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Curtas

‘Carro rei’, o poder das máquinas e das ideias desvirtuadas

Com ares de ficção científica e questões socioambientais, filme da cineasta pernambucana Renata Pinheiro é exibido na Holanda, em competição do ‘Festival de Roterdã’

TEXTO Mariane Morisawa

06 de Fevereiro de 2021

No longa, é num carro que nasce o bebê, e por conta disso batizado Uno

No longa, é num carro que nasce o bebê, e por conta disso batizado Uno

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Chegar ao Festival de Roterdã, que termina este domingo (7), teve um gosto especial para Renata Pinheiro, diretora do longa Carro rei. “Eu fiquei muito feliz de estar representando o Brasil, porque é uma seleção muito concorrida”, disse ela em entrevista à Continente. Primeiro, por causa de toda a situação do audiovisual no país. “Está muito difícil por conta dessa política de extermínio da cultura. Eles estão engessando a Ancine”, afirmou. O sucesso do longa-metragem no exterior logicamente pode ajudar a viabilizar novos projetos.

Mas conseguir fazer Carro rei também não foi exatamente fácil, mesmo tendo a ideia surgido há vários anos. Foram muitas inscrições em editais até o projeto ser aprovado. A cineasta credita isso à desconfiança de uma mulher ser capaz de realizar uma produção com elementos de ficção científica. “Fico achando que tem um pouco de machismo. Sempre foi assim na minha carreira, em geral nos filmes de homens não se vai a fundo para encontrar cada falha que tem ali. A gente é obrigada a ser mais perfeita.”

A escolha de seu filme para a seção paralela Big Screen Competition, que dá ao vencedor a chance de ser exibido em cinemas de arte e na televisão da Holanda, além de um prêmio em dinheiro, é prova de que o esforço valeu a pena.

A semente do filme surgiu quando Renata Pinheiro andava pelas ruas de Boa Viagem, bairro do Recife, onde mora. Passando pela Praça Walt Disney – cenário de um curta da diretora com seu parceiro Sergio Oliveira, corroterista de Carro rei –, ela viu diversos automóveis estacionados na calçada. “Fiquei irritada que os carros tinham mais direito que nós, transeuntes”, contou. Ela também já tinha um histórico de dar vida a coisas inanimadas. “Quis fazer um filme em que os personagens fossem carros”, disse.



É num carro que nasce o bebê, e por conta disso batizado Uno (Luciano Pedro Jr. na fase adulta). Seus pais são donos de uma modesta frota de táxis na cidade de Caruaru, Pernambuco. Desde pequeno, Uno tem a habilidade de conversar com o carro. Mas, depois de um acidente, os dois se separam. Uno tenta se afastar da paixão da família por automóveis, estudando Agroecologia. “É a guerra clássica da natureza contra as máquinas”, disse a cineasta, que pretende fazer um convite à reflexão. “A gente não pode viver sem a tecnologia, mas também não pode viver sem um planeta saudável, com natureza plena.”

Tudo muda quando Uno reencontra o carro, abandonado no ferro velho da família, assim como seu tio, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), sempre marginalizado por ser diferente dos outros. Zé Macaco é um gênio quando se trata da mecânica dos carros. E consegue transformar o velho automóvel numa supermáquina. Ali nasce uma oportunidade de negócios que parece vir para o bem da comunidade, mas toma um caminho torto. Não à toa, Renata Pinheiro e Sergio Oliveira estudaram um material sobre a atuação de seitas trazido pelo corroterista Leo Pyrata.




Fotos: Divulgação

Carro rei apresenta discussões das mais pertinentes num formato criativo. O carro ainda é um símbolo de ascensão social no Brasil, quando em boa parte do mundo a dependência do transporte individual, especialmente o movido a petróleo, está no mínimo fora de moda em tempos de crise climática. O filme também mostra como muitos se iludem ou idolatram uma coisa ou pessoa, uma clara alusão à onda de extrema-direita que varreu o globo e o Brasil nos últimos anos e à crença em falsos pastores. 

MARIANE MORISAWA, jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater, em Hollywood, e cobre festivais.

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