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Reportagem

Cultura popular

Assentada no presente, e não no passado, como muito se acredita, a criação de matriz tradicional se mantém como resistência de um povo que, nas suas dinâmicas, alia com precisão vida e arte

TEXTO Luciana Veras

01 de Setembro de 2017

Há mais de um século começou-se a dançar o samba de véio na Ilha do Massangano, em Petrolina/PE

Há mais de um século começou-se a dançar o samba de véio na Ilha do Massangano, em Petrolina/PE

Fotos Hélia Scheppa

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 201 | setembro 2017]

PETROLINA,
SERTÃO DO SÃO FRANCISCO
“Essa música vem da onde?”, irrompe a pergunta numa casa na ilha que fica no meio do Rio São Francisco, em Petrolina. A dona da residência se chama Amélia Oliveira da Silva, dona Amélia para a maioria dos cerca de mil habitantes daquele pedaço de terra de cinco quilômetros quadrados, uma divisa fluvial entre Pernambuco e Bahia. É ela mesma quem se encarrega de responder – “Daqui mesmo, não vem de lugar nenhum, não, filha” – com um sorriso no rosto e a vitalidade no olhar que dribla seus 81 anos. Amélia, “a pretinha da Ilha do Massangano”, como se descreve, é uma das líderes do Samba de Véio. E o Samba de Véio é o símbolo massangano e petrolinense por excelência.

A Ilha do Massangano parece obedecer a uma outra temporalidade: suas ruas são de barro, as pessoas circulam a pé, só há atendimento médico uma vez por mês e a chegada ao local se dá por meio de uma travessia de balsa curta e barata – R$ 1,50 por cinco minutos de trajeto –, que funciona entre 7h e 19h. Lá, ainda se cultivam frutas e hortaliças para consumo próprio e para venda nas feiras de Petrolina ou de Juazeiro. As crianças brincam no meio da rua e, atentas numa tarde ensolarada de julho, cercam Amélia, Chiquinha e Félix Ubaldo, Francisca Claro, Corina de Jesus, Eva Oliveira, Creusa Nogueira, Ailton Oliveira e Derivaldo do Nascimento, quando estes começam a dançar, tocar e cantar.

Ter crianças ao redor daquele rito musical é um sinal de atualização, conforme a história que todos narram. Há mais de 100 anos, o samba começou a ser dançado na ilha – só “samba”, sem o véio, que seria acrescido já nos anos 2000, em uma esperta jogada de marketing.“A gente não acompanhava o samba naquela época. Além de ser tarde, criança não podia acompanhar. Na hora em que os adultos saíam, as crianças ficavam em casa. Mas meu avô me ensinava a sambar”, conta Francisca Claro, Chica, para todos. Um dos precursores do folguedo foi Manoel de Oliveira, pai de Amélia e barqueiro que ganhava a vida transportando mercadorias entre as cidades ribeirinhas. Certa feita, aportou no Massangano e por lá ficou. Com ele, veio a brincadeira que durava o mês de janeiro inteiro. 

“O samba começava no dia 1º de janeiro e ia de casa em casa. Dia sim, dia não. Às vezes, começava até no dia 31 de dezembro, para amanhecer no dia 1º. Mas, como não tinha energia e não tinha nada, quando o sol se punha, já se pensava que era meia-noite”, lembra Chiquinha Ubaldo. “Era a festividade do Dia de Reis. O batuque, a gente tocava com o tamborete, que é feito com couro de boi ou de bode. Quando esfria, tem que botar no fogo para esquentar. E com ele a gente sai para zoar. A brincadeira é sempre de noite. A turma sai e brinca o samba pela rua, indo de casa em casa. Se eu chego na sua casa, canto o Reis lá fora e, quando acabo de cantar, se você quiser que eu fique, diz ‘pode entrar’; se não quiser, diz assim ‘só quero o Reis’ e o samba vai para a outra casa”, detalha dona Amélia.

A cantiga de Reis abre o único registro fonográfico conhecido dessa manifestação sertaneja, um CD que poucos daqueles brincantes têm para ouvir, dar ou vender. Seus versos dizem: “A partir do Oriente, a chegada dos três reis (…), o primeiro trouxe ouro, o segundo trouxe incenso, o terceiro trouxe mirra (…) quem quiser saber quem é, abra a porta e saia fora”. Pois em janeiro – todos contam – as noites na Ilha do Massangano se preenchem com o ritual de ancestralidade: a partir da formação rítmica composta por tamborete (um banco de madeira que ganha outro sentido), timbal, pandeiro, triângulo e cavaquinho, os cânticos e danças se sucedem, com destaque para a “imbigada”, o passo em que as barrigas se tocam no umbigo, e para o sacolejo de uma das dançarinas com uma garrafa na cabeça.

Dona Amélia integra o grupo Samba de Véio

No resto do ano, para aquelas pessoas, em sua maioria na faixa etária do que se convencionou chamar de terceira idade, a reunião para o congraçamento que ora denominam “samba” e “reis”, ora “reisado” ou “batuque”, é esporádica, mas sempre bem-vinda. Na Ilha do Massangano, é um convescote noturno, “pois todo mundo trabalha e só chega no fim da tarde”, diz Eva, sobrinha de Amélia e uma das dançarinas que cadencia com precisão o trupé, ou as passadas dos pés descalços na areia, com o toque dos instrumentos. Fora dela, podem subir até em palcos, desde que Raimunda Sol Posto, moradora local, ex-vereadora de Petrolina e responsável por cunhar o nome Samba de Véio, ou outro produtor cultural, tenha a ideia de levá-los para se apresentar em outras cidades. Já foram ao Recife, Garanhuns, Floresta, Paulo Afonso e Salvador. Querem ir ao Rio de Janeiro, mas dona Amélia tem medo de avião. 

Entre os integrantes, há quem se queixe de dores nos joelhos, há quem acredite que o samba morrerá logo, há quem defenda que a tradição nunca se extinguirá e há quem veja naquilo que alcançam, ao se juntar, o legado concreto dos antepassados negros e indígenas. “Antes, tudo aqui era mata, não tinha essa vila. Aqui na ilha viviam os quilombolas refugiados, os índios. A mãe do meu avó era índia brava, foi pegada de cachorro na mata. Nós somos de negro, de índio, de tudo”, sintetiza Chica Claro. 

