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Mirante

Kim e Alice no país das aberrações

TEXTO Débora Nascimento

30 de Outubro de 2020

Kim Kardashian e Alice Johnson, que conseguiu sair da prisão perpétua após clemência intermediada pela celebridade

Kim Kardashian e Alice Johnson, que conseguiu sair da prisão perpétua após clemência intermediada pela celebridade

FOTO Reprodução

Pouco tempo depois de Kim Kardashian adentrar o palco, sentar-se na poltrona, certificando-se de que estava bem acomodada em seu justíssimo vestido de cor mostarda, David Letterman observou que, em seu extinto programa, Late Show, costumava fazer muitas piadas sobre a celebridade e sua família, protagonista do reality show Keeping up with the Kardashians (a ser encerrado em 2021, na sua 20a temporada), e que agora ele estava em frente a seu motivo de piada, mas em uma entrevista séria. Diante desse comentário com ar de “quem diria, hein?”, ela venceu as amarras do botox e deu um sorrisinho parece-que-o-jogo-virou-não-é-mesmo-?. Durante anos, Letterman não perdeu a oportunidade de render anedotas e menções a respeito da ostentação, badalação e tretas da família Kardashian/Jenner, que alimentaram revistas de fofoca do mundo inteiro, e cujo ápice foi a inesperada transformação do padastro, o campeão olímpico Bruce Jenner, na mulher trans Caitlyn Jenner.

Alguns desses assuntos espinhosos apareceram logo no começo da entrevista que abre a terceira temporada do programa O próximo convidado dispensa apresentações, disponível na Netflix. Dentre as saias justíssimas, o julgamento de OJ Simpson, amigo dos Kardashians e cujo feminicídio da esposa Nicole Brown Simpson dividiu a família entre os que estavam contra e a favor do esportista. Kim afirmou que ela e as irmãs ficaram no meio do fogo cruzado entre a mãe, Kris Jenner (então Kris Kardashian) e o pai, Robert Kardashian, que projetou seu sobrenome de origem armênia na mídia ao compor o time de advogados que defendeu OJ. Na época, a defesa, liderada pelo advogado Johnnie Cochran, pegou carona nos protestos contra o espancamento do jovem negro Rodney King por policiais e conseguiu o apoio da comunidade negra e do júri em favor do jogador de futebol americano.

Mas o ponto central, que definitivamente fez Kim Kardashian integrar a lista de entrevistados do programa – que havia feito sua estreia em janeiro de 2018 com Barack Obama – foi ter surpreendentemente se tornado a mais importante celebridade no combate ao encarceramento em massa na atualidade. Essa virada aconteceu em outubro de 2017, quando a advogada Brittany K Barnett, defensora da reforma da justiça criminal, resolver fazer um tuíte sobre a situação jurídica de uma detenta e marcou o perfil de Kim Kardashian, no intuito de angariar seu apoio. O que poderia ser mais uma marcação que passaria despercebida em meio a milhares acabou chamando a atenção da socialite. “Uma pessoa que cometeu o seu primeiro delito com drogas receber o mesmo veredicto que Charles Manson não fazia sentido pra mim”, disse Kim a Letterman.

Tratava-se do caso de Alice Johnson, uma bisavó de 63 anos, que havia sido presa 22 anos atrás e tinha recebido uma pena de prisão perpétua. Na época em que foi detida, Alice tinha acabado de se separar, de perder um dos seis filhos e de ficar sem emprego. Sem fonte de renda, ela passou a se envolver com o tráfico de drogas. Sua função era fazer a ponte entre viciados e traficantes através de ligações telefônicas, enquanto cuidava da casa e dos filhos. Ao ser descoberto o esquema, foi considerada chefe de quadrilha. Resultado, os verdadeiros traficantes ganharam liberdade após poucos anos de prisão e acordos judiciais, e ela permaneceu presa até que os advogados solidários a sua causa entenderam que só a clemência do presidente da república poderia salvá-la. Por isso, Brittany K Barnett pensou na solução que parecia ser a mais desvairada e inalcançável: acionar Kim Kardashian, que era, então, apenas conhecida pelo reality show, pelas festas, viagens, propagandas, posts, selfies, likes, silicones, botox e sincericídios do marido ególatra Kanye West.

