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Em busca da felicidade eterna

A valorização de aspectos relacionados à qualidade de vida se confunde com a exacerbação de impulsos consumistas, massificando a sensação da obrigação de “ser feliz” a todo custo

TEXTO Fábio Lucas

01 de Junho de 2015

Ilustração João Lin

Uma palavra que já foi mais poupada, restrita a momentos de conquista ou deixada para o balanço da idade avançada, tornou-se o apelo comum repetido quase a todo instante pela civilização da imagem, conectada ansiosamente em tempo real. A felicidade se transformou no desejo de felicidade, multiplicado pela cultura global, cantado em refrões pegajosos – de Pharrell Williams a Clarice Falcão – e assumido pela publicidade como o melhor slogan para qualquer produto. Todomundo quer ser feliz agora, perpetuamente, sem se dar conta de que há algo errado na avalanche de promessas e possibilidades dirigidas à multidão que quase nunca as realiza.

“Claro que junto com a aquisição de produtos se conquista também o poder da felicidade, mas esta precisa ser necessariamente momentânea para que uma nova compra proporcione outro momento de felicidade. A renovação de sonhos perecíveis é o maior poder da publicidade para perpetuar a lógica do consumo”, diz a publicitária e professora da Universidade Federal de Sergipe, doutora pela Universidade Nova de Lisboa, Raquel Marques Carriço.

A satisfação kantiana de todas as vontades, como resultado do desenvolvimento do conjunto de possibilidades pessoais e consequência da prática da virtude, num conceito herdado dos filósofos gregos, é hoje perseguida sem esforço, com esperança na sorte ou no merecimento do destino – que deve abarcar todo mundo, evidentemente, sem distinção. Vê-se então uma corrida maluca por uma felicidade desprovida de identidade, vendida como pasta de dente em supermercado e comprada com água na boca por consumidores ávidos por substituir uma felicidade por outra. Não importa se representada por antigos estereótipos de realização e sucesso, ou novíssimos lançamentos no mercado da conexão e do entretenimento instantâneo. Não por acaso, o alarde a respeito de ser feliz a todo custo e a toda hora traz decepções e angústias que levam as pessoas a se sentirem deslocadas, excluídas e doentes, caso não preencham os requisitos de um comercial de margarina.

“Assistimos atualmente a uma busca crescente de modos de vida em que a preocupação com a felicidade assume especial relevância e se traduz por solicitações sociais ao bem viver, ao prazer e à qualidade de vida. Esse é um sinal de que a procura de felicidade se reveste de uma enorme importância social, tanto pelo seu papel enquanto modelo orientador de práticas e condutas, como pelas suas consequências sociais e individuais”, analisa a socióloga Ana Roque Dantas, pesquisadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, autora do livro A construção social da felicidade.

Para Ana Roque, essa relevância amplificada reflete transformações sociais que, associadas a uma melhoria das condições sociais que se verificaram ao longo do século 20, nas sociedades ocidentais, contribuíram para uma maior valorização de aspectos relacionados ao prazer, bem-estar e à autorrealização. “Nesse contexto, a palavra felicidade encerra diferentes significados, podendo exprimir alegria, contentamento, conduta de vida, mas também servir como classificação social para distinguir os melhores”, explica a pesquisadora. E por aí percebe-se o quanto o apelo cultural interfere na vida de todos, solicitando vitórias e respostas imediatas às questões existenciais. “Apesar da experiência singular de cada um e dos seus desejos individuais de felicidade, estes revestem-se de fortes condicionamentos sociais que influenciam as formas de sentir, de expressar e de procurar felicidade”, diz Roque.

A socióloga concorda com a ideia de que a felicidade, hoje, no Ocidente, é cada vez mais orientada pelos media e pela publicidade. “Apesar disso, não são claras as suas fontes e sua natureza, e as pessoas apresentam dificuldades em explicitar o que desejam para a sua felicidade, quando confrontadas com a questão”. Ana Roque postula que a felicidade decorre de processos individuais de construção de sentido, mas é também regulada por constrangimentos sociais.

“Apesar de o fato da felicidade ocupar pensamentos individuais e os nossos sentimentos constituírem-se em experiências privadas e singulares, a sua idealização é socialmente moldada, interpretada e partilhada, e traduz formas culturais de pensar, ser e agir que influenciam as formas de sentir. Mas essas influências não penetram o tecido social da mesma forma, nem sua interiorização é semelhante em todas as pessoas. Há uma diversa apropriação dos referenciais disponíveis que se traduzem em diferentes concretizações. Em entrevistas que fiz no âmbito do mestrado, deparei-me com posturas antagônicas face à necessidade de concretização de ideais de felicidade. Para uns, felicidade seria um objetivo a atingir; para outros, a felicidade reside na sua concretização cotidiana.”

De acordo com a pesquisadora, a abordagem sociológica pode contribuir para perceber as formas em que a felicidade se apresenta na percepção das pessoas acerca do que as faz felizes e dos contextos sociais em que se desenvolvem tais entendimentos.