Para todos os integrantes do Samba de Véio, manter acesa aquela liturgia e assim legitimar o ato de sair de casa para cantar e dançar não é um costume passível de questionamentos ou revisões. Não se trata de um capricho, tampouco de uma necessidade financeira – muito embora apreciem, claro, quaisquer retornos obtidos, sejam monetários, sejam de reconhecimento para além das vias de barro da ilha. Participar do samba é um chamado ao qual não se opõem. Nunca vão se opor, na verdade. Não é o que fazem, e, sim, o que eles são. Estar no samba transcende a compreensão de quem olha para as tradições da cultura popular como mera repetição ou algo fadado a desaparecer. 

Naquela tarde de um sábado, desafiando a própria convenção natural de que só concretizam a brincadeira depois que o sol se põe, colocaram suas vestes coloridas, percorreram quilômetros, alguns a pé, e vieram mostrar à Continente o que, afinal, era essa música, esse brinquedo, essa explosão. Ao chegar na garupa de uma moto, celebrada pelos seus pares assim que a viram saltar, Corina de Jesus resumiu: “Foi o menino que estava lá na venda que me avisou. Danço há muito tempo, nem sei quando foi que comecei. Só sei que, se hoje era pra sambar, eu tinha que vir”.

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Em Pernambuco, no ano de 2017, a cultura popular se posiciona em fricção – ora de embate, ora de cumplicidade – com a contemporaneidade. Não está, contudo, em fogo morto, estanque ou desmobilizada, e prossegue como uma declaração genuína sobre a arte que dela deriva e, em especial, sobre aqueles que se dedicam a cultivá-la. “Essas manifestações se reproduzem numa fronteira nítida entre vida e arte. A cultura popular só se mantém de longa duração, de profundidade temporal, porque ela diz algo sobre quem são essas pessoas. Fala delas, diz como são suas vidas, expressa esses valores, um tipo de moralidade e um lugar no mundo. É um elemento de identidade: uma maneira de dizer quem eles são em contraposição a quem são os outros. E só se mantém no tempo porque constantemente se renova por quem a faz e é compreendida por quem decifra seus códigos”, pontua a antropóloga Lady Selma Albernaz, professora do Departamento de Antropologia e Museologia da UFPE. 

No mundo fugaz, folguedos como cavalo-marinho, caboclinho, maracatu rural ou de baque solto, boi, ursos, maracatu de baque virado, reisado, pastoril, coco em suas diversas ramificações, ciranda ou quadrilhas juninas e o artesanato popular sobrevivem por sua pujança artística e por serem marcos identitários. Marcos de Nuca, Luiz Antônio e Cida Lima, por exemplo, são mais do que artesãos a expor na Alameda dos Mestres da Feira Nacional de Negócios do Artesanato – Fenearte; são a identidade de Tracunhaém, Caruaru e Belo Jardim, são o aprendizado familiar que carregam e são a revitalização do barro. 

Marcos de Nuca dá continuidade à obra do pai

E são persistentes. Não se envergaram à sentença de um material arcaico nem ergueram, de sua arte, uma prisão para si. Marcos, primogênito de Manoel “Nuca” Borges, falecido em 2014, adicionou elementos seus aos leões de cerâmica que notabilizaram seu pai. Luiz Antônio, há quase seis décadas na ativa, fundou uma associação no Alto do Moura, lugar que ajudou a colocar no mapa estadual do artesanato, e hoje mostra suas peças icônicas, que representam as profissões, ao lado das criações do filho Leonel. Cida, por sua vez, mobiliza esforços para, diante de um forno por oito horas diárias, produzir 500 peças para uma edição da feira. A 18ª Fenearte, transcorrida em julho no Centro de Convenções, no Recife, movimentou entre R$ 40 milhões e R$ 42 milhões ao longo de 11 dias, segundo o governo de Pernambuco. 

Trata-se de uma vitrine de impacto positivo para os artesãos e uma prova de que, além de elemento de identidade, a cultura popular é um item consumível. Na engrenagem capitalista, é mercadoria de alto quilate. Mas há algo nesses artesãos que os une aos brincantes, aos entusiastas, aos que pelejam na difusão e aos que não se apartam da cultura popular. Juntos, são a expressão do que Lady Selma Albernaz pensa como “uma cultura subalterna em uma sociedade estratificada em classes sociais”. Compõem a cultura do povo, dos trabalhadores, que seguem a lutar. 

“A cultura popular é uma cultura de resistência, sobretudo. Extremamente festiva, mas de resistência em vários aspectos – sociais, econômicos, afetivos, lúdicos, éticos. A resistência se dá também no modo de chamar. Convencionou-se chamar esses grupos de cultura popular, mas, na verdade, popular é o que está tocando no rádio, é Wesley Safadão, é o brega que se ouve em todo canto”, observa a historiadora Alexandra de Lima Cavalcanti, que entre 2009 e 2013 respondeu pela Coordenadoria de Cultura Popular da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe. 

A tradição, oriunda das comunidades, era resiliente por princípio. “Há uma dificuldade grande de ter registro do começo das manifestações, dos seus percursos, porque elas não ‘existiam’ há 100 ou 200 anos. Não eram consideradas. É possível encontrar algum vestígio na literatura e, muitas vezes, em denúncias policiais. A principal fonte de pesquisa documental dos grupos nos séculos XVIII e XIX é a denúncia policial. Pode procurar registros de grupos que causavam algazarra e baderna; eram sempre tachados dessa forma. Eram grupos marginalizados e perseguidos pelas autoridades ou por líderes religiosos. No Carnaval, era permitido que brincassem quase como se fosse um favor – ‘ah, isso não é cultura, é só uma brincadeira’. Daí o Carnaval ter se tornado a festa da cultura popular por excelência”, acrescenta a historiadora.

