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Curtas

Cinema e política

Textos do crítico Paulo Emílio Sales Gomes em livro lançado pela Penguin & Companhia das Letras

TEXTO Fernando Silva

03 de Novembro de 2021

A obra reúne temas associados e ilumina a trajetória e as teorias deste intelectual paulistano nascido em 1916 e morto em 1977

A obra reúne temas associados e ilumina a trajetória e as teorias deste intelectual paulistano nascido em 1916 e morto em 1977

Foto Acervo Lygia Fagundes Telles/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 251 | novembro de 2021]

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Um dos idealizadores e fundadores da Cinemateca Brasileira, Paulo Emílio Sales Gomes se definia como um “arquivista de sombras”, mas é possível dizer também que perseguia a luz. Afinal, ficou conhecido pelo trabalho como crítico, deu aula sobre cinema na Universidade de Brasília e na Universidade de São Paulo e via nos filmes um significado maior do que a simples análise artística. Para ele, as produções eram caminhos para pensar os problemas econômicos e sociais do Brasil e do mundo. Essa visão singular é o mote de Cinema e política (152 páginas), livro lançado pela Penguin & Companhia das Letras no primeiro semestre deste ano.

Coletânea de textos escritos pelo crítico e sobre ele, selecionados por Carlos Augusto Calil, a obra não segue uma ordem cronológica, mas reúne temas associados e ilumina a trajetória e as teorias deste intelectual paulistano nascido em 1916 e morto em 1977.

Para começar, em Introdução bastante pessoal, de 1961, o crítico informava logo de cara ao leitor que “A Rússia foi o país que mais me interessou e durante mais tempo”. Feito a propósito de um festival de cinema russo e soviético, organizado em São Paulo, o texto revela estar ali alguém que, além do vasto conhecimento da cinematografia do país europeu, se entusiasmara com a revolução socialista de 1917, abraçando a ideologia, mas terminara por buscar outro rumo. Em suas palavras, ele estava “liberto há muito tempo das vendas do comunismo e imune para sempre do vírus desintegrador do anticomunismo”.

O roteiro de sua mudança, aliás, parece de cinema. Marxista desde muito jovem, Paulo Emílio acabou detido pelo governo Getúlio Vargas em dezembro de 1935, na onda repressiva que se seguiu à Intentona Comunista, ocorrida em novembro daquele ano. Ficou preso até 10 de fevereiro de 1937, uma Quarta-feira de Cinzas, quando saiu do Presídio do Paraíso, bairro na zona sul de São Paulo. Ou melhor, fugiu: ele e mais 16 detentos aproveitaram o clima de fim de carnaval para escapar pelo túnel de cerca de 10 metros que escavaram, em direção aos fundos da prisão, no quintal de uma casa vizinha. De lá, exilou-se em Paris meses depois, apaixonou-se pelo cinema e viu a perseguição de Josef Stalin (1878-1953) a seus opositores na União Soviética, nos processos de Moscou. Seu rumo agora era a esquerda democrática.



De volta ao Brasil, fez oposição ao Estado Novo (1937-1945), trabalhou em aliança com os liberais numa tentativa que desembocasse em nova Constituição e para criar um partido político de esquerda. Se o conceito socialista no qual acreditava não se tornou uma legenda política, para os elementos do outro lado deu certo. Pois que ali nasceu a União Democrática Nacional, a UDN de Carlos Lacerda (1914-1977).

A faceta de agente político do autor de Três mulheres de três PPPês também é apresentada no livro, com a inclusão do Manifesto da União Democrática Socialista (UDS), de 1945, assinado por ele e contando inclusive com programa político-social e reivindicações imediatas. Assim como a entrevista concedida em 1977 à socióloga Maria Victoria Benevides, que preparava uma tese sobre a UDN e queria entender o papel da esquerda nas origens da sigla. 

Em O intelectual e a política na redemocratização de 1945, ele resgata as divergências com liberais e comunistas e aponta ilusões do período, chamando a conversa com Maria Victoria de “desabafo”. A frustração o levou a escapar da política partidária como do presídio do Paraíso. Episódio marcante em sua vida, tal fuga aparece em Renoir e a Frente Popular, de 1958, texto sobre Jean Renoir (1894-1979) em que mostra todo seu amor à A regra do jogo (1939), obra mais famosa do cineasta francês. E Paulo Emílio se declara apaixonado mais vezes em Cinema e política ao escrever, por exemplo, a respeito de A chinesa (1967), de Jean-Luc Godard, ou sobre O Encouraçado Potemkin (1925) e Outubro (1927), os clássicos de Serguei Eisenstein (1898-1948). Sempre observando uma linha cara a ele: a de se manter longe de uma apreciação de filmes limitada ao campo cinematográfico, algo “pobre e nada estimulante”.

Sua escrita direta brilha nos textos escolhidos para o livro. Pode-se assim aprender que o czar russo Nicolau II (1868-1918) era fã de filmes, ou abrir um sorriso com a conclusão de Paulo Emílio ao ver o anarquista ucraniano Nestor Makhno (1889-1934) ser ridicularizado numa comédia soviética (“Não perdoo os realizadores de Os pequenos diabos vermelhos” [produção de 1923]). O seu estilo até desconcerta. Isso acontece quando, ao comentar uma afirmação do diretor e historiador norte-americano Jay Leyda (1910-1988) de que o russo Leon Trótski (1879-1940) era representado em cenas de Outubro, o crítico se sai com a sentença: “Eu ainda não consegui identificá-lo no meio de tantos russos com pincenê e barbicha”.

O que lhe parece interessante na produção nacional não ficou de fora. No ensaio Cinema: trajetória no subdesenvolvimento, de 1973, o crítico constrói um panorama das tentativas de implantação de uma indústria brasileira, utilizando-se de conceitos de colônia e metrópole, de quem eram os ocupantes e os ocupados. Ele vai da chanchada ao Cinema Novo, sem se esquecer do incipiente cinema erótico surgido na década de 1970.

Outro ponto alto na leitura da obra é a polêmica do autor com Oswald de Andrade (1890-1954), iniciada com um texto de setembro de 1935, O moleque Ricardo e a Aliança Nacional Libertadora. Nele, elogiava o romance de José Lins do Rego (1901-1957) e dizia que O homem e o cavalo, de Oswald, era obsceno, repleto de um “entusiasmo oratório romântico”.

Foi a senha para que o modernista respondesse com Bilhetinho a Paulo Emílio, acusando-o de não ter lido os livros. Uma das frases era “Você está simplesmente fazendo o jogo de certo tipo de desagregador que eu chamo de piolho da Revolução”.

Na tréplica publicada em 1964, com o título de Um discípulo de Oswald em 1935, havia o saudosismo da amizade entre os dois (“Oswald me adotou imediatamente, e guardo a impressão de que o via o tempo todo”) e uma honesta confissão. A de que realmente não entendera O homem e o cavalo, explicando o que lhe escapara à época. Esse era Paulo Emílio.

FERNANDO SILVA, jornalista.

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