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Curtas

Recife musa: Múcio Callou em cadência tranquila

Compositor absorveu a personalidade oceânica do Recife, moldada pela história e pela cultura local

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Outubro de 2021

Múcio Callou e Sandra Arraes, produtora, diretora e roteirista do videoclipe

Múcio Callou e Sandra Arraes, produtora, diretora e roteirista do videoclipe

FOTO ROGÉRIO ACIOLI/ DIVULGAÇÃO

[conteúdo na íntegra | ed.250 | outubro de 2021] 

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Ter uma ligação afetiva sincera à terra natal é um sentimento comum a todos os povos, desde um ponto de gradação que podemos chamar de apreço até outro, não tão saudável, denominado de ufanismo – um degrau além do bairrismo. Nesse leque, a diferença de ufanismo para bairrismo dá-se mais em termos de abrangência geográfica – bairro (ou cidade) vs. nação – do que em externação de emoções.

Nem todos os povos, porém, têm uma ligação afetiva em igual medida pelas águas que banham às suas terras. Rui Barbosa certamente apreciaria dizer que os recifenses somos, ao mesmo tempo, talassofóbicos e telúricos. Os lugares-comuns que simbolizam essa dualidade terra-água na capital pernambucana são conhecidos nacionalmente: a Praia de Boa Viagem, as pontes nos bairros centrais, o encontro do Capibaribe com o Beberibe em meio ao mangue, os próprios manguezais... e o arrecife que dá nome à cidade. De forma instintual, esse arrecife, que abriga o vilipendiado Parque das Esculturas Francisco Brennand, foi escolhido pelo compositor e instrumentista Múcio Callou como cenário de abertura de seu novo single, Recife musa, lançado no início de setembro em um videoclipe no YouTube, com roteiro e direção de Sandra Arraes.

Segundo Múcio, natural de Pesqueira e radicado nesta Veneza em que catamarãs fazem as vezes de gôndolas, a canção-título nasceu de uma provocação via Facebook, cujos registros nós, stalkers, ainda encontramos à mostra, datados de 14 de março passado.

Naquele dia, o poeta Pedro Américo de Farias, natural de Ouricuri e residente há alguns anos no interior de Minas Gerais, divulgou um poema chamado Recifensidade, publicado em Desaboios, seu livro mais recente: Recife, és lema/ Musa da poesia/ Que em si avalia/ O próprio poema/ Assim, és meu tema/ Pela diferença/ Forjei minha crença/ Estou nessa luta/ Sem briga ou disputa/ Recife, tua bença.

Múcio foi um dos que apareceram para elogiar o amigo, “Bravo, Pedro Américo! Saudades”, sem saber da cama de gato preparada para si: “Obrigado, meu futuro parceiro. A letra está aí prontinha, viu?” Um amigo em comum, ingenuamente, endossou a intenção do poeta: “Lindo, Pedro!!. Muito bom pra musicar”, e este aproveitou para meter o músico, de vez, contra a parede: “Obrigado, ofereci-o pra Múcio Callou, mas acho que ele não leu minha provocação. Se ele não topar, fica à disposição”.

“Entendi, sim, caro amigo, fico honrado. É um desafio musicar poemas. Na verdade, eles já trazem um ritmo, uma melodia latente. Cabe ao musicista absorvê-la. Vou tentar, sim. Um abraço”, foi a resposta acanhada de Múcio. Mas o desafio fora aceito e Recife musa, concebida e estreada.

Múcio possui uma discreta trajetória pela música de concerto, a qual inclui três suítes para grupos de câmara: a Suíte do Capibaribe, Tributo a Josué de Castro e a Suíte 1817, dividida em oito movimentos e escrita para violão, violoncelo, contrabaixo, flauta transversal e percussão – peça lançada em CD encartado na edição #212 da Continente, de agosto de 2018, e que virou trilha sonora do filme 1817: a revolução esquecida, de Tizuka Yamasaki.

Por sinal, a instrumentação da Suíte 1817 – cuja partitura completa pode ser baixada no site Acervo Cepe – foi a base do arranjo de Recife musa, acrescida de um quarteto de cordas e de um coral feminino de nove vozes, todos conduzidos por Múcio, que atua no single como cantor solista e acompanhador, ao violão.

O coral feminino, algum recifense já deve haver captado, é porque a canção foi concebida como um frevo de bloco – mais lento do que o usual, de fato, pois a atmosfera da música visa a convidar o ouvinte a contemplar a cidade em cadência tranquila, maneira com que o compositor absorve a personalidade oceânica do Recife, moldada pela história e pela cultura local. 

CARLOS EDUARDO AMARAL, jornalista, crítico musical, pesquisador e mestre em Comunicação pela UFPE.

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