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Foi o signo da resistência do Samba de Véio, por exemplo, que capturou o olhar do pesquisador e jornalista Jota Menezes. “Como puderam resistir durante mais de 100 anos, e garantir que uma manifestação cultural tão influente não sucumbisse diante de tanta opressão capitalista? A preservação da cultura é um ato de resistência e a festa pode ser de transgressão”, diz Jota, que dedicou seu mestrado na Universidade Estadual da Bahia aos aguerridos petrolinenses. 

Transgressão, nesse caso, significa não adotar os valores e papéis atribuídos pelas convenções sociais e culturais. “Eles assumiram a noção de protagonismo e levam isso adiante. Para mim, é até mais importante do que manter aquela cultura. Em Petrolina, se você perguntar qual é a manifestação mais forte, a resposta vai ser Samba de Véio. E não fica restrito à ilha. O Teatro do Sesc foi batizado com o nome de dona Amélia, com ela ainda viva. Estamos falando de uma mulher negra, que mora em uma ilha onde, séculos atrás, indígenas e escravos se refugiavam. Isso é significativo em uma sociedade tradicionalista, governada por uma oligarquia que se reveza há mais de 60 anos no poder”, sublinha. 

Tal constatação se torna ainda mais relevante, quando se pensa que a ideia de uma cultura popular nasce com a modernidade e, desde sua gênese, reflete a divisão social. “A divisão de uma cultura erudita e uma outra, de massa, é uma classificação histórica. Acontece, segundo o historiador Peter Burke, a partir da era moderna. Na Idade Média, a estratificação era pelo sangue, dividindo a sociedade entre nobreza e camponeses. Mas, quando um nobre sentava-se à mesa com um camponês, comiam os dois do mesmo modo. É a ascensão da burguesia que quebra essa questão do sangue para demarcar a posição social dos indivíduos na sociedade. A cultura passa a ser um elemento de distinção. Quando se começa a estudar isso, há uma ideia de ir em busca do que restou dessa cultura popular, antes que ela desaparecesse dentro de uma cultura nova que se pautava pela racionalidade do conhecimento científico e que fazia uma crítica àquilo que era considerado inverídico, fantasioso e imaginativo”, pontua a antropóloga Lady Selma Albernaz. 

Ela sustenta que estabelecer uma cultura popular servia ao propósito de delimitar os territórios nacionais – “precisava-se da alma do povo para dar substância à nação e fazer a diferenciação entre as nações” –, mas que, para tanto, surgia a primeira tentativa de enquadrá-la, limpando “suas impurezas, seus excessos” para melhor traduzir a alma autóctone. É quase como se, para celebrá-la, fosse necessário controlar o que a antropóloga e professora da UFPE rotula como “elementos estéticos obscenos e indecentes” e assim proceder a uma “limpeza de sua profusão simbólica”. “A cultura popular enaltece o nascimento, a vida e a morte, trata da nossa perenidade e de um corpo em contato com mundo. Quebra com o ideal científico baseado em Descartes, da separação de corpo e mente, no qual esse corpo era algo a ser visto pela biologia para compreender o seu funcionamento e a parte mental tinha que ser desconectada para exprimir a mais completa e cristalina racionalidade. Tudo que a cultura popular fazia contrastava com essa lógica: era indecente, indecorosa, com ênfase na sexualidade, na escatologia, em um corpo impuro e contaminado pelo mundo, que os folguedos contrapunham aos intelectuais da modernidade”, anota Lady Selma Albernaz.

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A dificuldade dos intelectuais em, séculos atrás, lidar com tal corporalidade não foi dissolvida por completo. Basta ver o dissenso acerca das atualizações das quadrilhas juninas em Pernambuco. “As quadrilhas estilizadas eram motivo de embate entre folcloristas e estudiosos como Mário Souto Maior e Roberto Benjamin, que defendiam um controle sobre a estética das quadrilhas consideradas tradicionais. O que não seguisse isso, deveria mudar de nome”, recorda Lady Selma Albernaz. 

A Quadrilha Junina Tradição, fundada em 2001 no Morro da Conceição, na zona norte do Recife, seria rechaçada pelo cânone folclórico. Em 16 anos, firmou-se como um espaço de “desconstrução da noção biológica de macho e fêmea”, nas palavras de Marcone Costa, seu diretor de articulação política, e uma plataforma para “discutir identidade de gênero e festejar as diversas formas de expressá-lo”. 



Quadrilhas contemporâneas motivam debates entre estudiosos

No São João deste ano, havia 17 componentes que borravam as fronteiras entre homens e mulheres. “Teve o bissexual que dançou de dama, a travesti que dançou de dama, o transexual que dançou de dama… Quebramos com essa regra de que a dama tem que ter uma vagina e o cavalheiro ser um rapaz com pênis. Tratamos isso naturalmente, deixando a pessoa escolher o que ela quer ser, mas sem construir um processo caricato”, expõe Marcone. Em 2013, sete meses antes de a emissora de televisão mais popular do país exibir, pela primeira vez, um beijo entre dois homens no último capítulo da sua novela de horário nobre, a Tradição apostou em um casamento homoafetivo. “A mãe tinha uma didática masculina, levando o filho para a barraca do beijo para ele encontrar uma namorada, mas ele achava um namorado. Acreditamos que a brincadeira popular tem um papel na construção de uma consciência social, ainda mais nessa sociedade ainda conservadora”, complementa o diretor de articulação política da quadrilha de Casa Amarela.

Porém, no concurso das quadrilhas daquele ano, a Tradição ficou em segundo lugar. “Há quem diga que perdemos o primeiro lugar por conta do casamento e do beijo entre dois homens”, comenta Marcone Costa. Perde-se um título, ganha-se força na atualização de uma manifestação tão nordestina como as próprias composições de Luiz Gonzaga.

