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Arquivo

Espaço livre e malevável

Entre os conceitos atuais de construção, prevalece a concepção de projetos que tragam soluções e inovação à complexidade do tecido social e urbano

TEXTO Luciana Veras

01 de Maio de 2015

Pavilhão projetado por Toyo Ito e Cecil Balmond para as Serpentine Galleries, em 2002, já não existe mais

Pavilhão projetado por Toyo Ito e Cecil Balmond para as Serpentine Galleries, em 2002, já não existe mais

Foto Jack Lacey/Corbis/Latinstock

"A civilização de hoje conforma-se cada vez mais dificilmente à prisão espacial dos edifícios em alvenaria. Ela anseia, ao contrário, por espaços mais livres, maleáveis, ilimitados, como se estivéssemos todos à espera misteriosa de uma nova dimensão para além das três euclidianas”, raciocinava o crítico pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981), no Jornal do Brasil de 4 de setembro de 1952. Ao lado de uma robusta produção jornalística e ensaística, essas palavras ressurgem agora coligidas no volume Mário Pedrosa – Arquitetura e ensaios críticos, lançado neste maio pela editora Cosac Naify em duo com Mário Pedrosa – Arte e ensaios. Com tais livros, ilumina-se o pensamento do pioneiro a analisar arte, política e arquitetura no Brasil no século 20 e amplia-se o escopo para reflexões acerca da seguinte indagação: como se pensa e se constrói hoje?

É extraordinário perceber que as meditações de Pedrosa, formuladas no momento em que o Modernismo ditava o desenho urbano no país, e em boa parte do mundo, seguem a reverberar. “A revolução arquitetônica não é, pois, puramente externa. Ao contrário. Ela se dirige para fora e para dentro do edifício”, anotava, no mesmo texto publicado no início dos anos 1950. De lá para cá, a arquitetura moderna esmaeceu, deixando a herança de Brasília e um patrimônio ainda não salvaguardado de maneira correta – Pernambuco que o diga; o Pós-Modernismo traduziu-se em uma entropia de estilos; a tecnologia propiciou o aparecimento de novidades construtivas; e os arquitetos passaram a domar as formas e subvertê-las como se estivessem, conforme preconizava Pedrosa ao falar de Oscar Niemeyer e seu “gênio plástico incoercível”, a esculpir em barro.

Houve mudanças – imensas, importantes e inevitáveis – no cenário arquitetônico. Contudo, a insurreição do contemporâneo se dá, de fato, para dentro e para fora da construção. Na arquitetura concebida e executada neste terceiro milênio, a relevância paira tanto no edifício em si, e no que ele carrega de plasticidade, inovação ou eficiência, quanto nas articulações que se operam entre aquele prédio e seu entorno. Uma das chaves reside, pois, no vínculo estabelecido entre aquela construção, o uso que dela fazem seus ocupantes e a cidade – nunca uma localidade estagnada, e, sim, mutante, como a Maurília inventada por Italo Calvino, em As cidades invisíveis: “…e que, de qualquer modo, a cidade tem este atrativo adicional – que mediante o que se tornou pode se recordar com saudades daquilo que foi”.


A ideia atual de urbanização nivela os grandes centros. Foto: Divulgação

A cidade surge como esteio e paradigma desse debate. “Não acho que seja fácil, nem muito possível, na verdade, dissociar as discussões sobre pensar a arquitetura do pensar a sociedade. Acredito que o embate entre o interesse coletivo e o individual também norteia o rumo das cidades. Entre esses dois pensamentos, bem no meio do campo, está a maior parte de nós, cidadãos, caminhando sem saber exatamente sob qual espectro está e vivendo na informalidade de pensamentos. É sob esse guarda-chuva que enxergo a arquitetura, tanto do ponto de vista teórico quanto prático. Creio que a maneira que se pensa e constrói hoje ainda está intimamente ligada à lógica capitalista de controle dos meios de produção”, observa o arquiteto paulista Pedro Del Guerra, da MGDG Arquitetos.

Para o pernambucano Carlos Fernando Pontual, da Pontual Arquitetos, com quase cinco décadas de profissão, é nítida a modificação no modo de se relacionar com a urbe, cada vez mais populosa e problemática. Porém, na sua opinião, o arquiteto vira “refém de uma racionalidade construtiva” que confere mais poder ao mercado: “O jeito de fazer arquitetura está muito igual, no nível técnico, porque o maior desafio é como resolver essa busca incessante pelos grandes aglomerados. Como lidar com as cidades cheias de carros? Como trazer o espírito criador para aquele projeto que é diminuído por uma padronização? O arquiteto fica preso a um comportamento industrial de produção e vai sendo minado nas suas aspirações plásticas. Fazemos um esforço brutal para inserir o projeto dentro de uma malha urbana e dar um ganho ao sítio onde está localizado e temos, nisso tudo, a dificuldade de fazer poesia, de escrever a poética dentro da arquitetura. Na essência, a arquitetura é arte de uma complexidade brutal”.


