"A pluralidade do Brasil não pode ser reduzida a uma só verdade"
Tiago Melo, diretor do filme 'Azougue Nazaré', exibido na Mostra SP, conversa sobre a ficção que criou a partir da tensão entre cultura popular e religião
TEXTO LUCIANA VERAS, DE SÃO PAULO*
24 de Outubro de 2018
'Azougue Nazaré' é o primeiro longa do realizador pernambucano Tiago Melo
Foto Leo Sette/Divulgação
“O diabo no meio da rua, no meio do redemoinho” é uma das frases mais conhecidas de Grande sertão: veredas, a obra-prima de João Guimarães Rosa que permanece a nos assombrar com sua força de linguagem, seus questionamentos sobre Deus e o anjo caído que se convencionou chamar de Satanás e sua paixão reprimida. Em uma das sequências mais emblemáticas de Azougue Nazaré (Brasil, 2018), primeiro longa-metragem do realizador pernambucano Tiago Melo, cinco caboclos de lança pairam, sob a escuridão do canavial, em uma encruzilhada, como se estivessem a esperar o diabo no meio do redemoinho, o mesmo diabo que Riobaldo passa o tempo inteiro a evocar no livro.
Caboclos de lança que desaparecem, pastores evangélicos que exortam seus próprios familiares a rechaçar o maracatu e a tensão que resulta da oposição criada entre os que defendem a tradição secular do folguedo e aqueles que nele enxergam a “obra do demônio”: desse feixe se entrelaça, como os milhares pés de cana na Zona da Mata de Pernambuco, essa ficção. Tendo o Maracatu Cambinda Brasileira como personagem e pano de fundo, Azougue Nazaré se ambienta na cidade de Nazaré da Mata, com personagens que vivem em embate: no casal Catita (Valmir do Coco) e Darlene (Joana Gatis), ele brinca escondido no maracatu, ela é seguidora fervorosa do pastor local (Mestre Barachinha), que por sua vez abandonou o folguedo e hoje tenta fazer com que seu filho (Edilson Silva) faça o mesmo.
O filme está em exibição na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É o primeiro porto nacional, por assim dizer, que acolhe o filme, que já circulou por mais 20 países desde a estreia em Rotterdam, em janeiro. “Fomos para Rotterdam, para a mostra Bright Future, e lá ganhamos um prêmio. Depois fomos a Toulouse, onde recebemos o prêmio da crítica, ao BAFICI, onde o filme levou o troféu de melhor direção, ao New Directors do MoMA, em Nova York... O filme passou ainda na Bélgica, na Alemanha, no Peru, na Escócia, na Polônia, na República Tcheca, em Taiwan e em Portugal”, conta o diretor à Continente.
Chegar ao Brasil em outubro, no meio de uma acirrada campanha presidencial, potencializa Azougue Nazaré de várias formas. Não que o filme precisasse, por assim dizer, disso – é uma narrativa vibrante, ágil, que enverga elementos do cinema de gênero (ou brinca com ideias bem arraigadas no imaginário coletivo pernambucano, como os poderes – ou superpoderes! – de um caboclo de lança) e, por meio de uma segura condução dos atores, fala abertamente sobre tensões entre cultura e religião no interior do Brasil. Mas é inegável que ser exibido em outubro de 2018 reveste o longa de outras possibilidades. Primeiro, porque um dos embates cruciais que o filme estabelece se dá através da propagação de um discurso de intolerância proferido pelo pastor evangélico. Segundo, porque o pensamento do maracatu como uma trincheira de resistência sinaliza para a importância da cultura e da arte em tempos conturbados e obscuros.
Tiago Melo tem consciência disso e não se furta a comentar: “Temos que sempre lutar contra o ódio e a intolerância e pregar o amor”. Horas antes de embarcar em um voo de quase 24h para o Iraque, onde Azougue Nazaré seria exibido antes de seguir para Mumbai e Genebra (a partir da semana que vem, estará na grade do Festival do Rio também), o diretor falou à Continente.
CONTINENTE Você é de Nazaré da Mata? De que maneira se relaciona com o universo retratado no filme?
