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Reportagem

A poesia do corpo

Ecoa em voz alta, do Recife ao Pajeú, uma nova geração de poetas declamadores que instiga debates contemporâneos a partir da oralidade e da web

TEXTO ERIKA MUNIZ LENNE FERREIRA
FOTOS TIAGO HENRIQUE
VÍDEOS ERIC GOMES

02 de Maio de 2018

Bell Puã, Luna Vitrolira, Adelaide Santos e Bione, expoentes dessa nova geração de declamadoras

Bell Puã, Luna Vitrolira, Adelaide Santos e Bione, expoentes dessa nova geração de declamadoras

Foto Eric Gomes

Júlia pariu Bione numa roda de poesia. Tinha 12 anos, e media 1,63 de altura, quando essa língua afiada veio ao mundo. Isso aconteceu quando ela cismou de levar seus escritos para uma batalha de MCs. Na época, a adolescente do Bairro do Prado, zona oeste recifense, já arriscava performances em recitais da escola onde estuda e pediu para uma amiga inscrevê-la no encontro que acontecia semanalmente num bairro vizinho ao seu. A resposta fez entalar a garganta: “Só podem disputar poetas ou MCs homens”.

Conhecida pela personalidade determinada, Júlia arquitetou a estratégia: forjar nova identidade a partir de um nome que não entregasse, de cara, seu gênero. Assim nasceu Bione, hoje uma poeta de 15 anos, vigorosa e sagaz. Como Bione, ficou fácil ter seu nome na batalha. A filha de Janaína – para quem ela será sempre Júlia – tinha muito a falar na tarde em que, depois da aula, partiu para aquele que seria o seu primeiro duelo de rua. Mais uma vez, teve a voz silenciada. Além da pouca idade, a organização reiterou que a sua condição de mulher era um impedimento para que duelasse. “Me senti incapaz, como se eu ser menina me impedisse de mostrar o que eu tinha para mostrar e me culpei”, conta ela que, um ano depois do episódio, despontaria como uma das mais expressivas poetas da cena local.

Bione prefere ser assim chamada até pelas pessoas com quem divide o mesmo teto: a mãe Janaína, a irmã Juliana Wittória e a tia Tita. Na rua sem calçamento onde vive, não há opção de lazer. A rotina é feita entre a escola e a internet, estudando ou compondo poesias. Sua dedicação aos versos está expressa até no seu guarda-roupa: de cima a baixo, as duas portas brancas estão cheias de palavras e temas que perpassam sua vida. As experiências e descobertas da adolescência e questões políticas, incluindo de raça e gênero, são constantes na produção de garota, que, no ano passado, deixou a plateia atônita diante de sua performance na primeira edição do recital de meninas Slam das Minas, realizada no monumento Tortura Nunca Mais, centro do Recife. Aquele dia de agosto marcou o momento de seu encontro com tudo o que acreditava se aproximar da representação de si mesma.

Finalmente, Bione encontrara seu lugar de pertença e passou, então, a ser uma das frequentadoras mais assíduas dos recitais, mesmo sem o apoio da mãe. Janaína não entendia muito bem o que significava toda aquela movimentação de mulheres com as quais a sua filha, então com 13 anos, se identificou. “No começo, eu não conhecia e não sabia nem da existência desse tipo de força de expressão. Achava ela muito nova e que era só fogo de palha. Mas passei a ir ver de perto e gostei do que vi e entendi que só através da poesia, da fala e da expressão, é que elas conseguirão ser ouvidas. Hoje, me sinto representada na fala dela”, comenta a mãe de Bione, que a acompanha nos recitais, mas pega no pé para que ela não perca de vista os estudos.

Em diversos cantos da capital e de regiões de Pernambuco, movimentos pulsantes da poesia contemporânea vêm se formando e fortalecendo uma cena que ressignifica as relações entre corpo, oralidade e poesia. A oralidade, característica dessas cenas, é marcante na história das produções poéticas do estado. Não precisa muito esforço para enumerar nomes da poesia pernambucana que se destacam por trazerem esses traços, a exemplo de Miró da Muribeca, Cida Pedrosa, Graça Nascimento, Erickson Luna, Pedro Américo de Farias. A presença do corpo e suas referências simbólicas também estão presentes nas obras desses artistas que agora experimentam em torno de questões discursivas autobiográficas e estéticas.

    

*A Continente pode ser encontrada ainda na plataforma de revistas GoRead e nas principais bancas do Recife e em livrarias especializadas do país.

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