Na entrevista, Kim revela que todos os amigos e familiares ligaram e alertaram que, se ela pusesse os pés na Casa Branca, arruinaria sua reputação. “Tenho que pisar lá ou essas pessoas não terão chance”, respondeu. E, assim, após passar horas sendo treinada por advogados envolvidos na campanha de libertação de Alice Johnson, foi ao gabinete presidencial e posou para a imagem que, alguns anos atrás, seria absolutamente improvável aos olhos do mundo: o empresário e apresentador de TV Donald Trump sentado na cadeira de presidente dos Estados Unidos, e a socialite Kim Kardashian, ao seu lado, como respeitável ativista, lutando pela liberdade de uma mulher negra.

Uma semana depois, chegou o resultado: Kim conseguiu. E Alice, que, nesse período já havia perdido os pais e ganhado netos e bisnetos, finalmente pôde reencontrar-se com a família. Após o fato ganhar o noticiário, não demorou para que os carteiros de Los Angeles tivessem mais correspondências para entregar na mansão de Kim Kardashian. Incontáveis detentos que mofavam nas cadeias e seus familiares esperançosos pediam ajuda. Foi então que Kim se deu conta de que o caso de Alice Johnson não era isolado e que havia uma realidade terrível que diferia bastante da sua vida de poses em tapetes vermelhos.

A pequena grande sorte desses prisioneiros foi que eles encontraram o apoio de alguém com uma empatia grande e uma quantidade de seguidores maior: 190 milhões (Instagram) e 67 milhões (Twitter). A fama e os milhares de seguidores formam o trunfo que faz com que as portas se abram facilmente para Kim Kardashian: desde o presidente da república ao vice-governador da Pensilvânia, de quem, após uma reunião, conseguiu angariar o apoio para mais uma clemência. Naquele estado norte-americano, existe uma lei assustadora que encaminha à prisão perpétua o cúmplice de um assassinato, punindo severamente mais até do que o próprio assassino. A única saída é conseguir a clemência através de cinco votos favoráveis e unânimes de um conselho – algo comprovadamente difícil de alcançar.

Algumas das aberrações cometidas pelo sistema judicial norte-americano são relatadas no documentário Kim Kardashian West: The Justice Project, dirigido por ela mesma. O filme, disponível na Amazon Prime, narra um punhado de histórias de abusos, abandono, pobreza e violência que levaram pessoas sem ficha policial, algumas delas quando eram ainda menores de idade, a se envolverem em crimes e receberem veredictos desproporcionais, sendo julgadas como adultas. São contadas as histórias de Alice Johnson, Dawn Jackson, Alexis Martin, Momolu Stewart e David Sheppard.

Com tantos casos batendo à sua porta e tendo que lidar com termos e leis complexas, Kim Kardashian passou a cursar Direito e formou uma equipe de advogadas para resolver esses casos. Até agora já foram cinco clemências, além da interrupção da execução de Rodney Reed, condenado ao corredor da morte, no dia 20 de novembro de 2019, Dia da Consciência Negra no Brasil. Os advogados haviam apresentado novas evidências de que ele poderia ser inocente da acusação de estupro e assassinato, mas a data não foi cancelada até que houve uma comoção nas redes sociais com o apoio de Kim Kardashian, Rihanna e a assinatura virtual de 2,9 milhões de pessoas.