TIAGO MELO Sempre quis fazer um trabalho em Nazaré da Mata porque a minha avó materna nasceu lá. Antes, eu tinha feito um filme chamado Urânio Picuí, que era a cidade do meu pai. Como o maracatu sempre me encantou, e eu já tinha visto e filmado muitas sambadas, já estava com essa ideia de fazer um trabalho lá quando conheci a Cambinda Brasileira. O antigo presidente, Zé de Carmo, hoje já falecido, foi muito generoso comigo, abriu as portas do maracatu e acreditou de verdade no filme. Foi a pessoa que mais acreditou, aliás, mais até do que eu mesmo. Isso criou um laço que se fortaleceu quando descobri que minha avó nasceu no mesmo ano da fundação do Cambinda Brasileira. Ela e o maracatu têm 101 anos. Saber que ela estava nascendo em Nazaré da Mata ao mesmo tempo em que o maracatu me fez pensar que talvez isso não seja uma coincidência, e sim uma conexão forte. Quando fui para Nazaré para o centenário da minha avó, senti isso em mim e sei que lá criei laços afetivos, além dos laços de trabalho.
CONTINENTE O que te deu o insight para fazer Azougue Nazaré?
TIAGO MELO Cheguei lá para fazer um documentário que seria parte de uma série que fiz chamada Encantaria. Eram quatro documentários que envolvem a temática de religião e o maracatu seria uma delas. Fui fazendo a pesquisa, conhecendo as pessoas e foi me dando uma vontade muito grande de fazer uma ficção. Primeiro, porque eu ficava pensando lá se ia fazer mais um doc sobre maracatu, já existem tantos, tantos outros já abordaram a parte religiosa e eu percebi que estava animado para fazer algo diferente. Foi aí que comecei a perceber o potencial de interpretação das pessoas do maracatu, os artistas incríveis que são acostumados com câmera desde muito novo. Desde cedo, todo mundo dá entrevista, todo mundo é filmado, todo mundo se apresenta, então essa desenvoltura já é bastante evoluída. Fui vendo que eu não estava sozinho nesse desejo de fazer uma ficção e quando vi que eles estavam a fim de embarcar nessa história, em vez de dar um depoimento sobre sua vida real, foi aí que me empolguei mesmo.
Valmir do Coco é Catita. Foto: Divulgação
CONTINENTE Queria falar sobre a escalação do elenco. Uma das grandes sacadas, na minha opinião, é escalar Barachinha pra fazer pastor, uma figura que adota um claro discurso de intolerância. É uma “pegadinha” que talvez não tenha tanto impacto para quem não é de Pernambuco, e não sabe que Barachinha é Barachinha... Como chegou àquele conjunto de atores e atrizes?
TIAGO MELO Quem fez a pesquisa comigo foi Ítalo Gustavao, que é de Nazaré e trabalha comigo há muitos anos. Ele toca no maracatu, toca trombone, e eu pedi a ele que, durante o Carnaval, deixasse um iPad meu na mão de todo mundo da Cambinda Brasileira. A ideia era que eles se filmassem sem a minha presença e terminou que isso foi o casting que eu estava pensando em fazer. Foi aí nesses vídeos de Carnaval que me encantei mais com Valmir do Coco, que faz Catita, por exemplo. Já conhecia, achava interessante, mas achei bem mais forte. Várias outras pessoas do maracatu vieram também dessa forma. A ideia sempre foi usar o máximo possível de pessoas da Cambinda Brasileira, mas aí depois o processo abrangeu Nazaré como um todo. O filme se passa na Cambinda, mas em comunhão com todos os grupos de maracatu rural. Fui traçando os personagens do filme e tive a ideia de convidar Barachinha para ser o pastor do filme, que era um ponto que eu achava muito importante.
CONTINENTE Por quê?
TIAGO MELO Porque ele é um mestre importante do maracatu rural, uma figura já conhecida, e eu já tinha uma relação com ele, gostava dele e vi, no seu olhar, a vontade de fazer o filme. Mas eu estava muito receoso se ele ia aceitar ou não justamente porque o papel era tão diferente da vida dele. Fomos conversar sobre o personagem e ele disse que se tivesse sido chamado para fazer um documentário, era capaz de nem querer, pois já estava cansado de dar tanta entrevista, mas com o filme sendo uma ficção, a pessoa que estava mais certa era ele! Quando finalmente eu disse que ele iria fazer o pastor, ele se animou com o desafio de fazer algo completamente diferente e assim fomos trabalhando. Acredito, ainda, que existe algo simbólico na pessoa de Barachinha e eu queria que, no filme, o pastor fosse um ex-mestre de maracatu. Para mim, aquela figura seria muito mais forte: um mestre incrível como ele ter deixado o maracatu para virar pastor. Então, quis pegar a potência do mestre de verdade, a força dele, para representar esse personagem. Além disso, quis mesclar atores nesse mesmo universo, como Joana Gatis e Ananias de Caldas, que atuam e são, respectivamente, a figurinista e o diretor de arte do filme. Aí vieram Mohana Uchôa, Edilson Silva, Nanego Lira, e todo mundo contribuiu muito com o processo. Tivemos muito ensaio, a preparação de elenco foi bem intensa nesse sentido. O filme tem uma espontaneidade forte na narrativa, mas isso foi muito bem-preparado antes com o elenco.
