Cinema

"O agente secreto" sai em defesa do Edifício Ofir

TEXTO Cleide Alves

27 de Janeiro de 2026

Foto Cinemascópio/Divulgação


O Edifício Ofir, charmoso personagem do filme O agente secreto, abriu as portas na noite dessa segunda-feira (26/1) para uma exibição especial do longa, que tem quatro indicações ao Oscar. A sessão, só para convidados e com a presença do diretor, Kleber Mendonça Filho, foi realizada com um telão no quintal do prédio, localizado no bairro do Espinheiro, na Zona Norte do Recife. Na fita, o edifício funciona como um espaço de resistência.

Mais do que um momento de confraternização, que reuniu a equipe do filme e moradores do prédio, a sessão teve outro papel: chamar a atenção para a necessidade de preservação do edifício, uma construção dos anos 1950. “Ele não é único, mas construções como essa estão quase em extinção no Recife”, observa a professora de arquitetura e urbanismo na Universidade Federal de Pernambuco Guilah Naslavsky.

O prédio tem três pavimentos (térreo, primeiro e segundo andar), seis apartamentos de cerca de 150 metros quadrados cada (dois por andar) e área total de 1.850 metros quadrados, incluindo o terreno e a área construída. Um dos apartamentos abrigou o personagem interpretado pelo ator Wagner Moura. “É um representante do estilo neocolonial tardio simplificado”, diz Guilah Naslavsky, pesquisadora da arquitetura moderna.

De acordo com ela, a referência ao passado colonial é identificada na moldura de azulejos no portal, na parede caiada, nas telhas de cerâmica e num detalhe de cobogós da fachada. “Esse tipo de construção faz uma popularização de elementos do estilo neocolonial”, explica a arquiteta. É exatamente essa característica, aliada à memória afetiva de quem viveu no prédio, que os moradores e proprietários querem preservar.

“Na década de 1990, éramos muito procurados pelo mercado imobiliário, com propostas de troca, acompanhei isso minha adolescência inteira, mas os moradores sempre resistiram. Com a Lei dos 12 Bairros (nº 16.719/2001), deu uma melhorada, mas agora o assédio voltou, é uma pressão grande, uma vigília de especulação imobiliária”, declara a promotora de justiça Helena Martins, proprietária de dois apartamentos no Edifício Ofir, hoje alugados a parentes e conhecidos. A lei criou a Área de Reestruturação Urbana e estabelece limites para construções no Derby e em 11 bairros da Zona Norte, incluindo o Espinheiro, mas está ameaçada pela nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo.

Helena Martins chegou ao prédio em 1973, no ano em que nasceu, e morou nele por 30 anos. A família dela, tia e primos, ocupa desde 1971. “Essa noite é muito simbólica, o Edifício Ofir tem uma história de resistência, tem história pessoal e afetiva, ele guarda memórias que fazem parte da nossa cultura, aqui tem um legado de famílias colaborativas, uma coabitação onde existe ajuda mútua, e é o último exemplar da rua (Alfredo de Medeiros)”, reforça.

Antes do início da sessão, foram exibidas no telão imagens da vida familiar no prédio - festas, brincadeiras, fotos de moradores - e mensagens gravadas pelas atrizes Isabél Zuaa e Maria Fernanda Cândido. A primeira, que interpreta Teresa Vitória na película, uma estrangeira acolhida no Ofir, definiu o edifício como um “espaço de afeto, asilo e resistência.” Maria Fernanda, a Elza na premiada produção que levou o prédio do Recife ao cenário internacional, destacou o filme como “um fenômeno no mundo.”

Em seguida, para uma plateia acomodada em cadeias no quintal, Helena Martins anunciou o projeto de restauração que vai devolver o muro original ao edifício. A proposta, elaborada pelo arquiteto Eduardo Lira, substitui o atual muro alto de alvenaria por outro, com cobogós (peças vazadas que permitem ventilação e luminosidade) e material transparente. “O prédio poderá ser visto pelas pessoas que passam pela rua”, comenta a proprietária.

O cineasta Kleber Mendonça Filho também fez a defesa da preservação do edifício, minutos antes de começar a exibição especial. “Estamos falando de um personagem histórico numa cidade histórica, é importante a cidade se organizar e se defender porque nem todos os espaços estão disponíveis”, ressalta o diretor e roteirista do filme. “O Edifício Ofir, um personagem muito importante de O Agente Secreto, é apenas da metade do século 20, mas Brasília é da época dele e é considerada histórica”, acrescenta. “Vida longa ao Edifício Ofir”, completa a produtora da obra cinematográfica, Emilie Lesclaux.

veja também

O Agente Secreto é indicado ao Bafta

Karim Aïnouz volta ao Festival de Berlim na Mostra Competitiva

"Isabel" estreia no Festival de Berlim