Arquitetos como Zaha Hadid desconhecem fronteiras e seus projetos cumprem a função de sofisticar a paisagem urbana. Foto: Zaha Hadid Archtets/Divulgação

No afã de aliar aspirações artísticas à praticidade para lidar com exiguidade espacial e imposições comerciais, o arquiteto se engaja em batalhas. “Nossa luta cotidiana é conseguir, dentro do processo de racionalização e metodologia de trabalho das construtoras, fazer uma diferenciação e dar àquela obra o testemunho do ato criativo, um caráter singular, uma assinatura”, emenda Pontual. A palavra assinatura resume outro aspecto inegável da práxis arquitetônica contemporânea: a existência dos starchitects, neologismo em inglês que dá conta dos arquitetos-estrelas, celebridades a transitar por vários países, desconhecendo fronteiras e sofisticando a paisagem urbana. São, além de talentos comprovados e pais de criações admiráveis, grifes.

Na lista de todos os vencedores do prêmio Pritzker, criado em 1979 por uma abastada família de Chicago, nos Estados Unidos, como o equivalente ao Pulitzer literário ou ao Oscar cinematográfico, constam vários exemplos: o italiano Renzo Piano, o britânico Norman Foster, a iraquiana Zaha Hadid, o holandês Rem Koolhaas, o francês Jean Nouvel, o português Eduardo Soto de Moura, o japonês Shigeru Ban e os suíços Herzog & de Meuron. Do Brasil, integram o seleto rol Oscar Niemeyer (1907-2002) e Paulo Mendes da Rocha. São os únicos arquitetos nacionais a reunir em sua obra, aos olhos da Fundação Hyatt, que concede o troféu, a tríade “solidez, funcionalidade e beleza”, cunhada pelo romano Marcus Vitrivius Pollio, em De archictectura libri decem, considerada a primeira obra sobre a disciplina, escrita no século 1 a.C.

Professor do Departamento de Arquitetura do Centro Universitário de Brasília/Uniceub, o urbanista Francisco Leitão, cearense há muito radicado no Distrito Federal, considera que ainda estamos na “era da arquitetura do star system”. “O prédio do Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, virou paradigmático dessa arquitetura das estrelas”, diz, aludindo à obra do canadense naturalizado norte-americano Frank Gehry, cuja fachada exibe uma estrutura retorcida de titânio. Inaugurado em 1997, o museu é tido como uma das mais impactantes obras arquitetônicas recentes. “O problema é que essa arquitetura do espetáculo é feita por arquitetos que trabalham numa escala maior, projetando a imagem de uma cidade, como Bilbao, mais para atrair empresas e corporações e menos para dialogar com aquele espaço. É uma construção deslocalizada”, argumenta.


Foto: Divulgação

Ele cita as intervenções de Norman Foster realizadas no Reichstag, o parlamento de Berlim, na Alemanha, ou as etapas de requalificação de zonas portuárias – em Nova York, Boston ou Buenos Aires – como sinais de uma uniformização advinda da globalização. “No panorama da arquitetura mundial, as obras que esses arquitetos projetam possuem uma dimensão global que ofusca os elementos locais. O resultado é que essas áreas de porto tendem a se descaracterizar, a ficar se copiando. Podiam ser em qualquer lugar”, comenta o professor. Há exceções, no entanto, entre os que habitam o panteão da genialidade. “O português Álvaro Siza fez um belo trabalho para a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, porque teve a sensibilidade de interagir com o local, confundindo-se com a paisagem. Aquele prédio só poderia existir naquele lugar”, acrescenta Leitão.

HOMOGENEIZAÇÃO CULTURAL
Ou seja: o choque entre o consumismo globalizado e a busca por uma especificidade se imiscui, também, na urbanização. “Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem ‘flutuar livremente’”, expõe o teórico jamaicano Stuart Hall (1932-2014) em A identidade cultural na pós-modernidade (2006).


