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Entrevista

"Não acho que é possível ser rebelde agora"

Engenheiro de som dos Beatles, responsável pela gravação de discos como 'Sgt. Pepper's', Geoff Emerick fala sobre o seu trabalho com a banda e como as facilidades tecnológicas afetam a criatividad

TEXTO Débora Nascimento

21 de Junho de 2018

O produtor Rafael Hauck com o engenheiro de som Geoff Emerick na 'master class premium', realizada no estúdio Audio Porto

O produtor Rafael Hauck com o engenheiro de som Geoff Emerick na 'master class premium', realizada no estúdio Audio Porto

FOTO Nomma Media

Enquanto boa parte do planeta já estava de olho nos lances da Copa do Mundo deste ano, no Brasil, mais precisamente em Porto Alegre, um grupo de felizardos recebia orientações de um – para usar um termo futebolístico – craque da música. Trata-se de Geoff Emerick. Mesmo quem nunca escutou esse nome, certamente ouviu o trabalho dele. Engenheiro de som dos Beatles, está por trás da gravação de álbuns icônicos da banda, como Revolver, Sgt. Pepper's Abbey Road.

O termo “engenheiro de som” faz parecer que essa é apenas uma função técnica, sem relevância criativa – principalmente num meio em que os artistas são os protagonistas. No entanto, Geoff provou que pode ser exatamente o contrário. Levou ao pé da letra o sentido da palavra “engenheiro”, que tem origem no latim – ingeniare (imaginar, inventar) e ingenium (inteligência) – e remete a alguém com formação técnico-científica capaz de torná-lo apto a resolver problemas tecnológicos, práticos e complexos, ligados à concepção, realização e implementação de produtos, sistemas ou serviços.

Com sua inventividade e, mais que tudo, talentosa rebeldia para driblar as regras de gravação vigentes, ele se tornou responsável pela mudança na sonoridade dos discos do grupo, dividindo a discografia dos Beatles entre a primeira e a segunda fase, limite estabelecido a partir do Revolver (1966). À frente do registro de Sgt. Pepper's (1967), pelo qual ganhou, aos 21 anos, o primeiro de seus quatro Grammy de Melhor Engenharia de Som (1968, 1970, 1975, 2004), promoveu uma revolução na forma de gravar e, como consequência, no formato da música popular mundial a partir de então.

A convite do Audio Porto, empresa que ganhou o Prêmio Profissionais da Música 2018 de Melhor Estúdio de Gravação e Mixagem, Geoff Emerick realizou uma concorrida palestra no último dia 14 para 300 espectadores e, entre os dias 15 e 17, ministrou uma inovadora master class premium de três dias para cerca de 60 pessoas.

“Geoff é um dos caras mais importantes da história da nossa profissão. Por mais que as pessoas não percebam que, naquela época, havia limitações extremas, ele foi um cara que dobrou a curva pra mudar como as coisas eram feitas dentro de um estúdio. Acho que, de uma certa forma, é muito significativo, muito simbólico, porque é o que o Audio Porto tem em mente, tentar fazer de uma maneira diferente”, avalia Rafael Hauck, produtor e proprietário do estúdio, que, para alegria de incontáveis profissionais da música, pretende lançar o vídeo dessas aulas e trazer Geoff novamente ao país, dessa vez para ministrar um minicurso sobre gravação analógica.


Geoff e Paul em 1967, nos estúdios da EMI. Foto: Reprodução

“A gente sabe que a realidade é que, apesar de o estúdio ser incrível, de ter uma sonoridade muito legal, hoje em dia, financeiramente e tecnicamente muitos dos músicos acabam resolvendo na própria casa a maior parte de um disco, quando não inteiro. Então, foi fantástico buscar o Geoff nesse sentido, porque já começa a ilustrar como a gente pensa em fazer com que funcione um estúdio desse porte aqui no sul, no Brasil ou em qualquer parte do mundo. A tendência hoje é oposta, desses espaços estarem fechando. E de cada vez mais as pessoas perderem as referências dessa sonoridade de equipamentos que eram feitos numa época diferente da indústria. Eram pensados pra estar em espaços com engenheiros de manutenção, espaços muito bem-cuidados. Eram equipamentos mais sensíveis. Hoje em dia, a indústria fabrica equipamentos para eles não estragarem – ninguém tem engenheiro de manutenção em casa, se tiver um home studio. Esses equipamentos antigos não são mais fabricados. Então, o custo deles é, às vezes, até quatro, cinco, seis vezes maior em relação ao custo de um equipamento top de linha equivalente”, explica Hauck.

Segundo o produtor, Geoff Emerick surpreendeu a todos com sua excelência na área e sua gentileza: “Ele é um ser humano impressionante. A gente lida com tanta gente na indústria que se equivoca na maneira de lidar com as pessoas. E isso é gente que não vendeu um centésimo dos discos que esse cara fez vender. E aí tu vê uma humildade, uma colaboração. Ele é um ser humano de um patamar alto. E vemos o quanto a gente está pequeno hoje em dia. O quão a gente, com pouca coisa, já começa a ter certas atitudes que segregam em vez de juntar. E a gente começa a perceber por que os Beatles foram o que foram. Tendo conhecido ele, dá pra ver que ele realmente fez parte daquela energia. Ele enche o ambiente com essa tranquilidade, esse respeito, essa lição de ser humano”.