CONTINENTE Como chegou à construção imagética do filme? As imagens trazem o colorido do maracatu, mas também apontam para experimentação na linguagem, por vezes flertando com o sobrenatural ou o hiperreal, até.
TIAGO MELO Um dos fortes desejos que deu força para fazer essa ficção foi meu encanto após ter escutado as histórias do passado do maracatu. Ao conversar com Barachinha, Zé de Carmo e dona Biu, ouvi histórias que me encantaram bastante e todas eram sobre o universo sobrenatural em torno do caboclo de lança. Tinha uma do caboclo de lança que voava e pulava porteira, uma outra sobre o caboclo que botava um vidro no chão e ouvia onde todo mundo estava, aquela do caboclo que sumia no Carnaval e depois aparecia, um outro que guerreava sozinho contra outros dez caboclos... Então, minha vontade também era transpor essas histórias do passado para hoje em dia e fazer o filme com a pegada das questões sobrenaturais. Mostramos a coisa do ritual do caboclo de lança em contraponto ao culto do pastor.
Tita. Imagem: Divulgação
CONTINENTE Falando em contraponto, Azougue Nazaré se estrutura também a partir de vários embates. Existe a dualidade de como a cultura popular se organiza para manter suas tradições, e o filme mostra isso com os desafios dos mestres que vão respondendo às rimas dos outros pelo WhatsApp, um aspecto que mostramos na Continente de setembro de 2017, quando buscamos falar sobre a cultura popular na contemporaneidade. E também existe a dualidade entre religião e cultura, como se uma tivesse que anular a outra, em especial quando o personagem do pastor diz que para se atingir o reino de Deus, é preciso expulsar o demônio que está no maracatu.
TIAGO MELO Sobre esses embates, algo que mais se destaca, e que surge em perguntas em todos os países aos quais o filme vai, é essa questão sobre religião e cultura. Eu tinha um desejo de fazer a crítica, que não é uma crítica à religião evangélica, nem aos evangélicos em si, mas ao intuito de dominação de algumas igrejas e lideres neopentecostais. Essa pluralidade toda do Brasil não pode ser reduzida a uma só verdade, a uma verdade absoluta, que começa com essa conversa em defesa da família tradicional brasileira. A meu ver, a tradicional família brasileira são os índios, pois a sociedade indígena é muito igualitária, que não tem nada a ver com isso que estão pregando. Um outro aspecto é que a cultura não pode ser anulada pela religião. O maracatu é uma arte de resistência, está aí há muitos anos e não pode ser enquadrada ou liquidada por um pensamento midiático. Estou sempre pensando nisso: como podemos abrir o olho para o que está acontecendo. Isso é um caso de intolerância religiosa também, sabe? A negação do maracatu. O maracatu vem de uma religião de matriz africana, então quando a igreja ou alguém ligado a ela diz que o maracatu é do demônio, não é só o maracatu, são todas as religiões africadas, todos os mitos e reis e rainhas, ou seja, algo muito mais sério do que apenas uma dança ou folclore. A cada dia, sinto que preciso me posicionar, tanto para que o filme não vire um ataque aos evangélicos, como para que justamente os evangélicos venham ver o filme, e não decidam repudiá-lo como se fosse uma coisa do demônio.
CONTINENTE O filme fala de intolerância, do discurso de ódio proferido por líderes religiosos, algo que está completamente em consonância com o que estamos vendo agora nessa campanha presidencial, quando um candidato é apoiado por um pastor que colocou todo seu patrimônio midiático e religioso a serviço dessa candidatura que profere um discurso de ódio muito parecido com o que fala o pastor do seu filme.