“Por causa de seu trabalho em prol do First Step Act, há agora 7 mil pessoas que voltaram para suas casas e famílias”, afirmou Jessica Jackson, advogada de direitos humanos, professora de Direito de Kim Kardashian e cofundadora do #cut50, uma organização que visa reduzir a taxa de encarceramento nos Estados Unidos. Kim havia reforçado o grupo que convenceu Trump a ir contra seus “princípios”, seu eleitorado de angry white men e assinar o projeto de lei federal que, dentre outros itens, garante liberdade por bom comportamento, por meio da participação em programas de reabilitação, que dá aos juízes mais espaço para evitar diretrizes rígidas de condenação e elimina cláusulas “empilháveis” que deixam os infratores cumprindo penas consecutivas por crimes cometidos com armas de fogo.

O número de 7 mil pessoas beneficiadas, até o final da gravação do documentário, é surpreendente, mas ainda existe um longo percurso, tendo em vista que os Estados Unidos são o país que mais encarcera, com 2,2 milhões de prisioneiros: a maioria, negros. Um em cada 17 brancos é preso; enquanto um em cada três negros é preso. E todos os dias, 12 pessoas, em média, morrem nas penitenciárias. Dos 327 milhões de norte-americanos, 65 milhões têm ficha criminal. De acordo com o documentário, 80% das mulheres encarceradas relataram abusos que não foram levados em consideração como circunstâncias atenuantes nos julgamentos. “Como é importante os juízes saberem sobre o que essas meninas passaram”, afirma Kim.

O documentário mostra os encontros de Kim Kardashian com as pessoas detidas cujas histórias são narradas. Em um deles, conversa com Alexis Martin, uma adolescente, que, desde cedo, teve que sobreviver por conta própria, pois não tinha o apoio dos pais, viciados em drogas. Ela acabou sofrendo várias violências sexuais e foi cooptada pelo tráfico sexual. Sua tentativa de fuga terminou mal e culminou com a morte de um dos traficantes. Olhar para a conversa entre Alexis e Kim, frente a frente, é ver o encontro raríssimo de mundos extremos, o das pessoas totalmente vulneráveis e o das altamente privilegiadas. Estavam diante de si, as provas de como uma família pode, muitas vezes, contribuir para destruir ou construir um indivíduo.

Apesar de sua família ser descendente de um passado difícil, enfrentado pelos únicos Kardashians sobreviventes ao genocídio armênio (que, no início do século passado, matou brutalmente mais de 1 milhão de pessoas naquele país), o contemporâneo mundo dourado de Kim Kardashian vem sendo responsável por retroalimentar uma perniciosa cultura de aparências, que envolve sites e revistas de fofocas e o mundo ilusório do Instagram. Mesmo sendo uma mulher extremamente bonita, sua busca incessante por (mais) beleza incentiva o mercado de intervenções cirúrgicas e dermatológicas, levando milhares (ou milhões?) de mulheres a intervirem em seus corpos como se colocassem apenas um batom. Sendo uma das maiores influencers do planeta, Kim é (era?), na verdade, aquilo que as mães chamavam de má influência para os filhos. Mas isso antigamente se referia a palavrões e drogas.

Hoje, a “má influência” leva a outro comportamento, com o de garotas que nunca estão satisfeitas com seus rostos e corpos, a começar pela própria Kylie Jenner, que modificou-se totalmente à imagem e semelhança da irmã Kim Kardashian. No entanto, a reviravolta ativista da influencer não somente permitiu que diversos presos tivessem uma segunda chance, mas ela também se deu uma segunda chance de entrar para a história com uma contribuição melhor do que ser a rainha das celebridades. Ao dar a oportunidade para que um público maior saiba que há pessoas de verdade, boas e interessantes por trás dos números em uniformes laranjas atrás das grades, ela também mostra que é mais do que um rosto bilionário com silicone, botox, maquiagem e milhões de seguidores. Que mais influencers, como ela, Felipe Neto e Anitta, utilizem o poder de suas plataformas públicas para transformar o mundo e que esses novos exemplos sejam seguidos. 


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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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