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Entremez

A Orquestra Malassombro vai passar

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

08 de Fevereiro de 2022

Ilustração Rafael Olinto

Achava mesmo que se não saísse à rua, não acontecia carnaval no Recife. Um tanto presunçoso de minha parte, semelhante à mosca da anedota, que zumbe de um lado para outro, enquanto vários homens tentam desatolar um carro. Trazem bois, amarram o para-choques com cordas, puxam, se esforçam. A mosca aflita voa daqui, pousa ali, multiplica-se a ponto de parecer um enxame. Quando finalmente arrancam o carro da lama, ela cai exausta, enxugando o suor da testa, convencida de seu poder.

O culpado dessa fanfarrice foi meu pai. Ele levou o primeiro rádio para o sertão de Saboeiro, no Ceará, um aparelho Philips alimentado por bateria de caminhão, que tirou o sossego da fazenda. Levas de pessoas chegavam todos os dias para conhecer a máquina onde cabiam criaturas minúsculas, que falavam, cantavam e tocavam instrumentos. Graças a meu pai, ouvi a Rádio Clube de Pernambuco falando para o mundo e músicas de carnaval, que me pareciam todas iguais. Na máquina miraculosa escutei os nomes de Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon, evocados por Nelson Ferreira numa marcha de bloco. O micróbio do frevo entrou no sistema sanguíneo e nas sinapses nervosas e nunca mais fui o mesmo.

Mas apenas no ano de 1970 me deparei com o Recife e a folia. Foi um assomo de paixão pela cidade e sua música. Desejei conhecer o carnaval mais que brincá-lo. Sou um voyeur sem álcool na pneuma, com pouca fantasia, de olhos e nariz ávidos, caderneta e lápis na mão. Onde havia brinquedo eu estava no meio, evoluindo desengonçado em blocos, caboclinhos, maracatus de baque solto e virado, bois, la ursa, clubes... tudo? Tudo, não, nunca me aventurei a sambista, entrevistei alguns diretores de escolas e compus o samba Realeza com os parceiros Antonio Madureira e Assis Lima, no disco Arlequim de carnaval.

Desfilei nos primeiros anos do Bloco da Saudade. Criei com a irmã de Antonio Carlos Nóbrega, Galega, o flabelo que ainda hoje sai à rua, a máscara nas cores azul, vermelho e branco. Numa casa de Nóbrega, na Estrada Real do Poço, aprendíamos dança. Os professores eram Nascimento do Passo e Mestre Salustiano. Atacávamos o frevo por dentro e por fora. Muito suor, muitas leituras, audições, viagens, subidas e descidas de morros e córregos, alguma chuva e pouca cerveja.

Mas está proibido o carnaval nesse país tropical. Os poetas se revelam profetas ou são os profetas que nos amaldiçoam com versos poéticos? Caetano e Daniela Mercury imaginavam a pandemia de Covid-19, quando lançaram a marchinha desaforada, no carnaval 2020? Ou apenas miravam as restrições evangélicas moralistas do governo Jair Bolsonaro?

Mesmo que a alma não tenha tampinha, nem roupinha e nem caixinha, a asinha dela não poderá voar pelo segundo ano seguido. Acato a proibição, mas choro por dentro. Sonho e fantasio onipotências. E se eu brincar solitário, em algum esconderijo do planeta Terra, o carnaval retornará? Sempre imaginei que a festa só acontecia comigo, que sozinho sou todos os foliões.

Vou enumerar minhas perdas, se não tiver carnaval.

A primeira e maior de todas.

Melhor ser modesto e dizer que lamento não ver e ouvir a Orquestra Malassombro, fundada em 2019, e que pelo segundo ano consecutivo não vai alegrar Momo. Justo quando começava a surgir “o novo” no carnaval do Recife, no repertório e nos músicos, no coro rompendo o modelo dos blocos tradicionais, nos solistas fugindo à maneira tirânica de interpretar o frevo, nas composições de vários artistas jovens, como o maestro Rafael Marques. É de fazer chorar.

Me encanta na história do carnaval pernambucano, de marchas de bloco (que teimo em chamar assim, em vez de frevo de bloco), frevos de rua e frevos-canção, o modo como se sucederam gerações de compositores e carnavalescos, os mais velhos tirando o chapéu e abrindo alas para os mais novos. Dos Irmãos Morais Raul e Edgar aos Irmãos Valença Raul e João, chegando em Nelson Ferreira e Capiba, até o já octogenário Getúlio Cavalcante, o frevo procura dar passos à frente.

Dos mestres de frevo de rua e canção Levino Ferreira e Zumba, Nelson e Capiba, chegando a J. Michiles, Luiz Bandeira e Carlos Fernando, o jargão é que o frevo não para. Milhares de compositores, arranjadores, maestros, músicos, intérpretes e brincantes se esforçam para tornar isso realidade. Mas quando alguém mexe no frevo, querendo que os seus passos sigam para frente e larguem o lugar mais cômodo e assegurado pela tradição, sai de perto, é formigueiro assanhado.

Os certames (eita palavra cafona!) musicais foram importantes na consagração de gênios como Levino, ganhador do concurso Diário da Manhã, de 1935. Há quem ache que eles se acomodam a velhos nomes, os de sempre, com receio do novo. Quando o maestro e compositor Antonio Madureira apresentou o seu frevo Sete flechas, numa dessas disputas, foi desclassificado porque ousou introduzir ritmos de caboclinhos no frevo de rua.

Mas ninguém segura a bola da Orquestra Malassombro, que lançará um álbum nas plataformas de streaming, no dia 18 de fevereiro. Os compositores antigos terão de abrir alas e tirar os chapéus. Não se resiste a Me dê, frevo de bloco de Martins, interpretado por ele, e Resta sorrir, frevo de bloco de Rafael Marques e Zé Manoel, com este último e Isadora Melo. Também gravou-se Carnaval malassombrado, do saudoso Guitinho da Xambá, com participação do Grupo Bongar. Ao todo são catorze músicas, que arrancam lágrimas de quem não pode brincar a maior festa recifense.

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