Foto: Foster + Partners/Divulgação

A arquitetura também padece do fenômeno da “homogeneização cultural” e sofre os efeitos da fricção global versus local. Uma saída é olhar para o que há de intransferível. “A alma de uma cidade, bem como sua individualidade, permanece nos seus bairros populares e nas suas lutas”, situava o teórico, urbanista e professor norte-americano Mike Davis, em entrevista à Continente publicada em janeiro/2015.

De volta à metrópole, portanto, e ao somatório de espaços públicos, edifícios privados e de sua utilização pela população, que dá sentido a toda e qualquer incursão arquitetônica atual, seja sob a chancela de um famoso escritório, de uma gigante imobiliária ou de profissionais que optam por valorizar a interseção com o tecido urbano. “O foco tem que ser a construção das cidades, em especial com aproveitamento de infraestrutura e condições já existentes. A arquitetura de hoje é do edifício compondo com o entorno. É preciso que a construção qualifique o bairro e tenha o entendimento da escassez dos recursos, tanto financeiros quanto naturais, seja no desenho, seja nos equipamentos e instalações que economizem. Se é caro para construir, vai ser caro para manter. Vivemos uma crise de energia e de água e devemos buscar um desenho de edifício para se chegar a um desenho de cidade com economia para todos os cidadãos. Afinal, não adianta fazer um prédio high tech, com o melhor vidro e eficiência energética, se não colaborar com o espaço urbano ao redor”, afirma o carioca João Pedro Backheuser, da BAC Arquitetura.

Seu escritório se associou a arquitetos de Barcelona com o intuito de apresentar uma proposta para uma área de cinco hectares na região portuária do Rio de Janeiro. “Acredito que a arquitetura deve ocupar espaços urbanos vazios ou áreas que estejam degradadas, pois para isso já houve custo e esforço econômico, social, político e construtivo e dinheiro jogado fora. Nesse caso específico do porto carioca, trata-se de uma área central, de fácil acesso a trem e metrô, mas que está subutilizada. Nossa proposta é uma série de edificações residenciais, de até 20 andares, e de uso misto, com hotéis também, para aproveitar a rede de transporte e tornar aquela área ainda mais compacta. O arquiteto necessita achar o equilíbrio entre densidade e qualidade no espaço urbano, para que as cidades não se espraiem a perder de vista”, completa Backheuser.


A dupla Herzog & de Meuron ganhou, em 1995, o concurso para transformar a antiga fábrica em museu, o Tate Modern. Foto: Divulgação

ARSENAL TECNOLÓGICO
Há quem enxergue munição adequada para enfrentar tal missão. Diretor de arquitetura e urbanismo para o Brasil da Idom/ACXT, empresa espanhola de arquitetura, engenharia e consultoria presente em 20 países, o pernambucano Pedro Lira enaltece o avanço dos mecanismos tecnológicos à disposição dos profissionais. “Existem ferramentas que permitem uma maior integração entre a arquitetura e as disciplinas afins, como engenharia, mobilidade e meio ambiente, e possibilitam o desenvolvimento do projeto com muito menos chance de erro. Antes, o arquiteto fazia o conceito, que chegava à engenharia de instalações, que fazia suas intervenções, e depois as remetia para o arquiteto. Hoje, é possível construir o programa de uma forma multidisciplinar mais integrada, o que exige uma maior visão do arquiteto”, pontua.

Foi com essa abordagem que a Idom/ACXT projetou uma operação urbana numa área de 11 mil hectares em São Paulo. “É um espaço que corresponde a 10% da área total da capital, com 1,1 milhão de habitantes. Fizemos estudos urbanísticos e ambientais para planejar o desenvolvimento da região e colaboramos, com alguns critérios, com a revisão do plano diretor municipal”, revela Lira, que prefere ir além do que considera aspectos “passageiros e superficiais”, como correntes estéticas. “A partir do momento em que as cidades se tornam mais importantes na vida das pessoas, é necessário que esses sistemas funcionem de maneira equilibrada. Otimizar os recursos e dar respostas a questões como o deslocamento das pessoas e mercadorias, o descarte dos dejetos, a qualidade dos espaços públicos, a economia de energia. Pensar e trabalhar a cidade exigem integração plena entre urbanismo e arquitetura”, alinhava.


Tate Modern. Foto: Divulgação

Qualquer prática arquitetônica que se negue a encarar as idiossincrasias do funcionamento de uma metrópole estará, pois, em dissonância com o espírito do tempo. “Temos que pensar hoje com relação a 10, 20 anos atrás. Houve uma mudança de escala no crescimento da cidade, com a valorização da economia e o adensamento gerado por uma ocupação desornada, que gerou uma série de problemas que hoje nós estamos tentando resolver, como a falta de água, o racionamento de energia, o trânsito e a insegurança”, repercute o paulistano José Luiz Lemos, diretor associado do Aflalo/Gasperini, escritório com 53 anos de experiência.

