já trazia séculos de teatro, poesia, dança e música. Os modernistas de 1922 tentaram descolar o pé dessa tradição, criar uma arte rompida com o passado, como se nada que fosse antigo prestasse. Nós, das bandas de cá, felizmente não fizemos essa ruptura. Gilberto Freyre, muito inteligente e perspicaz, propôs um movimento regionalista, tradicionalista e também modernista.
Antes que minha filha se defenda dos argumentos, tomo a dianteira e falo.
– Nunca saio com a conversa de “autêntica cultura brasileira”, isso é papo furado. Qualquer cultura é autêntica e viva, desde que esteja em mobilidade, aberta a todas as influências. O que reconheço é que cada região brasileira tem maneiras próprias de se expressar. Nós do Nordeste mantemos um diálogo com a tradição até chegar ao novo. Não precisamos matar o pai como na psicanálise. O manguebeat não cuspiu em cima do maracatu de baque virado. Ao contrário, foi na batida, incorporou o ritmo. Estava na alma do grupo, na vida em comum. Afirmar nossas particularidades não é dizer que somos os melhores nem os mais verdadeiros. Queremos apenas que nos deixem criar. Fora com o slogan babaca “orgulho de ser nordestino”. Basta ser nordestino, isso se estampa na cara. Não fomos nós que dividimos o Brasil em regionalistas e universalistas. Nem criamos categorias para os prêmios musicais, estabelecendo que Alceu e Elba concorrem na categoria regionalista e o pessoal do pagode carioca na categoria geral. O apartheid foi inventado por quem?
– Está perguntando a mim?
A filha capricorniana não me dá moleza.
– Sei lá. Acho que estou falando pro cara de São Paulo. Às vezes, parece que somos outro povo.
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