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Resenha

O amor segundo Luna Vitrolira

A poeta declamadora revira sentimento ao avesso, reunindo no seu livro 'Aquenda – O amor às vezes é isso' versos carregados de corpo e protesto contra o sistema patriarcal

TEXTO Paula Mascarenhas

28 de Agosto de 2018

Luna Vitrolira leva ao papel a força da tradição poética oral que a formou

Luna Vitrolira leva ao papel a força da tradição poética oral que a formou

Foto Jan Ribeiro/Divulgação

Desde a infância, a recifense Luna Vitrolira se encanta pela poesia popular e pela arte da declamação. Agora, aos 25 anos, resolveu assentar no papel aqueles dizeres que lhe “escapam do juízo” a cada performance que realiza, seja em projetos culturais e literários que promove, seja pelas ruas das cidades pernambucanas e de fora, onde solta seus versos de maneira mais informal. Agora Luna, que é poetisa, atriz, produtora e professora de Literatura Brasileira, lança o seu primeiro livro: AquendaO amor às vezes é isso (Editora Livre, 2018).

A artista faz parte da nova geração de poetas pernambucanos, cuja “pulsão poética precede a consciência da forma”, como evidencia, no posfácio da obra, o professor de Crítica e Literatura Brasileira da UFPE Lourival Holanda. Este é um dos traços marcantes da poesia de Luna: ao crescer imersa no universo repentista do Sertão do Pajeú, tomado pela tradição literária oral, ela expressa no próprio corpo a força das palavras. E é isto que experimentamos ao ler Aquenda:

Escrever é a maior das insanidades
um impulso suicida
o delírio de um corpo convulso
em processo de esquartejamento
a u t o m u t i l a ç ã o


Como numa expressão sinestésica, é possível sentir a interpretação da poetisa a cada página: quem já conhece a atuação de Luna, relembra com facilidade a sua dinâmica corporal própria, seu olhar expressivo e a gesticulação das suas mãos, enfim, um conjunto visual que se harmoniza com a cadência dos versos proclamados por sua voz suave e incisiva a um só tempo. Durante a leitura da coletânea, imagens e sons vão se misturando à métrica livre, de modo que as entonações, os silêncios e as indagações que permeiam a performance da artista tornam-se evidentes na estrutura e disposição de cada poema, na divisão dos versos e nos espaçamentos entre eles. Neste emaranhando de sentidos, conseguimos nos aproximar de uma subjetividade repleta de liberdade, afeto e empoderamento feminino.

o amor me rasga e me oscila
me toma me refrata
me inunda quando me diluvia
depois me larga em qualquer calçada

A identidade de Luna não se sobrepõe apenas na sua liberdade de recitar, está presente também nas temáticas abordadas por sua escrita, que falam sobre a força da mulher, da negritude e, principalmente, sobre o amor. Mas não aquele amor idealizado, herdado dos trovadores da Idade Média ou dos escritores românticos do século XIX, e sim “o amor que não pode ser dito, que não se permite virar poema”. Estas palavras da ensaísta e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda, na apresentação de Aquenda, reforçam que os versos feministas de Luna pretendem desconstruir a poesia amorosa e idealizante e, ao mesmo tempo, potencializar a voz das mulheres neste espaço.



E este rompimento já é sugerido no título do livro. O polissêmico termo aquenda origina-se do pajubá, socioleto fruto da mistura de línguas africanas que é usado pelos povos de santo e pela comunidade LGBTQ. A palavra pode significar ato sexual, paquera e entre travestis, transformistas e mulheres trans, quer dizer "aquendar a neca", ou seja, escondê-la. Aquendar também é “olhar”, “observar”, “chamar a atenção”, apelo que os poemas amorosos de Luna revelam: “Mulher, preste atenção! O amor é lindo, mas às vezes ele pode ser violência e dor”.

Toquei fogo no teu corpo
te incendiei
depois deixei o amor
carbonizando
no meio da mata

A narrativa construída em Aquenda revela os paradoxos do amor, a beleza e as agruras desse sentimento que, embora seja tido como universal, é muito mais complexo do que um simples “final feliz”. Dessa maneira, os poemas nos fazem refletir não só sobre a construção das relações afetivas contemporâneas, mas principalmente sobre a naturalização de comportamentos herdados de nossas instituições sociais, políticas e religiosas sob o viés patriarcal. Como uma dessas instâncias, a literatura contribuiu historicamente para a formação da identidade feminina em diversas obras, as quais reforçam seu papel amoroso (e clichê) restrito à dependência masculina, sendo aquela que tem que amar incondicionalmente, aceitar qualquer agressão, ser submissa. É justamente esse olhar comum que Aquenda quer nos libertar.

Agora, é a própria mulher que assume seu protagonismo, como dona de seu corpo e de suas emoções. O amor pode, sim, fazer parte do universo feminino como um prazer, ou até mesmo uma dor, mas é a mulher quem é dona desse sentimento, quem nos fala sobre suas paixões, seu desejos, sobre o abandono ou sofrimento que passou. Nesses versos gritados, o livro torna-se avassalador e pujante: vem com potência performática de Luna para nos contar que ainda é na força desse sentimento que devemos acreditar.

eu acredito no amor […]
amor que dá bom dia
que ajuda uma velha a segurar sacolas
ou empresta seu ombro como guia
pra atravessar o delírio das horas mortas

No Recife, o lançamento de Aquendao amor às vezes é isso acontece no dia 30 de agosto, às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho. O recital de apresentação do livro transforma-se em um espetáculo poético-musical com a participação dos dos músicos Amaro Freitas, Gilú Amaral e Clécio Rimas, além da presença do escritor Marcelino Freire e das poetas Adelaide Santos, do Boca no Trombone, e Bione, do Slam das Minas. O livro custa R$ 25.

Assista a vídeo do nosso especial de maio com a poeta declamando:

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