Ao discorrer sobre um projeto que vem sendo desenvolvido para uma área de 50 mil metros quadrados na capital paulista, e do que se prevê para reutilização da água da chuva e a devolução, por meio de biosarjetas, para o lençol freático, ele antecipa que não se trata de um mero conjunto de apartamentos: “Estamos falando de um bairro. Hoje, precisamos pensar o projeto muito mais globalmente e dotá-lo de uma sinergia com a cidade. Claro que não temos como resolver todos os problemas de São Paulo, mas é nosso papel pensar em saídas que, num projeto dessa escala, serão significativas”. Uma delas ecoa uma postulação do Modernismo – liberar o térreo de um edifício para um contínuo diálogo com os passantes – e um dos pressupostos defendidos pela sociedade no combate à arquitetura do medo. “Os prédios terão uso misto, com atividades por 24h, para gerar fluxo de pessoas, sem muros. Quanto mais blindado, mais inseguro fica o entorno; quanto mais permeável e inserido no tecido urbano, mais seguros todos se sentem”, assente Lemos.

SEM MURO E PORTÃO
A residência do casal de arquitetos Clara Reynaldo e Lourenço Gimenes, na zona oeste de São Paulo, é um perfeito exemplo dessa permeabilidade. Não há muro ou portão a separá-la da rua, o que provoca constrangimentos, como veículos estacionados na garagem. “Moramos perto de um bairro com muito comércio, então, de vez em quando, tem carros parados aqui, porque as pessoas acham que é uma loja. É curioso sentirmos esse preconceito, como se a casa tivesse que, obrigatoriamente, ser de alvenaria, ter muro, portão e quarto de serviços. Mas a arquitetura não tem mais essa configuração. Pode-se construir dos mais variados jeitos, desde que não seja um desfile de moda, e, sim, usável, com um programa, uma demanda, um valor”, interpreta a pernambucana Clara.

No terreno de 4 m x 30 m, numa via de casas geminadas, ela, o marido e os escritórios CR2 Arquitetura e FGMG Arquitetos foram criativos na “arquitetura habitável” que tomam como norte: optaram por uma estrutura metálica, sem concretagem (há tijolos em apenas uma parede) e com uma laje painel de aço. “Não seguimos o programa tradicional da família pequeno-burguesa, com quarto e banheiro de serviços. E fizemos uma construção seca, sem aquele canteiro de obras com muito resíduo, até porque nosso espaço era estreito. Usamos estruturas de aço, que chegavam prontas. Como a iluminação natural vem apenas da frente e de trás, buscamos a ventilação cruzada, com muito vidro, não só por uma questão estética, mas para usarmos o máximo de luz natural possível. Na fachada da frente, optamos por uma malha metálica. Como há um painel, da rua, a pessoa vê a casa inteira. Queríamos mesmo uma casa aberta, transparente, sem portão, uma extensão da rua”, lembra a arquiteta.


Projeto de arquitetura da arquiteta e de seu marido, Lourenço Gimenes, para sua residência é exemplo de permeabilidade. Foto: Fran Parente/Divulgação

Em 1952, Mário Pedrosa vaticinava: “Até no Ocidente, a ideia de casa é mais do que um teto sustentado por paredes maciças. O concreto e o aço, flexíveis como é a madeira, transformaram a velha ideia, e esta agora pode ser melhor afinada aos sentimentos dinâmicos espaciais do homem moderno, pois pode ser concebida como um teto sustentado por postes, pilares situados para dentro do perímetro da construção, sem obrigação de regularidade externa ou simétrica”.

A liberdade intrínseca à arquitetura contemporânea é uma realidade. É possível imaginar nuances de fachadas que vão se modificando a cada pavimento de um prédio, graças a processos digitais de fabricação de impressão em 3D. É possível escolher um entre dezenas de tipos de vidro – laminados, temperados, insulados – para revestir um prédio e nele inserir até serigrafias. É possível prescindir do tijolo e adotar o concreto. E replicar, em patamares construtivos, a rima inteligência/ eficiência.