Ilustração: João Lin

Na visão de Raquel Carriço, a orientação do ideal consumista não vem apenas dos meios de comunicação. “Por que a TV está sempre apresentando um brinquedo novo? Eu acredito que a raiz do problema não é a oferta do brinquedo, mas a ausência da mãe que não ajuda a criança a interpretar o significado da posse dessas coisas tolas… E pior, faz com que o filho acredite que seu esforço em comprar tudo que ele quer é sinal de amor… E não é. Mas, no entendimento da criança, ela só é amada quando ganha um presente.” Segundo Raquel Carriço, a origem da questão é mais profunda. “Estamos desenvolvendo uma legião de consumistas insatisfeitos, não por causa da propaganda, mas pela ausência da família, da igreja, da escola na constituição de valores importantes para estes indivíduos na sociedade.”

“PARA SER FELIZ”
Para a psicanálise, a felicidade não se alcança ou, quando se alcança, muitas vezes perde o valor da busca que mantinha o interesse. A contradição presente em nosso tempo faz com que o direito à felicidade se torne uma obrigação em todas as fases da vida. Diante de tal pressão social, também expressa numa felicidade de aparência nas redes da internet, o que resta do ideal de ser feliz? “Penso que deixa cada vez mais de ser um ideal para ser um imperativo”, diz a professora Maria Eduarda da Mota Rocha, professora do Departamento de Ciências Sociais e da Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

O confronto permanente com os apelos à felicidade, que são transmitidos por diferentes canais de comunicação, contribui para a difusão de códigos comuns, de entendimentos e de expectativas que guiam a ação individual, ressalta Ana Roque Dantas. “Ora, o ideal de felicidade socialmente valorizado se assenta, sobretudo, na responsabilidade individual e na capacidade de escolha, devendo a felicidade ser conquistada por iniciativa pessoal. Este modelo tem inerente a convicção de que as pessoas são autônomas e têm o poder de moldar as suas vidas, sendo a felicidade o resultado desse ‘trabalho’. A felicidade surge assim como responsabilidade de cada um, expressa pela ideia de que ser feliz é uma opção, culpando os infelizes pelo seu fracasso.”

Fecha-se o círculo da felicidade idealizada não como linha de chegada, mas ponto de partida para uma vida plena: anulam-se virtualmente as adversidades. “O modelo dominante é o de que, mesmo perante condições adversas, alheias e impossíveis de controlar, sermos felizes só depende da vontade própria. E isso gera frustração e sentimentos de inadequação social”, diz Ana Roque.

A psicanalista lacaniana Bianca Coutinho Dias reforça o teor ilusório da felicidade ideal. Ela recorda que, em 1970, em O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, Lacan afirma que “a felicidade, a menos que seja definida de modo bastante triste, ou seja, ser como todo mundo (…) a felicidade, é preciso dizê-lo, ninguém sabe o que é”. Um desconhecimento básico que bate de frente com a certeza propagandeada pela cultura contemporânea, dos festivais de música ao Facebook. Bianca Dias deixa claro: para a psicanálise, a ideia de felicidade como ideal é um equívoco. “Estar suficientemente feliz na vida, como enunciou Lacan nos EUA, em 1977 – além da óbvia e irônica referência ao american way of life – indica uma nova posição, na qual o possível seria estar feliz por estar vivo, por estar na vida, incluída aí a morte como elemento irredutível e o mal-estar daquilo que nos ultrapassa.”

No afã da felicidade, a inevitável fronteira da morte, concebida negativamente pelo Ocidente, faz da sua certeza uma razão de melancolia. Essa felicidade que ninguém sabe o que é, de repente, surge em nós por contraste, com uma pancada existencial diante da morte de alguém próximo. Conflitos desnecessários se apequenam, preocupações vãs acham seu secundário lugar, e o que importa, nem que por um relance, se descortina. Continuaremos sem saber o que é, mas extraídos subitamente do cotidiano neurótico em que estamos mergulhados, somos capazes de enxergar o que não é a felicidade.

“Ser feliz apenas por estar vivo, sem isso nem aquilo, sem adiar ou procrastinar, porque a morte existe e não espera, costuma ser difícil para o neurótico”, adverte Bianca Coutinho Dias. Para ela, o imortal neurótico, com todo o tempo do passado ou do futuro à sua disposição, anula o hoje. “Anula o encontro, a contingência e o possível. A análise deve levá-lo, no mínimo, a parar de temer a morte e atribuir maior valor ao dia a dia, no qual praticaria o bem-dizer da felicidade possível. Assim, essa felicidade do final de análise tem algo de um saber sobre a morte com o qual nos deparamos no estar vivo e prontos para as diferentes circunstâncias.”

Assim se consuma uma espécie de descoberta, de fascinação comum à vista do conhecimento que se abre, mesmo do indefinível. Bia Dias resume: “A felicidade é um lampejo: aquilo que não se adia, que está na dimensão do ato, por mais que seja difícil se sustentar. O sujeito feliz é aquele livre do aguilhão que o impele à busca de sentido, pode desfrutar da palavra: poesia, corpo, amor… Alegria que o ancora na vida com todas as suas vicissitudes. 

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