Em pesquisa proposta para o programa de pós-graduação em Direitos Humanos da UFPE, a mestranda Liana Queiroz mira na renovação que o embaralhamento entre as categorias de gênero e sexualidade traz para o folguedo. “Ao acompanhar o 32º Concurso de Quadrilhas do Recife, de 2016, percebi que em grande parte das quadrilhas juninas do Recife desenhava-se uma multiplicidade de imagens identitárias, pessoas que não atendem a uma linguagem corporal previamente estabelecida. Naqueles corpos brincantes, identifiquei com maior frequência a existência de corporalidades dissidentes, que mobilizavam um processo de ressignificação de conteúdos simbólicos e de mudanças em elementos básicos do folguedo – casamento, coreografia, figurino, músicas, temas e marcação”, ressalta a pesquisadora, que vê as consequências mais importantes não somente nas estilizações dos espetáculos, mas também fora de cena. 

“A criação das caricatas (homens que se apresentavam em personagens femininas com performances exageradas), em 2000, pela Quadrilha Junina Lumiar, do Pina; a encenação de um casamento entre dois homens da Junina Tradição; a primeira noiva junina representada por uma travesti, na Quadrilha Junina Terror do Alto, ambos em 2013; e o protagonismo longevo de homossexuais de alguns grupos nos bastidores dos espetáculos (direção política, produção, figurinos, coreografia) apontam para a força das quadrilhas, que criam novos personagens, mudam os figurinos, incrementam as coreografias, teatralizam-se, territorializam-se e, mais importante, apresentam uma nova percepção do mundo”, condensa Liana.

Desestabilizar arranjos, resistir e se reinventar: em 2017, eis a cultura popular.

TRACUNHAÉM, 
ZONA DA MATA NORTE

Mestre Edmilson vendeu tudo o que tinha para criar o Maracatu Água Formosa

“Vendi duas casas, um terreno, acabei com os comércios todos que eu tinha, peguei um dinheiro numa conta velha no Banco do Brasil e gastei todinho para criar o maracatu. A mulher, quando soube, teve uma raiva tão grande, que pediu separação a mim”, conta Edmilson Honório da Silva, sem camuflar o sorriso, na sala de uma casa alugada por ele, por R$ 250 mensais, para funcionar como sede do Maracatu Águia Formosa. Corria o ano de 2002, quando ele fundou o maracatu. Não era sua primeira incursão nos folguedos – ele já havia brincado cavalo-marinho na Cidade Tabajara, com a família do mestre Manoel Salustiano, tinha passado 27 anos com a Ciranda Estrela, tocara em boi, pastoril e maracatu.

“Passei muito tempo em agremiação dos outros, em Carpina, Paudalho, Nazaré e Tracunhaém. Alguns, como Salu, souberam me abraçar. Durante muito tempo, ‘mestrei’ Piaba de Ouro, o maracatu dele. Mas outros não me abraçaram, então pensei ‘pra que ficar gastando no maracatu dos outros se posso fazer um pra mim?’”, completa Edmilson, conhecido como Boi Preto. Como tantos outros mestres e brincantes do maracatu de baque solto, sua lida era nos canaviais: ele foi cortador de cana, vigilante e, depois, chefe dos trabalhadores que as usinas contratavam por temporada. E, como tantos outros que o antecederam, traz no sangue, no código genético, talvez, uma das características que até hoje definem os mestres da cultura popular em Pernambuco: a abnegação.

Mestre Edmilson mora em uma casa que fica metros adiante da sede. Faz poucos meses que se decidiu por alocar todo o material pertencente ao maracatu em outro espaço que não a sua própria residência. A sede tem 45 “arrumações”, ou seja, 45 vestimentas completas. Vê-lo discorrer sobre o traje do caboclo de lança é uma aula de potente simplicidade: guiada (a lança, coberta por fitas); a matinada ou surrão (uma espécie de armadura com os chocalhos na ponta, que se veste como uma pesada mochila); o chapéu ou funil; o ceroulão feito uma calça; a “fofa”, uma bermuda com franja; a liga e ainda a camisa, meia, óculos, lenço, cravo; depois, a tinta para pintar o rosto. 

Em uma conta de aritmética básica, o valor de tudo contido naquela humilde construção supera, em mais de 10 vezes, o montante que o Águia Formosa recebe para desfilar no carnaval de Pernambuco – uma subvenção de R$ 11.000,00, repassada em duas parcelas, a segunda sempre é paga muitos meses após a folia momesca. “O valor não está no dinheiro, está na dedicação e no amor. Tem vezes que até agiota a gente tem que procurar”, resume o mestre. 

Outro aspecto do Águia Formosa que espelha os procedimentos de manutenção das tradições é o envolvimento familiar – no sentido mais amplo e contemporâneo, a englobar não apenas parentescos de sangue, mas a fibra que se tece a partir daquela convivência intensa e, em muitos casos, inescapável. Maria da Conceição Vitorino, atual esposa de Edmilson, é a dama do paço do Águia Formosa. É ela quem costura as golas do complexo traje dos caboclos de lança, é ela a mãe de santo do maracatu, que, com suas raízes do candomblé, faz o “calçamento” dos integrantes e fantasias – a proteção essencial para se energizar, e energizar a própria agremiação, antes de datas importantes como o Carnaval. 

Sua filha, Sandra, ajuda na confecção das fantasias; seu filho, Alexsandro, é o mestre caboclo do maracatu. José Pedro da Silva, o Zé Pretinho, amigo e brincante de longa data, é quem toca bombinho – instrumento que, ao lado do tarol, da cuíca, do gonguê, do mineiro e do naipe de metais, compõe o bailado do baque solto. Luiz Brás da Silva, que durante “46 janeiros cortou cana”, já não dança, mas integra a diretoria; e as crianças vizinhas na Rua Quatro, na Cohab, no centro de Tracunhaém, desfilam na ala das baianas. 

Ninguém obrigou Tamires da Silva, sete, e Stefany Heloise Araújo, 11, a dançar. Nem as cooptou para participar do “brinquedo”, como os mais velhos falam. “Eu gosto de dançar e acho bonita a roupa da baiana”, diz Tamires. “Sempre quis dançar. Perguntei à minha mãe se podia e ela deixou”, revela Stefany. Elas talvez nem saibam, mas integram a força que impulsionou o Águia Formosa a participar do Festival Mundial de Artes Negras, em 2010, no Senegal, e também simbolizam os deslocamentos que afetaram o folguedo. 

