Filme da cineasta Anny Stone finaliza as gravações no Recife
"Ela Está no Meio de Nós" é o primeiro longa-metragem de ficção da cineasta pernambucana Anny Stone. Ainda sem data de estreia, a revista Continente visitou o set de filmagens e conversou sobre a obra e o cenário do cinema atual
TEXTO Laura Machado
05 de Fevereiro de 2026
A diretora Anny Stone durante as gravações de cenas em Olinda
Foto Beto Fiqueroa/Divulgação
Durante o mês de janeiro, em meio a uma rua de casas residenciais no bairro de Água Fria, zona norte do Recife, o grande fluxo de pessoas entrando e saindo de uma das propriedades indicava que algo fora do habitual estava acontecendo. Aquele endereço no subúrbio se transformou em cenário para a gravação do filme de terror psicológico Ela está no meio de nós.
Dirigido pela cineasta pernambucana Anny Stone e roteirizado por ela em parceria com o seu companheiro Neco Tabosa, o projeto é a sua primeira narrativa ficcional de longa-metragem e partiu de uma ideia gestada através do tempo e realizada com o incentivo do Funcultura. A trama se desenvolve a partir da personagem Sofia (Una Menino), que recebe uma herança e viaja com a namorada Camila (Priscila Ferraz) até a cidade fictícia de Arvoredo do Norte, onde começam a experienciar momentos de terror.
Descrito pela diretora como um terror social, psicológico e feminista, o filme foi gravado no Recife e em Olinda em um total de 12 diárias, o que é um tempo de gravações bastante reduzido. Isso não parou a equipe, porém, de entregar dedicação total ao projeto e a intenção de criar uma obra que traz o horror de fantasmas sem deixar de lado o horror de situações reais vivenciadas por mulheres, pessoas negras e parte da comunidade LGBTQIAP+.
“Quando Sofia vem com a namorada para Arvoredo do Norte, elas percebem que existe um terror muito específico na cidade, especialmente ligado aos homens que moram ali. É um filme que toca nas questões ligadas às violências de gênero, mas também de uma maneira sensível que parte do meu olhar feminino e que carrega a minha bagagem e minha história”, declara Anny Stone.
“O mundo pode ser um lugar assustador quando você é uma mulher ou uma pessoa LGBT. Ela está no meio de nós é um filme de terror psicológico que trabalha com essas nuances de terror da vida real. Às vezes, palavras ameaçadoras podem ser ditas em tom de carinho, às vezes, o ciúme vira violência disfarçada de proteção”, completa a cineasta.
O olhar feminino de Stone permite que ela entenda de perto algumas das violências contra as mulheres, que muitas vezes são chamadas de micro, porém que afetam a autoestima e o psicológico das vítimas diariamente. Foi justamente a partir das experiências próprias e observação que ela e Neco Tabosa escreveram as personagens principais.
Para a atriz Priscila Ferraz, sua personagem foi construída em diversas camadas e por isso interpretá-la é um bom desafio: “Ela foi muito bem construída, tem uma relação complexa com Sofia. Gosto que elas não sejam protagonistas tradicionais, as típicas mocinhas de filmes de terror. Elas possuem muitos conflitos, muitas discussões. Para mim é um desafio porque tem coisas que são muito distantes do que eu acredito em um relacionamento, mas eu tento dar outras formas a isso, porque ninguém é totalmente bom ou ruim”.
A entrevista com Priscila foi feita pela equipe da revista Continente no domingo (1), o penúltimo dia de gravações de Ela está no meio de nós. Convidados pela diretora para presenciar um pouquinho as gravações, aproveitamos para também conversar com profissionais que atuam de perto no cinema, mas atrás das câmeras, como é o caso da maquiadora e caracterizadora Cris Malta.
Enquanto maquiava Una Menino para entrar em cena, ela contou sobre a função essencial do seu trabalho dentro do set. “Nós separamos a maquiagem do filme de acordo com o estágio de desgaste emocional”. Como o filme não é filmado em ordem cronológica, a maquiagem ajuda diretamente a mostrar o passar do tempo, isto é, quanto mais cansadas as personagens parecerem, a mais dias elas estão na cidade, por exemplo. “Trazemos olheiras, vermelhidão nos olhos e através disso ajudamos o elenco a se enxergarem já com esse desgaste”, completa Cris.
Ainda em produção, Ela está no meio de nós finalizou as diárias de gravações no segundo dia de fevereiro e segue agora para a pós-produção. De acordo com Anny Stone, a equipe possui cerca de um ano para realizar a montagem, edição de som e de imagem, renderização e as demais etapas finais de pós-produção. O previsto é que em 2027 ou 2028 o filme seja finalizado e possa enfim ser exibido.
Mesmo não chegando ao público imediatamente, o filme fará parte da grande quantidade de produções pernambucanas que nasce de cineastas do estado depois do sucesso absoluto de O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho. Com a visibilidade do filme, o Brasil e o mundo passam a ter um olhar mais atento para o cinema produzido em Pernambuco, o que ajuda toda a cadeia de produção cinematográfica.
“Estamos vivendo um momento excelente para o cinema pernambucano. Desde que eu comecei a saber das premiações para o O agente secreto, que foi um filme onde eu trabalhei em uma diária, senti que tem uma emoção e alegria diferente aqui. É o cinema pernambucano no Oscar! Quando foi que a gente viveu isso? Isso é bom demais para o filme em si, mas também para o cinema como um todo. É um momento muito importante de reconhecimento da trajetória dos profissionais do nosso estado. Nós trabalhamos com cinema aqui há muito tempo e sabemos fazer muito bem. A gente faz um cinema muito especial”, comenta Anny.