Filho de membros da working class (assim como os outros Beatles) e sem dinheiro para cursar uma universidade, Geoff teve que começar a trabalhar cedo. De preferência, em algo técnico. Seu pai, açougueiro, queria que o filho seguisse a mesma carreira, mas Geoff, desde criança, gostava de equipamentos de som. Por uma coincidência do destino, ele soube de uma vaga de trabalho nos estúdios da EMI, que ainda não eram conhecidos como Abbey Road. Comedido e bem-educado, vestiu um terno e seguiu para a entrevista de emprego. Passou no teste. Para ele, seu principal atributo, o bom comportamento, foi levado em consideração. Ele tinha apenas 15 anos. Os executivos da gravadora priorizavam empregados que soubessem se portar, a exemplo de George Martin, que mais parecia um lorde do que um produtor musical.


George Martin e Geoff em ação, 1995. Foto: Reprodução

Após um período trabalhando como faz-tudo, Geoff começou a atuar como assistente de gravação de Norman Smith, engenheiro de som dos Beatles, que colaborou com a banda até Rubber soul (1966) – depois foi trabalhar com o Pink Floyd, também contratada da EMI, que lançaria, em 1967, o acachapante début The piper at the gates of dawn. Um ano antes, a pedidos de George Martin (e com a provável aprovação de Paul McCartney, o beatle mais atuante no estúdio), Geoff assumiu o posto de Norman. E sua primeira incumbência, aos 19 anos, foi gravar uma nova composição de John Lennon: Tomorrow never knows, a música que redefiniu o som dos Beatles e que ainda soa como se tivesse sido gravada ontem.

Por uma dessas injustiças do mercado fonográfico, que ignora o trabalho dos que atuam nos bastidores da música (produtores, engenheiros de som, criadores de equipamentos), o nome de Geoff Emerick permaneceu desconhecido do grande público, até mesmo de boa parte dos fãs dos Beatles. Desses profissionais, apenas o produtor George Martin conseguiu se destacar do anonimato na década de 1960, ao ponto de ser apelidado de o Quinto Beatle. No entanto, Emerick foi elemento-chave para a renovação do som da banda, o que culminou com o seu trabalho no Sgt. Pepper's, apontado em diversas listas como o melhor disco de todos os tempos.

Com George Martin brilhando na série documental The Beatles Anthology, nos anos 1990, o nome de Geoff Emerick só veio conquistar maior destaque após a publicação de Here, there and everywhere – Minha vida gravando com os Beatles (Novo Século, 2006, 480 páginas). Neste livro de memórias (realizado em coautoria com o jornalista Howard Massey), o engenheiro de som pode narrar toda a sua trajetória, esmiuçar as soluções mirabolantes para conseguir traduzir, em sonoridade, o que os Beatles desejavam em cada gravação, a exemplo do pedido de John Lennon: “Quero que minha voz soe como o grito do Dalai Lama no alto de uma montanha”.

O livro de Geoff também serviu para confirmar Paul McCartney como o mais competente e completo músico da banda, chegando, algumas vezes, a cumprir a função dos companheiros, como o solo de Taxman, que George Harrison não conseguiu executar a contento. Paul também é apontado por Geoff como o beatle que gradualmente foi ocupando a função de produtor.

Com o fim da banda, Geoff Emerick passou a trabalhar com diversos outros artistas e bandas, a exemplo de Jeff Beck, Elvis Costello, Supertramp, CheapTrick, Johnny Cash, America. No entanto, sua maior colaboração pós-Beatles ocorreu em Band on the run (1975), de Paul McCartney, álbum pelo qual ganhou outro Grammy.


Emerick, ladeado por George Martin e Ringo, recebendo o Grammy pelo Sgt Pepper's, em 1968. Foto: Reprodução

Em um trecho do seu livro, Geoff relata o primeiro impulso através do qual começou a sua pequena grande revolução: “Eu sabia que poderia ser advertido pelo responsável pelo estúdio por fazer isso (na ocasião, era quebrar a regra de distanciamento dos microfones dos instrumentos), mas a minha curiosidade tinha sido aguçada: eu realmente queria ouvir como aquilo soaria. Depois de um momento de reflexão, decidi. Dane-se, estávamos falando dos Beatles. Se eu não pudesse fazer experiências nas sessões de gravação deles, provavelmente eu nunca mais teria essa oportunidade”.

