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Curtas

Roda de Conversa 22

Conexões entre artes visuais e literatura na Arte Plural Galeria, no Recife

TEXTO Márcio Bastos

03 de Janeiro de 2022

A primeira 'Roda de Conversa 22' aconteceu em dezembro

A primeira 'Roda de Conversa 22' aconteceu em dezembro

FOTO Eric Gomes/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 253 | janeiro de 2022]

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Promover o diálogo das artes visuais com outras linguagens tem sido uma premissa da Arte Plural Galeria desde sua fundação, em 2005. Apesar do hiato de mais de um ano das atividades presenciais, por conta da pandemia, essa perspectiva de fomento à troca de saberes, olhares e sensibilidades proposta pelo espaço volta a pautar as ações neste ano que se inicia, com o projeto Roda de Conversa 22. A iniciativa pretende reunir artistas, curadores e o público no espaço para, a partir das exposições em cartaz, desenvolverem discussões que atravessam arte, cultura e vários temas, entre eles política.

Fernando Neves, sócio-diretor da Arte Plural, lembrou em entrevista à Continente que, em essência, a galeria é um ponto de encontro. Localizada na Rua da Moeda, no Bairro do Recife, inicialmente funcionava como o ateliê de sua esposa e sócia no empreendimento, a artista Luciana Carvalho. Lá, montaram uma cafeteria e reuniram amigos e outros artistas para conversar sobre arte, especialmente fotografia, uma paixão de Fernando. Em pouco tempo, outros entusiastas da cultura foram se aproximando e logo mostras individuais e coletivas começaram a acontecer por lá.

Ser apenas um espaço de exposição, no entanto, nunca esteve nos planos dos sócios. A ideia era que o lugar funcionasse como um propulsor de novas ideias, amparado também por um trabalho educativo que ajudasse a formar novas gerações de apreciadores da arte. Dentro dessa premissa, foi criado o Sarau Plural, evento que ganhou mais de 50 edições e reuniu alguns dos principais nomes da literatura, do teatro e da música pernambucana. Outra iniciativa ligada à integração de linguagens foi Gerações Musicais, que agregou artistas consagrados, como Maestro Spok, Quinteto Violado, Lucinha Guerra, Antúlio Madureira, Getúlio Cavalcanti e André Rio a nomes da nova geração, entre eles, Luiza Fittipaldi, Maria Flor, Isadora Melo, Isabela Moraes e Almério.

O Roda de Conversa 22 nasce com uma proposta afim, pautado pela conexão entre as artes visuais e a literatura, principalmente. Ao longo deste ano, a cada nova exposição, será convidado um escritor ou intelectual que, a partir de suas impressões das obras, será instigado a escrever um texto que deverá ser incorporado à mostra. A roda de diálogos também será uma parte seminal do projeto, como uma oportunidade de compartilhamento de percepções entre os participantes e o público.


Os dias nunca são iguais, obra de Fred Jordão que integra a
mostra
Falar imagens. Ver palavras, em exibição até o dia 29 deste mês.
Imagem: Fred Jordão/Divulgação

A primeira edição do projeto aconteceu no último dezembro e teve como mote a mostra coletiva Falar imagens. Ver palavras, em exibição até o dia 29 deste mês. Em formato de bate-papo, Priscilla Buhr, Gustavo Bettini, Fred Jordão e Renato Valle, todos com trabalhos presentes na exposição, a curadora Bruna Pedrosa e o escritor e sociólogo Paulo Marcondes trocaram ideias com o público sobre seus processos de criação e também a respeito de perspectivas sobre as obras uns dos outros. O projeto foi acompanhado por um público presencial – seguindo os protocolos de segurança, como o uso de máscaras – e também virtual, com a transmissão de uma parte da conversa, ao vivo, através do Instagram.

Além dos artistas presentes na conversa, a exposição reúne trabalhos de Alexandre Severo (in memoriam), Hélia Scheppa, Josivan Rodrigues, Filippe Lyra e Sebastião Pedrosa, que transitam por diferentes técnicas, como pintura, fotografia e gravura.

Como explicou Bruna Pedrosa, o recorte curatorial levou em consideração a relação entre palavras e imagens, o que aparece por vezes de forma mais explícita, como na série Escritos sobre pinturas ruins, de Renato Valle, na qual o artista insere textos em obras suas que não o agradavam, através de elipses, e como no trabalho de Bettini, que intervém em suas fotos, tirando alguns elementos. Há ainda casos, como as fotografias de Hoje não, de Priscilla Buhr, que são acompanhadas de um texto de autoria dela.

“Uma galeria de arte tem a obrigação de discutir a arte, seja formalmente, em um encontro como esse (do Roda de Conversa 22), seja convidando os artistas para fazer uma visita guiada. Não é só uma questão comercial, é um papel de falar da humanidade, de abranger os valores do ser humano – e a arte está desde o início da vida; então a gente não pode ficar restrito a uma questão comercial”, pontuou Fernando Neves.

Para o fotógrafo Fred Jordão, projetos como o Roda de Conversas 22 propiciam que os autores enxerguem suas obras por outros ângulos, a partir da troca com seus pares e também com os visitantes. Ele chamou a atenção para o processo em geral solitário dos criadores, que encontram reverberações para suas obras apenas quando são expostas.

Paulo Marcondes, escritor convidado, enfatizou que a experiência da troca é transformadora para todos os envolvidos. Durante suas visitas à exposição, ele percebeu um sentimento comum às obras, uma certa melancolia, poética da intimidade e um interesse na dilatação do tempo, que perde sua noção cronológica para evocar outras possibilidades de perceber a realidade. Essa percepção foi expandida a partir do momento em que, no encontro com os artistas, os processos de produção foram expostos e abriram espaço para aprofundar essa leitura.

Além da interação do público presente, a ideia é que os espectadores online, através das redes sociais, também possam contribuir com o debate. Segundo Fernando, os processos de curadoria e de formatos das conversas estão em construção. Ao longo dos próximos meses, estão planejadas mais cinco edições do Roda de Conversa 22.

MÁRCIO BASTOS é jornalista cultural.

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