Crônica de Belém
Para além da festa e da procissão religiosa, a época do Círio de Nazaré oferece oportunidade de conhecer melhor Belém, a arquitetura, os mercados, os museus e a culinária amazônica
TEXTO Mario Helio
09 de Outubro de 2026
A culinária amazônica é uma das mais exuberantes do país. Em Belém, na Casa de Saulo, o destaque é a cozinha tapajônica
Foto Mario Helio
Tempos de Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Neste domingo, dia 11, celebra-se a Missa oficial, na Catedral Metropolitana, às 6h, e uma hora depois, o momento auge, que é a procissão. Mas, além desta, somam-se outras 13, ao longo de todo o período de 7 a 26 de outubro. Trata-se da maior festa religiosa do Brasil. Maior em quantidade de pessoas nas ruas, variedade de expressões e em duração, pois há um pré e pós-Círio.
Para quem não quer se limitar ao evento em si, Belém oferece uma boa variedade de lugares a visitar. Museus e espaços culturais tão variados quanto os sabores locais convidam o visitante a desfrutar de uma programação às vezes tão intensa quanto o calor na capital.
A obviedade turística conduz o visitante a pensar em ir ao Mercado Ver-o-Peso, a tomar açaí, a passear no Emilio Goeldi. Mas há muito mais do que isso, e até atrações novas, que compõem o chamado legado da COP-30. Uma das mais vistosas delas é o Museu das Amazônias, um enorme armazém vizinho à Estação das Docas. A ideia de Porto Futuro ali termina por lembrar iniciativa semelhante à do Rio de Janeiro dos museus como o do Amanhã. No lugar do porto maravilha está o porto do futuro.
Com alguma licença poética pode-se dizer que o Mercado de São Brás parece uma versão reduzida do A-Ver-O-Peso, mas muito mais limpa e organizada. A adaptação de alguns edifícios históricos em Belém, como esse, o que mais claramente fez foi melhorar a oferta gastronômica para quem está de passagem. Podíamos dizer, parodiando Charles Baudelaire, história e a arquitetura inteiramente postas ao serviço da gula.
Se fosse mais bem cuidada Belém – idem quanto ao Recife – os casarões antigos mostrariam um protagonismo ainda maior. Com lugares como o Solar da Beira, patrimônio pelo Iphan desde 1977, que na sua exuberância de ferro, serve como espaço de exposições. Desfruta-se bem das iguarias locais aí, mas muito mais na chamada Palacete das 11 Janelas, junto ao rio Guajará.

Talvez seja o Palacete das 11 Janelas, mais até do que a Estação das Docas, seja o melhor lugar para estar em Belém. Quem não se interessar por conhecer a arte contemporânea que há do museu ali, dispõe de atrações até mais envolventes, como a Aquapraça – o nome é literal – e o bom restaurante – Casa do Saulo – com uma vista que não se explica com um adjetivo.
Se a pressa não combina bem com nenhum almoço, aí menos ainda. Na Casa do Saulo (Jennings), o turista pode encontrar o melhor da culinária amazônica. Ou, mais precisamente, tapajônica, um neologismo criado pelo chef, para mostrar a identidade de Tapajós, ele que vem de Santarém.
Isso e duas ou três coisas mais, como o Forte do Presépio e o Museu do Encontro (de recorte arqueológico e histórico), fazem parte do complexo cultural Feliz Lusitânia. O nome remonta ao início da colonização do Pará: 1616. O nome do bairro onde está o complexo Feliz Lusitânia é autoexplicativo: Cidade Velha. A igreja da Sé, a de Santo Alexandre e a praça Dom Frei Caetano Brandão dialogam com o Forte, a Casa das 11 Janelas e outros elementos do conjunto arquitetônico e paisagístico.