“Antigamente, no maracatu, não existia nem brincava mulher. Era tudo homem. Era tudo muito violento, porque sempre teve rixa e rivalidade. Mas, depois, tudo mudou, e hoje tem mulher que canta, dança e brinca de caboclo também”, lembra dona Maria. Quando o Águia Formosa desfila, metade dos seus 80 componentes é mulher. Outro ponto relevante: homens bordam e costuram. “Tem menino que vem bordar comigo, sim. O maracatu serve para tirar os jovens da violência, para colocar outra ocupação na cabeça deles”, ilustra a mãe de santo do Águia Formosa. 

Um dos integrantes do Águia Formosa é o cantor e compositor Maciel Salu, um dos 15 filhos do mestre Salustiano. Salu, o pai, nascido em Aliança, perto de Tracunhaém, foi amigo de Boi Preto “toda a vida”, como ele diz. A ligação de Maciel com o Águia Formosa, portanto, é umbilical. “Existem alguns maracatus, como o Águia e o Piaba de Ouro, que todo ano eu ajudo com dinheiro, projeto, dedicação e tempo. Maracatu é minha vida. Eu entendo como um mestre como Edmilson dedica seu dinheiro, sua casa, seu comércio para investir em algo a quem muita gente ainda não dá valor. Porque todo mundo quer usar a imagem dos mestres da cultura popular, mas não valoriza como deveria valorizar. Duvido que, se você for em uma escola, as crianças vão saber quem é Capiba, Nelson Ferreira, Dominguinhos… Talvez um Luiz Gonzaga, porque se toca muito. Mas, e Edmilson? Como as pessoas vão conhecê-lo, se não se fomentar, nas escolas, o interesse pelo maracatu?”, indaga Maciel.



Maciel Salu milita na cultura popular como artista e produtor

Ele e sua esposa, a produtora Rute Pajeú, sócios em uma empresa de comunicação e cultura, dedicam-se a elaborar projetos e submetê-los a editais para assegurar que o Águia Formosa siga a voar. “Manter a tradição de qualquer folguedo popular não é fácil financeiramente, todo mundo sabe. Há uma indiferença por parte dos governos. O político só vem atrás dos mestres da cultura popular quando está precisando se eleger. Minha faculdade de vida foram o maracatu e o cavalo-marinho, são minha raiz e minha fonte. Se não mantiver, tudo vai se perdendo”, reflete Maciel.

No Projeto Azougue, aprovado em algumas edições recentes do edital do fomento do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura, ele e Rute idealizaram uma série de oficinas para fortalecer o maracatu através do repasse de saberes. “Fizemos oficinas de bordado, percussão, dança, encontro com mestres, trouxemos gente de outros maracatus para um diálogo com o Águia Formosa. Colocamos os mais antigos para ensinar aos jovens a tocar maracatu, a aprender como rimar para se tornar um mestre. Nossa proposta é um intercâmbio para valorizar os veteranos e despertar o interesse dos jovens. Não queremos os projetos que incentivem a festa pela festa. Porque, quando acaba, o que fica?”, pondera Rute.

Mestre Edmilson e Maciel Salu assumem, cada qual em sua ribalta específica, funções preponderantes para que o Águia Formosa atinja o esplendor de debutante que seus 15 anos de fundação aguardam. Se Boi Preto retrata o saber ancestral, não o difunde de maneira vedada ao novo – divide funções, abre o maracatu às mulheres, incita a juventude local a participar. Maciel, por sua vez, participa de 10 grupos de maracatu no aplicativo WhatsApp, compõe loas por mensagens de áudio e desenvolve estratégias para que os folguedos em que brincou durante suas quatro décadas de vida não desapareçam.

É esta necessidade de estar permeável à novidade, sob o risco de se fossilizar e deixar de existir, que chama a atenção da pesquisadora, jornalista e editora Maria Alice Amorim. Durante 10 anos, ela morou em Nazaré, cidade-berço dos maracatus, na mesma Zona da Mata Norte de Tracunhaém. Frequentou sambadas, fundou agremiações e teve a chance de aprofundar os estudos, quando fez parte da equipe que concebeu o dossiê para embasar o pleito estadual de obter o registro de patrimônio imaterial via Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan. Ao todo, Pernambuco submeteu e aprovou sete processos no Inventário Nacional de Referências Culturais/INRC: a Feira de Caruaru, o frevo, a roda de capoeira, o ofício do mestre de capoeira, os maracatus-nação e de baque solto, o cavalo-marinho, o mamulengo e o caboclinho.

“Quando você vai falar sobre os aspectos de salvaguarda, tem que obrigatoriamente destacar o modo como esses grupos se adaptam às novas demandas, a essas novas maneiras de se comunicar, produzir e interagir. Os maracatus, por exemplo, fizeram uma articulação importante para se contrapor à lei do silêncio que existia, que interferia diretamente na dinâmica das sambadas e dos ensaios. Hoje, existe uma associação que se mantém forte porque também aprendeu a se comunicar de maneira mais ágil. É interessante constatar que, desde sempre, havia um gravador com fita- cassete nos ensaios dos maracatus. Ter os suportes tecnológicos para registro de memória sempre existiu. Hoje, existem as disputas no WhatsApp. Há, portanto, uma vitalidade que é indiscutível”, assinala Maria Alice.

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A Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco possui cerca de 120 agremiações associadas e tem como presidente um outro Salustiano. Manoelzinho Salu, o mais velho dos herdeiros, prefere ser creditado apenas como artesão de adereços carnavalescos, muito embora seja um articulador. Para ele, “cultura popular não se ensina nas universidades”: “É um patrimônio de família, de amigos. Nasce nos terreiros, e não dentro de uma faculdade. Se o terreiro estiver funcionando, você faz novos mestres”. Na Cidade Tabajara, onde funciona o Ilumiara Zumbi e a Casa da Rabeca, criados por mestre Salu antes de seu falecimento, em 2008, não há como a doutrinação ser diferente. “Quando os meninos nascem, já vão entrando naturalmente no cavalo-marinho, no maracatu, no forró… Antes mesmo de pegar numa mamadeira, já pegam numa rabeca”, brinca. 

