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“Vejo sempre o ilustrador como autor”

O artista gráfico Daniel Bueno, em meio a uma intensa produção para diversos publicações, conversa com a Continente sobre seu processo criativo

TEXTO Gianni Paula de Melo

01 de Outubro de 2011

Daniel Bueno

Daniel Bueno

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 130 | outubro 2011]

Com uma intensa rotina de colaboração
para mais de 50 revistas e jornais, o artista gráfico Daniel Bueno ainda encontra tempo para desenvolver uma linguagem bastante pessoal no campo da ilustração para livros infantis. O paulista, formado em Arquitetura, também é um dos fundadores da revista coletiva de serigrafia Charivari e integra o conselho da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB). Em entrevista para a revista Continente, ele fala de sua preferência por contornos geométricos, texturas e ambiguidades gráficas.

CONTINENTE Como funciona o seu processo de criação de ilustrações para os livros infantis?
DANIEL BUENO Normalmente, recebo o texto com mais algumas informações básicas e faço uma primeira reunião com os editores e designers para discutir as especifidades e intenções do trabalho. Não é comum, mas uma vez ou outra já fiz um primeiro encontro com o autor, também. É importante entender qual é a expectativa, se querem algo próximo do meu estilo habitual ou se estão abertos a experimentações, porque é na área dos livros infantis que apresento maior variedade de soluções. Também considero o campo com maior abertura a trabalhos experimentais.

CONTINENTE Quais as técnicas que você mais utiliza?
DANIEL BUENO No início de carreira, quando trabalhava para revistas e jornais, concentrei-me em desenvolver um estilo com contornos geométricos, texturas e colagem. Meu primeiro livro infantil foi O pequeno fascista (de 2005, com texto de Fernando Bonassi), e nele empreguei o meu estilo habitual. Posteriormente, fiz vários livros nessa linguagem, que é interessante para a exploração da fantasia e da distorção: Histórias de bicho feio (de 2006, com texto de Heloisa Seixas), O grande circo do mundo (de 2010, com texto de Marta de Senna), Apolinário, o homem-dicionário (de 2011, com texto de Fabio Yabu) etc. Quando tenho que desenvolver ilustrações nesse estilo, preciso de um bom prazo, pois o processo é longo e trabalhoso. Em geral, ele não varia muito: uma vez feitos os rascunhos, envio os mesmos para o editor de arte. Depois de tudo aprovado, parto para a finalização: desenho os contornos de todas as figuras a lápis, em papel sulfite, e transponho-os para papel duro. Aplico sobre essas figuras as técnicas de colagem, gerando elementos soltos, como “bonequinhos de papel”. Escaneio as peças separadamente e resolvo no Photoshop a composição, contrastes, claro/escuro, cores.

CONTINENTE E quando você precisa fugir da sua técnica habitual, como é o processo?
DANIEL BUENO O processo de trabalho de um livro experimental pode ser bastante diferente, os caminhos são mais tortuosos. O primeiro livro que ilustrei e que saiu do meu estilo habitual foi Um garoto chamado Rorbeto (Cosac Naify, 2005, Gabriel o Pensador). No começo foi difícil, fiz desenhos com traço a lápis, fiquei um tempo perdido. Mesmo após ter definido um estilo com a editora, com colagens soltas de elementos gráficos (sem precisar pintar peças com tinta acrílica), demoramos a concluir que os personagens ficariam em segundo plano, aparecendo na maior parte das vezes em detalhes ou fragmentados. O interessante é que, mesmo com as experimentações, procuro não fugir totalmente das minhas características, mantendo os contornos geométricos ou a colagem, por exemplo.

CONTINENTE Que aspectos do texto são determinantes para você pensar a estética visual do livro?
DANIEL BUENO Há mais de um aspecto importante: a linguagem, o modo de escrever, os aspectos estéticos – varia de texto para texto. Isso foi fundamental na hora de fazer Bili, do poeta Décio Pignatari, por exemplo. Cada palavra, ali, tinha uma importância, nada era gratuito, e o mesmo teve que ser feito com os elementos das ilustrações, que buscaram a síntese e as formas geométricas básicas do Concretismo. Outro livro, A janela de esquina do meu primo (Cosac Naify, 2010), escrito em 1822 pelo alemão E.T.A. Hoffmann, marca um caminho do escritor em direção ao Realismo; é bastante descritivo e atento aos costumes e trejeitos das pessoas, e isso influenciou bastante a ilustração. Há, também, a importância do tema e do tom do livro: no Pequeno fascista, há a mistura de crítica social e tom pesado. Já em Histórias de bicho feio, os “bichos feios” são apresentados de modo irreverente e engraçado, e as imagens buscam se harmonizar a isso. Dois de meus livros preferidos, os já citados Bili e A janela, apresentam textos totalmente diferentes, de épocas diferentes. O que há em comum é uma ótima qualidade literária, que já é por si só motivadora. Gosto de textos que trazem subtextos.

CONTINENTE A autoria em um livro ilustrado é entendida como partilhada entre escritor e ilustrador?
DANIEL BUENO Bem, entendo que em um livro ilustrado ambos são autores. Claro que, formalmente, isso varia, mas aí entra a negociação de um trabalho encomendado, cada caso é um caso – de qualquer forma, vejo sempre o ilustrador como autor ou coautor em um livro ilustrado.

CONTINENTE Quais ilustradores de livros infantis são referências para o seu trabalho?
DANIEL BUENO As referências não estão apenas nos livros, como também nas artes, design, quadrinhos etc. É sempre difícil citar nomes e fazer uma lista enxuta, mas os artistas que mais me inspiram, atualmente, são aqueles que desenvolvem (ou desenvolveram) trabalhos experimentais: Bruno Munari, Paul Rand, Wolf Erlbruch, Kvêta Pacovská, Katsumi Komagata, Paul Cox. Do Brasil: Ângela Lago, Andrés Sandoval, Fernando Vilela, Roger Mello, entre outros. 

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