E continua: “Felizmente, tive o privilégio de trabalhar com uma banda que também tinha essa ânsia de desbravar novos caminhos e um produtor disposto a me deixar experimentar minhas ideias. Não sabíamos, na época, que estávamos elevando o nível da música gravada e não tínhamos absolutamente a menor ideia de que os Beatles estavam prestes a se tornar ainda maiores do que já eram – o que parecia impossível –, mas nós sabíamos que estávamos fazendo um bom trabalho e nos sentíamos confiantes de que o público ouvinte captaria isso. Eu ia para casa todas as noites cansado e esgotado, mas cheio de orgulho por tudo o que eu estava conseguindo, ansioso para enfrentar os desafios do dia seguinte”.

Abaixo, você lê uma entrevista exclusiva de Geoff Emerick para a Continente Online:

CONTINENTE O que você acha do engenheiro de som ser raramente mencionado como elemento-chave para a boa performance de uma gravação? Você prefere trabalhar como engenheiro de som ou como produtor?
GEOFF EMERICK É difícil trabalhar como ambos em um projeto porque normalmente você não pode se dar 100% a cada trabalho. Você pode estar ocupado fazendo alguma coisa técnica e, de repente, o vocalista pergunta: "E aí? Eu cantei afinado?", e você não estava prestando atenção. Então, eu não tenho um trabalho favorito. Depende do quanto você pode contribuir como produtor e depende de quem venha a ser o artista. Para mim, ser o engenheiro de som significa ser engenheiro de mixagem também, como costumávamos fazer antigamente. Não existiam papéis separados, porque você gravava algo sabendo o que ia fazer com aquilo na mixagem, sabe? Agora, temos alguém que grava e outra pessoa faz a mixagem, o que não faz sentido pra mim. Eu não me importo em trabalhar em um papel ou no outro, como engenheiro ou como produtor, mas combinar os dois, como eu disse, é difícil porque não é possível se dedicar completamente a ambos ao mesmo tempo.

CONTINENTE Atualmente é muito fácil gravar um disco num computador. O que você acha disso?
GEOFF EMERICK Bem, sabe...Quer mesmo que eu diga alguma coisa? Eu vim da gravação de música de forma analógica. Não havia muitas tecnicidades envolvidas, exceto pela seleção dos microfones a serem usados. E nosso console de mixagem de então tinha oito entradas de microfones, até a gravação do álbum Abbey Road, eu acho. O problema disso não é com o processo computadorizado de agora, é que temos plug-ins, e a maioria das pessoas está usando os mesmos plug-ins, e a maioria das coisas começou a soar igual, de uma maneira clínica e estática, de certo modo... Então, não temos mais diferenças de tonalidades, e sem elas, não temos diferentes estruturas nos arranjos, possivelmente porque todo mundo está trabalhando da mesma maneira! É bem difícil explicar essas coisas. Então, obviamente, como resposta à pergunta, eu não gosto.

CONTINENTE George Martin criou uma barreira para as histórias por trás das gravações dos Beatles e você, em seu livro, revelou muito do que aconteceu nesses bastidores. Você sabe como seu livro foi recebido pelos beatles remanescentes?
GEOFF EMERICK Não faço ideia, isso nunca veio à tona. Mesmo quando encontro com Paul, agora, eu não toco no assunto na frente dele, mas tenho certeza de que eles leram, ou que alguém deve ter falado para eles sobre o livro. De qualquer forma, nunca falei com nenhum deles sobre isso, e alguns deles já se foram agora... Obviamente John já havia falecido, e acho que o livro foi lançado depois que George se foi. Mas Paul nunca tocou no assunto, e eu não quero falar sobre isso com ele. Mas sei que a banda de Paul leu o livro, então, bem, seja lá como for, eu não sei.

CONTINENTE Qual foi a mais problemática sessão de gravação na sua colaboração com os Beatles?
GEOFF EMERICK Acho que Tomorrow never knows, que foi a primeira difícil. Isso graças à falta de experiência. Mas foi assim que aconteceu. E isso mudou a maneira como a música passou a ser gravada, mudou pra melhor. E eu acho que as mais complicadas podem ter sido A day in the life, e possivelmente Within you, without you. E All you need is love, que foi uma transmissão mundial ao vivo via satélite, para todos os países. Essas foram as mais cabeludas.



CONTINENTE Parece-me que a maioria das inovações que você criou se deveu a uma desobediência às rígidas regras da gestão dos estúdios da EMI. Essas inovações passaram a ser percebidas como a manifestação sonora do zeitgeist. O que você pode ensinar às gerações mais jovens sobre o uso instrumental da desobediência como uma ferramenta criativa?
GEOFF EMERICK Bem, eu não acho que é possível ser rebelde agora, porque qualquer som que eles queiram, eles podem, como continuo a dizer, usar um plug-in. Mas eu tive que criar aqueles sons, originalmente, do nada, e sobrecarregar e abusar do equipamento. Então, agora você não precisa fazer isso, mas eles ainda deveriam tentar criar os sons sem depender dos plug-ins. Porque eles não se dão ao trabalho, mas, é simplesmente... fácil demais! Quanto ao processo criativo, aquilo meio que se perdeu. Então esta seria a diferença, eu acho. 

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da Continente e colunista do site da revista. 

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