Ele advoga que o poder público precisa atuar com mais ênfase no campo da preservação do legado dos mestres, para depois atingir a juventude. “Ter editais é um avanço, algo democrático, mas a maioria desses mestres é analfabeta. Ter o registro de patrimônio vivo é pouco”, discorre. O registro de Patrimônio Vivo em Pernambuco foi instituído pela Lei 12.196/2002. Ao todo, 51 artistas, artesãos, mestres de saberes imateriais e grupos culturais já foram agraciados com a comenda, que na prática se reverte em uma pensão vitalícia custeada pelo estado – R$ 3,2 mil para agremiações, R$ 1,6 mil para pessoa física.

Nuca de Tracunhaém foi eleito patrimônio vivo em 2005. Se, por um lado, o reconhecimento alegrou o artesão, por outro, mais de uma década depois, seu filho se esforça para carregar o nome e a excelência no trato com o barro e despertar o zelo com a herança em toda a família. “Meu pai ensinou todo mundo a mexer no barro. Como minha mãe era artesã também, todo mundo aqui sabe modelar, sabe colocar um leão desses no forno. Acho que esse saber tem que ficar na família. Acredito que ele gostaria de ver seu estilo, sua arte, feita por nós mesmos. Meu filho, de vez em quando, faz um leão, mas é só de vez em quando…”, comenta Marcos de Nuca, que, sem ter a certeza de que viveria do artesanato, prestou concurso para a polícia militar – hoje, é sargento da PM. 

A ameaça de não conseguir subsistir da própria arte é um elemento que Manoelzinho Salu considera como fator da pouca inserção de cultura popular entre os jovens: “Se eu sou um mestre, moro no interior, brinco meu reisado tirando do meu bolso, do dinheiro da feira pra brincar, você acha que meu filho vai querer passar fome pra brincar? Como essa criança vai querer participar, se está vendo que o pai ou avô deixa de comprar uma comida melhor para gastar em lantejoulas? Os jovens estão fugindo porque não têm acesso. Veja o que está acontecendo na Mata Sul. Os mestres ficam velhos, não tem quem faça, os brinquedos morrem. É por isso que é preciso investir nos terreiros. É lá que os jovens vão aprender”.

O músico Helder Vasconcelos, ex-integrante do grupo Mestre Ambrósio, fez parte de uma geração formada no terreiro da família Salustiano. “Brinco maracatu com eles há 25 anos e também circulo e pratico meu cavalo-marinho na Zona da Mata, com os mestres Biu Alexandre, Luiz Paixão, Grimário e Nicinha, de Condado. Nunca me afastei dessa tradição. É uma prática, é minha escola. Minhas criações vão para outro lugar, mas fluem desse contexto, diretamente ligadas à formação em cavalo-marinho e maracatu rural. Onde quer que eu circule, isso tudo vai estar presente. Se eu tivesse me formado em Paris VII, seria diferente”, valoriza o músico, que todo ano sai de “caboclo de pena” no maracatu e participa do cavalo-marinho tocando no “banco” – em que se concentram os músicos do folguedo. 

A herança da cultura popular se faz evidente, também, no trabalho do multiartista Antônio Carlos Nóbrega, radicado há 34 anos em São Paulo, onde fundou o Instituto Brincante. Peculiarmente, Nóbrega afirma que nunca foi um “brincante”, e, sim, um curioso, que hoje reconfigura os elementos dos folguedos estudados desde o início dos anos 1970. “A cultura popular representa uma segunda linha de cultura no Brasil, de feição popular, com prevalência de elementos negros, índios e de classes subalternas portuguesas. Ela não foi formalizada ainda e não consegue atrair tanta atenção por várias razões, entre elas, e talvez principalmente, porque vemos com maus olhos tudo que vem do povo”, aponta. 

Uma das chaves para assegurar a sobrevivência seria, justamente, uma maior formalização. Contrariando o que Manoelzinho Salu defende, talvez a cultura popular forjasse um novo panorama para si, se pudesse, sim, ser ensinada em uma universidade. “Posso, hoje, aprender muito sobre a capoeira porque já existem livros, mas o ensinamento de um cavalo-marinho, por exemplo, ou de várias representações simbólicas ainda não foi desenvolvido ao ponto de criar uma gramática”, anota Nóbrega, que busca fazer um “laboratório” para organizar as influências populares e criar algo que o possibilite se expressar de “maneira mais ampla, e não apenas local, regional ou restrita”. 

Seu trabalho, na sua visão, seria uma “tentativa de assimilar os folguedos e estudá-los dentro de um outro universo”. “Meu pensamento é fruto de um tripé em que o Brasil está num ponto imaginário cultural entre o Brasil popular e o Brasil ocidental e o europeu. Busco criar uma dinâmica de conversa entre esses três mundos. Alguns criadores que me ajudam são Villa-Lobos, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Pixinguinha, Chico Buarque, que procuraram juntar essas partes. Vou atrás de cantos, movimentos e formas poéticas, independentemente do contexto folclórico onde estão, para criar novas ligações simbólicas. Meu interesse não é de preservar como um museólogo, é de fazer florescer. Nesse sentido, penso que a cultura popular não se sustenta se não for devidamente entendida de maneira mais ampla. Ela degenera.”

***

A compreensão de Antônio Carlos Nóbrega encontra eco na atuação do poeta e cantador Adiel Luna. Não adianta apenas mirar o passado ou idealizar as manifestações como peças de museu; propor novos temas é imperativo. No seu trabalho com o grupo Coco Camará, busca compor letras que reflitam o que os jovens de hoje vivenciam e enveredar por timbres que conquistem o público. “Parece que o passado era mais moderno, pois os cocos eram mais elaborados, com versos longos. Era mais complicado. As pessoas gostam do disco que gravei com o Coco Camará, em 2010, mas cantam pouco. Cada música que cantei dura cerca de 10 minutos. Se quero que seja assimilado, posso fazê-lo mais simples e nele falar de tudo que os jovens vivem hoje. Não se trata de afastar a complexidade, mas propor versos mais curtos, de modo que as pessoas se familiarizem com a melodia e com o refrão”, vislumbra Adiel.


