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Crítica

Paul encerra 2020 com disco inspirador

Ex-beatle lança 'McCartney III', terceiro álbum realizado pelo músico inglês no esquema 'do it yourself' e 'one-man-band'

TEXTO Débora Nascimento

21 de Dezembro de 2020

Paul McCartney em seu home studio, onde gravou 'McCartney III'

Paul McCartney em seu home studio, onde gravou 'McCartney III'

Foto Mary McCartney/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Dois mil e vinte
foi um ano dificílimo para todos. Ou, pelo menos, para muita gente. Além da tragédia na saúde, com os efeitos devastadores na economia e nas sociedades, a cultura também integrou a lista dos afetados pela pandemia. Mas o que poderia ser um período totalmente desértico no campo artístico, afinal muitos profissionais seguraram seus lançamentos (diante até da falta de recursos), revelou-se um momento de criação e de tentativa de reinvenção, para outros. Um deles foi Paul McCartney. Sem dispor do aparato de sua competente banda, de estúdios luxuosos e famosos produtores musicais, o ex-beatle, trancado em seu home studio, compôs, tocou todos os instrumentos, gravou e produziu McCartney III.

O numeral do título do disco refere-se aos trabalhos anteriores em que Paul enfurnou-se sozinho no estúdio para cumprir a função de one-man-band. A primeira vez que isso aconteceu foi exatamente há 50 anos, quando os Beatles anunciaram o fim da banda. Oriundo dos álbuns mais sofisticados do rock de então, o artista apareceu em 1970 com um disco de estilo lo-fi, reunindo um apanhado de músicas bastante diferentes das que realizava com o Fab Four. O destaque, entre as faixas, Maybe I'm amazed, se tornou um clássico do seu repertório. Em 1980, ano em que se despedia de outra banda, desta vez os Wings, lançou McCartney II, apresentando agora experimentações com os sintetizadores que dominariam a década que começava. Das faixas, destacava-se Coming up, que se tornou um hit. E reza a lenda que o competitivo John Lennon, ao ouvir a faixa, resolveu sair da autolicença de cinco anos para fazer o Double fantasy, que virou seu último disco.

Esse lado multifacetado de Paul McCartney surgiu de seu interesse pela produção de discos. Segundo Geoff Emerick, engenheiro de som da segunda e brilhante fase dos Beatles, Paul era o instrumentista mais talentoso da banda e o mais interessado no que estava sendo realizado no estúdio Abbey Road. O músico costumava prestar atenção ao que Emerick e o produtor George Martin faziam com as faixas e chegou, em algumas ocasiões, a gravar instrumentos no lugar dos outros integrantes do quarteto. Emerick, que ganhara um Grammy com apenas 22 anos por Sgt. Pepper's (1967), recebeu mais uma estatueta, desta vez pela engenharia de som em Band on the run, obra-prima lançada por Paul ao lado dos Wings, em 1973.

A expertise de Paul para construir canções rendeu um ótimo resultado em McCartney III. Ao contrário de seus álbuns anteriores de estúdio (como Egypt Station, de 2018), o disco não soa como um típico blockbuster musical, com aquela sonoridade que grita "superprodução!". E essa falta de ostentação é um dos seus méritos. O artista apresenta canções que soam não como o trabalho de um cânone da música popular, mas como o de um dos talentosos artistas que, longe do panteão, vêm se destacando, mesmo no segundo escalão da música. O disco, que surgiu espontaneamente em março, quando ele gravava uma música para a trilha sonora de um curta-metragem, abre despretensiosamente com Long tailed winter bird, uma faixa de blues que inicia ao som de cordas rústicas e vai ganhando a adição de novos instrumentos, como guitarra, baixo, bateria. Na letra curta, ele repete a pergunta: "Você sente minha falta?".

Essa faixa deu início, em março, à composição espontânea das subsequentes – ao todo, são 11 – abrangendo diversos gêneros musicais. Em seguida, Find my way traz um backing vocal que lembra Beck e riffs cujos timbres parecem uma mistura de Wings com Vampire Weekend. A música já ganhou videoclipe em que o músico aparece no estúdio tocando diversos instrumentos. A balada Pretty boys retoma o Paul melodista, sua famosa característica. Women and wives surgiu após ler a biografia do cantor de blues Huddie William Ledbetter (Lead Belly). Uma curiosidade é que, nessa faixa, Paul toca o baixo de Bill Black, baixista de Elvis Presley. Na longa canção seguinte, Deep deep feeling, de 8:25 minutos, o compositor insere acordes que lembram Portishead e pianos no estilo The XX. Na gravação, foram usadas dezenas sons de guitarras diferentes. Ele também explora os vocais em vários timbres – uma forma de atenuar a voz marcada e limitada pelos 78 anos de vida.

Seria fascinante ouvir a performance dessas músicas ao vivo. No entanto, além do fato de a pandemia ainda enveredar por parte de 2021, Paul tem feito, há um bom tempo, turnês com a segurança do mesmo repertório de hits dos Beatles e do trabalho solo, fazendo poucas alterações de um show para outro. Foi, na passagem de som em um show de 2016, que, ao improvisar com a banda, surgiu o riff de heavy metal de Slidin', uma das melhores faixas de seu novo disco, herdeira de Helter skelter. Seria desperdício não tocar essa e outras novas composições, como The kiss of Venus, balada na linha Mother nature's son. Na belíssima faixa, ele insere um cravo, que, usado com parcimônia, não pesou no tom barroco.

Em seguida, Seize the day traz aquela vibe Beatles, parecendo uma faixa esquecida de Sgt. Pepper's. Talvez tenha ficado guardada em algum lugar na memória de Paul. Na letra, escrita em plena quarentena, ele pede para o dia ser aproveitado, de qualquer maneira. Esse é o recado de uma pessoa que, quando criança, perdeu a mãe, vítima de um câncer; que perdeu a companheira Linda McCartney, também por conta de um câncer; que perdeu o antigo parceiro John Lennon, num brutal assassinato em 8 de dezembro de 1980, acabando de vez com o sonho de uma reunião dos Beatles, algum dia. Além de sofrimento, Paul também sabe o que é quarentenar, mas com produtividade. Em 1970, ano do fim dos Beatles, foi morar com a família numa fazenda na Escócia, de onde, além do primeiro disco da trilogia McCartney, criou um dos seus álbuns mais adorados, RAM (1971).

Despretensiosamente e também, mais uma vez, experimentando, ele realizou um dos melhores discos de 2020. Por ter chegado quase no fim de dezembro, o álbum não pôde integrar os rankings dos lançamentos deste ano. Ao contrário dos anteriores dessa trilogia, o ex-beatle não está encerrando um ciclo. Talvez todos nós juntos, sim. McCartney III nasceu espontâneo, assim como duas das muitas criações icônicas de Paul: Let it be e Hey, Jude!, aquelas em que canta "words of wisdom", naquele jeito tranquilo e mccartneyano dele, para que não carreguemos o mundo nos nossos ombros, para que peguemos uma canção triste e a tornemos melhor. Na faixa final do novo álbum, Winter bird / When winter comes, esse senhor de cabelos brancos, o jovem autor de Blackbird, conclui, com esperança: "Quando o verão se for/ Nós vamos voar para longe/ E encontrar o sol".

DÉBORA NASCIMENTO, jornalista, repórter especial da Continente e colunista da Continente Online.

Assista ao videoclipe de When winter comes:

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