TIAGO MELO Em vários debates, no mundo inteiro, me perguntaram se Nazaré da Mata era assim, se tinha uma guerra entre o maracatu e os religiosos. Sempre respondi que não, que se tratava de uma ficção, e por isso todas aquelas relações estão potencializadas, mas a verdade é que não vejo isso como algo impossível de acontecer, sabe? A quantidade de casos que já vimos, linchamento coletivo, destruição de terreiros, tanta coisa que surgiu da internet e se tornou uma possibilidade de matar alguém, sem que essa pessoa tenha culpa ou a garantia de defesa. Eu tentei falar disso no Azougue. Em Nazaré, existem casos que pregam justamente o contrário, são pastores que apoiam o maracatu e defendem a cultura popular. No filme, deixo claro que isso não é uma leitura geral da religião, até porque a religião evangélica tem várias dissidências, muitas linhas. A crítica que o filme faz é a crítica aos falsos profetas, aos líderes que, mesmo se Jesus voltasse, condenariam Jesus como ele foi condenado, soltariam Barrabás e matariam o filho de Deus. Não vejo nenhum ensinamento de Cristo que tenha base para essa cultura de ódio, para esse pensamento de arma, de violência, muito pelo contrário: o que ele prega é o amor mesmo. E a cultura é tão mais forte, tão resistente, que, independente de qualquer pressão religiosa, ela seguirá viva, resistindo no tempo. É como diz um personagem do filme: “a gente é filho de Deus também, não é por estar no maracatu que a gente é filho do diabo”. Precisamos louvar a diversidade, a pluralidade, a aceitação das diferenças e talvez aí seja um dos momentos piores do Brasil, com esse discurso de intolerância e de ódio, mas que precisamos e vamos combater de alguma forma.
CONTINENTE Seu filme passou em janeiro, em Rotterdam, e só agora, em outubro, estreou no Brasil, na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Muita coisa transcorreu nesses nove meses, mas talvez estejamos prestes a parir um país pior após essa gestação. Como vê Azougue Nazaré em relação ao Brasil de agora?
TIAGO MELO O Brasil tem se atolado, se enfiado em um buraco cada vez mais fundo. Começou com a barbárie do assassinato de Marielle Franco, continuou com a prisão arbitrária do ex-presidente Lula e agora está nesse momento de aceitação de discursos de ódio desse candidato a presidente. De janeiro para cá, pioramos muito e vejo que o discurso do filme se mantém vivo – de como temos que sempre lutar contra o ódio e pregar o amor. Acho que esse é o debate que precisamos fortalecer, porque é justamente sobre uma intolerância que não cabe no Brasil. No filme, vejo o pastor, com seu discurso intolerante, como uma grande vítima, alguém que está tentando buscar seu espaço e não encontra, alguém sendo conduzido por um outro líder que prega esse ódio. Existem muitas vítimas nessa história, que imagino que, lá na frente, vão perceber que foram pelo caminho errado.
CONTINENTE E no meio desse redemoinho todo, quando você pretende levar o filme para Nazaré da Mata?
TIAGO MELO Quando chegar lá, aí sim, vai ser o momento mais importante, para mim, como diretor. É que existem certos protocolos que temos que seguir, sabe? Não poderíamos ter passado em Nazaré da Mata antes porque não seria mais inédito no mundo e aí não poderia ter circulado tanto em festivais estrangeiros a partir da primeira exibição em Rotterdam. Depois, não poderia ter passado lá antes de exibir na Mostra. E eu não quero passar o filme escondido. Tenho explicado a todo mundo isso que estamos todos muito ansiosos, mas que essa hora está chegando e estamos organizando bem tudo com relação à data para que o maior número possível de pessoas da equipe esteja lá. Vai ser a sessão mais importante de Azougue Nazaré. O filme foi feito com inspiração na garra das pessoas do maracatu, é um filme de resistência, de guerreiro. É como um maracatu: foi feito a muitas mãos, muita gente acreditou, embarcou nessa história e trabalhou pesado para que tudo pudesse acontecer. Toda essa comunhão vai ser celebrada quando o filme passar em Nazaré da Mata. Vai ser engraçado, porque aí então o filme já vai ter passado por quase meio mundo inteiro, fazendo um caminho contraditório, como um filho que decide dar a volta ao mundo e depois retorna para casa.
LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica da Continente.
*A jornalista viajou a convite da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.