 
Poeta e cantador, Adiel Luna atua no grupo Camará

Atualizar o repertório é a maneira que ele encontra para modernizar o coco de roda sem, no entanto, desnudá-lo de suas características, que o fazem distinto na região metropolitana, em Arcoverde ou no Sertão. “Não adianta se apegar a um repertório centenário e reproduzi-lo feito radiola de ficha. Embora seja lindo e maravilhoso o retrato da ancestralidade, se quisermos que a identidade da brincadeira esteja viva, temos a obrigação de propor novos caminhos. E não adianta muito essa batalha toda, se a minha música não tiver inserção boa. Posso, sim, rever quais são minhas prioridades dentro dessa manifestação, porque quero que as pessoas consumam meu trabalho. Para o bem da cultura popular e do meu futuro, pois vivo disso, crio meus filhos, boto comida em casa. Quem entrar na minha barraca, tem que levar alguma coisa, por isso é que tenho vários trabalhos: canto toada, maracatu de baque solto, forró, coco de roda, samba rural e faço cordel. Tudo isso não pode ser isolado em um museu nem pode ser pensado como folclore. Não estou no mesmo lugar do Saci Pererê”, afirma Adiel.


A versatilidade é uma particularidade da cultura popular contemporânea em diversas frentes. Está, por exemplo, nos cordelistas que adotam a tecnologia para reinventar métrica e rima, na contramão da exigência de estudiosos mais conservadores. “Há quem não considere os cordéis feitos na internet como cordéis mesmo, pois não teriam a materialidade do papel. Mas, assim como na década de 1990 deu-se início à peleja virtual entre cantadores, o perfil do cordelista hoje, bem como do seu leitor, não é o mesmo de meio século atrás. As feiras de rua e o mercado público não têm mais a mesma força de ambiente de socialização e existem outros locais que as pessoas estão frequentando e onde estão interagindo, como a própria internet. A cibercultura é isso”, opina a pesquisadora Maria Alice Amorim.

GARANHUNS, 
AGRESTE MERIDIONAL 
“Estou tentando sobreviver da cultura popular, por isso estou com o maracatu e a ciranda. Quero deixar a vida de posto e me organizar melhor. Por enquanto, não dá”, comenta Lezildo José dos Santos, ex-frentista em Carpina, na Zona da Mata Norte, e mestre do maracatu Estrela Brilhante de Igarassu e da Ciranda Bela Rosa, de Nazaré. Foi como Mestre Bi, alcunha ganha nos campos de futebol, que ele subiu ao Palco da Cultura Popular Ariano Suassuna no início da noite de um sábado de julho, durante a 27ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns

A Ciranda Bela Rosa se inspira em José Galdino, repentista e cirandeiro, para criar “os ritmos próprios”, nas palavras do mestre. Há uma preocupação em falar do que se vive hoje, e não apenas de epopeias passadas que outrora inspiraram clássicos do cancioneiro. “Faço versos refletindo a nossa vida, os nossos acontecimentos, e crio uma letra para tocar num ritmo que seja nosso também”, detalha Bi, que deixava transparecer sentimentos conflitantes com relação à participação no festival. “A ciranda é um ritmo tradicional da Zona do Mata, que surgiu na senzala. Estar aqui é manter a cultura popular acesa, é saber que a ciranda vai se renovando. Porém, infelizmente, tem a burocracia da comprovação do cachê, que nos obriga a tocar num preço menor do que merece. Se não tiver festival, a gente toca no meio da rua. A ciranda não vai morrer”, apregoa.

A comprovação do cachê é uma prerrogativa da Lei 14.104/2010, que regulamenta a contratação artística pelo estado de Pernambuco. A legislação foi apelidada por Manoelzinho Salu de “lei da besta-fera”. Dois dos seus artigos incidem diretamente nas agremiações tradicionais: a impossibilidade de, em recebendo um cachê menor de R$ 8 mil, ser representando por uma pessoa jurídica (caso a agremiação não seja constituída formalmente), e a obrigatoriedade de comprovar o recebimento, pelo menos em três ocasiões anteriores, do mesmo cachê solicitado. Caso isso seja impossível, a agremiação recebe o cachê mínimo de R$ 2 mil. 

Atual presidente da Fundarpe, e ex-secretária de Cultura de Olinda, Márcia Souto explica que a proibição da representação por pessoa jurídica existe para evitar a conspícua figura do produtor/atravessador: “Tiramos de cena muitos exploradores que ganhavam em cima das agremiações mais humildes”. Ela reconhece a legitimidade das reclamações, porém prefere enaltecer os investimentos estaduais. “Mesmo com todas as dificuldades, Pernambuco é um estado que investe bastante na cultura popular. Todos os editais têm cota específica para cultura popular e temos buscado lhe dar ainda mais visibilidade, tanto no chão como no palco. Além disso, estamos elaborando um cadastro com a base de dados do Funcultura. A ideia é ter um mapa cultural com todas as manifestações e agremiações do estado, acessível a qualquer cidadão ou cidadã”, antecipa. 

Integrantes do Reisado Garanhuns lamentam desinteresse dos jovens

A atual coordenadora de Cultura Popular da Fundarpe, Teca Carlos, não sai do backstage no dia em que o 27º FIG recebe o grupo de xaxado Cabras de Lampião e o Reisado Garanhuns Cultural, que ela destaca como ícones de suas regiões. “Esse palco foi uma reivindicação de muitos anos de quem faz cultura popular em Pernambuco. É um palco que fica no centro da cidade, com uma altura baixa, como se estivéssemos num terreiro, com as atrações bem perto do público”. Ao todo, R$ 350 mil foram investidos para pagar cerca de 50 agremiações alocadas nesse palco durante a edição 2017 do festival. Dado comparativo: o cachê de um único show do Palco Dominguinhos, da cantora carioca Fernanda Abreu, foi de R$ 45 mil, segundo consta no Diário Oficial de Pernambuco de 26 de julho.