POSTURA CIDADÃ
Se, por um lado, percebe-se uma crença na falibilidade da arquitetura como criadora e indutora de soluções – Carlos Fernando Pontual lamenta a irremediável “perda de força” do arquiteto para corrigir os traumas das metrópoles –, por outro, os recentes movimentos organizados pela sociedade civil a partir de áreas prestes a sofrer intervenções massivas, como o cais José Estelita, no Recife, e o Parque Augusta, em São Paulo, sugerem o fortalecimento de uma postura cidadã por parte do profissional. “A arquitetura contemporânea está mais no espírito, no que o arquiteto pensa, do que no material que ele vai escolher. Temos que ir pela imaterialidade”, pondera o pernambucano Lula Marcondes, professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Católica de Pernambuco e sócio de O Norte – Oficina de Criação.

Para ele, o dever é confrontar a legislação excludente e reinventar a relação com a urbe e com o outro: “Em Pernambuco, nossa legislação permitiu a negação da cidade, principalmente nos edifícios residenciais, que é a base onde tudo acontece, onde nos relacionamos. O arquiteto pode usar madeira, concreto, ferro, vidro ou plástico, mas a lei seguirá com o espírito de negação. Temos que lutar para que isso se transforme em doação, em generosidade, em prédios com uso misto no térreo que se abrem para a cidade. Esse é o caminho para uma arquitetura urbana e cidadã”. Ao arquiteto de hoje, cabe, também, a possibilidade de mudar o lugar onde se vive.

ARQUITETOS

1. SHIGERU BAN


Foto: Shigeru Ban Architets/Didider Boy de La Tou/Divulgação

“Ele é um arquiteto excepcional e com forte compromisso social”, aponta João Pedro Backheuser, da BAC Arquitetura (RJ), a respeito do vencedor do prêmio Pritzker em 2014. O japonês Shigeru Ban tanto surpreende ao idealizar construções sofisticadas, como o Centre Pompidou-Metz, na França, para o qual se inspirou na leveza de um chapéu chinês (foto acima), e ao aliar praticidade e beleza no uso de materiais, como papelão e bambu, para criar residências para vítimas de desastres. Todo o trabalho de Ban objetiva ajudar os desabrigados gratuitamente. 

2. TOYO ITO


Foto: Toyo Ito & Associates/Divulgação

Projetos como a Midiateca de Sendai e o teatro público de Za Koenji, no Japão (na foto acima), ou o estádio de Kaohsiung, em Taiwan, evidenciam a capacidade deste arquiteto japonês (ganhador do Pritzker em 2013) de conferir plasticidade e organicidade às formas geométricas. “Toyo Ito tem uma variedade de projetos comparável a Zaha Hadid e Frank Gehry, mas o seu repertório de soluções é mais diverso e, nesse sentido, sua contribuição é mais relevante”, percebe José Luiz Lemos, do Aflalo/Gasperini (SP).

3. JAN GEHL


Foto: Gehl Architects/Divulgação

É impossível pensar as metrópoles hoje sem citar este arquiteto dinamarquês, que há décadas defende a expansão das ciclovias nas grandes cidades. “Na escala urbana, Jan Gehl merece destaque porque, de uma certa forma, foi inovador na grande discussão sobre o uso de bicicletas. Hoje pensamos em muitos conceitos que foram fomentados por ele”, diz Pedro Lira, da Idom (SP). Muito do que aplicou em Copenhague está descrito no livro Cidade para pessoas, em que Gehl defende uma mudança de cultura no modo de ver e construir as urbes.

4. REM KOOLHAAS


Foto: Divulgação

Desde os anos 1970, quando fundou o OMA – Office for Metropolitan Architecture, o holandês Rem Koolhaas é tido como exemplo de arquiteto que combina arrojo e reflexão. O prédio da China Central Television, em Pequim, uma concreta reinvenção da noção de arranha-céu, traduz essa inquietude, presente também na produção crítica deste vencedor do Pritzker em 2000. “É inegável que ele se sobressai hoje ao colocar a mesma força em produzir e escrever”, observa Francisco Leitão, professor do Centro Universitário de Brasília/Uniceub.

5. SOU FUJIMOTO


Foto: Iwan Baan/Divulgação

Em 2013, o pavilhão temporário da Serpentine Gallery, no Hyde Park, em Londres, parecia nascer do solo, tamanha era a integração de sua estrutura, cubos em ferro concatenados em imensas grades, com a natureza. Essa é uma das chaves para olhar o trabalho do japonês Sou Fujimoto. “Ele é um arquiteto com a ideia de inovação, que foge muito do programado, que perverte os limites tradicionais. Fui visitar uma casa que ele projetou em Tóquio onde simplesmente não existem paredes”, comenta Clara Reynaldo, da CR2 Arquitetura (SP). 

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