Luiz Gonzaga de Oliveira, o mestre, Lindinalva Kanashiro, a rainha, José Duda de Barros Filho, o rei, e os outros componentes do Reisado Garanhuns Cultural materializavam a intangibilidade da cultura popular. Desde 1955, Gonzaga dança esse folguedo de inspiração ibérica (explica Antônio Carlos Nóbrega: “Assim como o pastoril, o bumba meu boi e o cavalo-marinho, o reisado tem uma função devocional e se insere no mundo das comemorações natalinas e religiosas, para homenagear o nascimento do menino Deus e a chegada dos três Reis Magos). As fantasias costuradas com esmero, os passos ensaiados, a toada da viola a ecoar os mesmos acordes a cada cantiga: o que eles levavam ao palco não era um passatempo, mas uma expressão daquilo que os define.

“Os jovens não se interessam pelo reisado. Só quem dança é velho e quem está perto de morrer”, queixa-se a rainha Lindinalva. “Mas não podemos deixar de dançar. Garanhuns é a capital do reisado em Pernambuco. Enquanto eu estiver vivo e puder cantar e dançar, vou levar o reisado aonde for. Agora mesmo, estamos com um grupo para crianças, em uma escola”, emenda Gonzaga. Ele revela à Continente que, se o panorama atual não é o ideal, já é melhor do que antes: “Quando comecei, na zona rural de Garanhuns, não tinha energia, não tinha um palco desse, não tinha nada. Hoje, sai a notícia de que vamos nos apresentar e é uma divulgação boa”.

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Otimismo é outro elo entre os brincantes. Mas não um sentimento cego, é bom ressaltar, e, sim, uma crença de que há uma missão a ser cumprida. “Os movimentos de cultura popular já vêm resistindo há muitos anos. Vários focos desses movimentos são resistentes pela própria forma de ser: quilombolas, ciganos, cangaceiros, ribeirinhos, todos nós temos histórias de luta na nossa ancestralidade. Naturalmente, somos matriz de resistência e vamos continuar sendo”, coloca Cleo Maria, uma das fundadoras do Cabras de Lampião, de Serra Talhada, terra natal do cangaceiro Virgulino Ferreira dos Santos. 

O Cabras de Lampião existe há 22 anos e tem um arcabouço de infraestrutura que o diferencia de outras agremiações: possui CNPJ, é ponto de cultura pelo Ministério da Cultura (muito embora Cleo não saiba até quando, dado o desmonte institucional em vigor no país), mantém o Museu do Cangaço e uma escola de xaxado. “Desde o início, fazemos um trabalho de conscientização para o jovem entender que o xaxado é a identidade dele, é a nossa, é a do Nordeste. Temos que valorizar as nossas raízes e o interesse pela cultura, e não pelo forró de Safadão”, sustenta Cleo. 

Cabras de Lampião existe há 22 anos em Serra Talhada

No meio do show de Garanhuns, o vocalista do Cabras de Lampião, Karl Marx, anuncia que o DVD do grupo está à venda. Àquela altura, o público estava encantado pela apresentação – 15 pessoas no palco, entre músicos e dançarinos, com perfeita indumentária, domínio cênico e um discurso que mesclava gritos de guerra de Lampião e Maria Bonita e vaias e palavras de ordem contra o atual presidente do Brasil. Uma hora depois, Marx – filho mais velho de Cleo e irmão de Sandino Lamarca, batizados assim não por acaso – falava sobre resistência: “O grupo surgiu em um contexto nada favorável, no interior do Estado, onde tudo é mais difícil, ainda mais no Pajeú historicamente comandado por coronéis e grupos familiares. Manter por tanto tempo já é vitória”. 


Mãe e filho concordam na importância do acesso. “A tecnologia ajuda a divulgar, mas a mídia é omissa e covarde. Nossas músicas não são tocadas nas rádios, não há interesse em divulgar. Não dão opção ao povo de escolher”, lamenta Cleo. “Mestre Assisão já dizia que um povo sem cultura é povo sem identidade, sem pátria. Sabemos que as pessoas não têm acesso a essa história muito presente, que faz parte da nossa região. Não estamos falando de uma coisa antiga, de Roma de 10 mil anos atrás, mas da realidade do Nordeste”, endossa Karl Marx.

A sua lógica é coerente: como preferir Julio César a Lampião?

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A Fundarpe anuncia para este setembro o lançamento do edital do 3º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia. Criado para referendar grupos e mestres nas quatro regiões do estado – Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão, o prêmio entrega R$ 30 mil e R$ 15 mil, respectivamente, aos conjuntos e mestres laureados. Um dos vencedores da segunda edição foi o Samba de Véio, de Petrolina. É provável que Amélia, Chiquinha, Félix e Eva nem saibam disso. Se vierem receber, certamente virão de ônibus – que ao menos se apresentem. O frescor e o entusiasmo com que dançam hão de amealhar fãs na capital. 

Em novembro, a terceira edição do festival Arte na Usina, na Usina Santa Terezinha, em Água Preta, na Zona da Mata Sul, terá a participação do samba de matuto, de Tamandaré. Muitas das fontes ouvidas para esta reportagem citaram o grupo como exemplo de algo a ser preservado com urgência, ainda mais por se tratar de uma agremiação da Mata Sul, região em que as manifestações parecem mais adormecidas. 

Na primeira edição desse festival, o empresário Ricardo Pessoa de Queiroz Filho, idealizador do projeto de transformação da antiga usina açucareira de sua família em um catalisador cultural, teve que trazer um pastoril de Porto Calvo, em Alagoas, por não encontrar grupo algum do lado de cá da fronteira. Se o samba de matuto for ao festival, provará que não se acabou, como alguns, tristes, já lastimavam.

E, se for mesmo, atestará que não são apenas registros na tese de doutorado de Maria Alice Amorim ou lembranças entre os que já o viram. Como diz a antropóloga Lady Selma Albernaz, “a cultura popular tem seus próprios elementos de como a vida deve ser vivida, seus próprios preceitos de moralidade para se manter enquanto grupo, sua própria relação de pertencimento. As pessoas vivem aquilo que estão apresentando. Elas não são o passado no presente. Elas estão no presente, são o presente”. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

HÉLIA SCHEPPA, repórter fotográfica.

 

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