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Mirante

"Por que não existe band-aid preto?"

TEXTO Débora Nascimento

05 de Setembro de 2017

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ILUSTRAÇÃO Débora Nascimento

No começo de agosto, soube que Serena Williams ia estrelar o novo filme de Woody Allen. Que ótimo, pensei. Fui, então, pesquisar mais sobre o anúncio. Na realidade, entendi errado. Escrevi o nome da tenista (que já tinha feito participação em várias séries e filmes) e do diretor. O resultado: era Selena Gomez, a cantora e atriz. Não é novidade que Woody Allen costuma colocar em seus elencos atores no auge da fama. Isso já aconteceu com, por exemplo, John Cusack, Leo DiCaprio, Scarlett Johansson, Emma Stone e até Jason Biggs. Todos baixaram seus cachês para estar nos tradicionais créditos preto & branco, em fonte Windsor, com jazz ao fundo. Todos eram brancos. Não deixa de intrigar o fato de que Serena Williams seria uma das raras presenças negras na vasta filmografia do diretor.

Em 2014, no musical Bullets over Broadway (baseado em seu filme Tiros na Broadway), segundo o New York Daily News, ele chegou ao cúmulo de pedir que não fossem escalados atores negros. Isso numa história ambientada no... Harlem. O espetáculo, dirigido por Susan Stroman, tem como cenário principal o Cotton Club, casa noturna frequentada somente por brancos, mas que apresentava atrações negras do jazz. Ao New York Observer, o cineasta argumentou: “(Não escalo atores específicos) A menos que eu escreva uma história que precise deles, não se contrata gente com base na raça. Você contrata quem é certo para cada papel”.

Não deixa de ser estranho que, em 77 roteiros, Woody Allen nunca tenha criado um protagonista negro, mesmo que seus filmes, em sua maioria, sejam ambientados em Nova York. Em mais de 50 anos no cinema, foram apenas três atores negros: Hazelle Goodman, em Desconstruindo Harry (1997), interpretando uma... prostituta; Sonia Rolland encarnando Josephine Baker em Meia-noite em Paris (2011), sem falas; e o ator Chiwetel Ejiofor (12 anos de escravidão), que, em Melinda e Melinda (2004), tem uma participação um pouco mais significativa.

Essa ausência de personagens negros não é característica apenas da obra de Woody Allen. Os grandes diretores (e estúdios) que contribuíram para a construção do cinema norte-americano também realizaram seus trabalhos ignorando a diversidade racial no país: Alfred Hitchcock, William Wyler, Billy Wilder, Elia Kazan, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick – dele podemos citar apenas o cozinheiro do hotel de O iluminado (1980), Hallorann (Scatman Crothers). As gerações seguintes idem: Tim Burton, David Lynch, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Gus Van Sant...

Recentemente, Sofia Coppola, em sua refilmagem de O estranho que nós amávamos, retirou uma importante personagem negra da trama, Hallie (Mae Mercer, na foto abaixo com Clint Eastwood). E foi acusada de whitewashing, prática da indústria cinematográfica de excluir papéis não brancos ou mesmo utilizar atores brancos para interpretar outras etnias, como o caucasiano Mickey Rooney caricaturando um japonês em Bonequinha de Luxo (1961). Recentemente, os filmes Death Note (Netflix, 2017), Doutor Estranho (2016) e Vigilante do Amanhã (2017) geraram polêmicas ao colocar atores brancos para interpretar personagens asiáticos.

Isso tem consequência imediata na cor da plateia: branca. Afinal, é a única que costuma encontrar sua história narrada nas telas. Segundo pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia, 71,7% dos filmes lançados nos EUA entre 2011 e 2015 tinham personagens brancos. O restante do percentual era distribuído em outras etnias. No Brasil, isso não difere. Estudo da UERJ afirmou que esse número é de 86%, na última década. “Quando a maioria dos negros nos Estados Unidos tiveram pela primeira vez a oportunidade de ver filmes e programas de TV, eles o fizeram perfeitamente conscientes de que a mídia de massa era um sistema de conhecimento e poder que reproduzia e mantinha a supremacia branca. Ver televisão, ou filmes comerciais, envolver-se com suas imagens, era envolver-se com a negação da representação negra”, escreveu Bell Hooks no ensaio O olhar opositivo – a espectadora negra (1992), traduzido pela jornalista Maria Carolina Morais e publicado em maio no blog Fora de Quadro, de Carol Almeida.

Em post publicado em julho no seu blog, a jornalista reclamou a ausência da questão racial e a pouca presença de atrizes negras na série The handmaid's tale, indicada a 13 categorias do Emmy, premiação que acontece no dia 17 deste mês. Para quem assistiu à fantástica produção, o enredo apresenta um futuro distópico em que uma facção religiosa toma o governo norte-americano e retira os direitos das mulheres, transformando-as em escravas sexuais, destinadas a procriar para famílias ricas inférteis. A discussão é que Margaret Atwood, autora do livro O conto da Aia (1985), que originou a série, se apropriou do histórico de violência sofrido pelas mulheres negras e o colocou na pele das mulheres brancas. A propósito, como seria um futuro distópico, se houve e há violência pior contra as mulheres em muitos países do Oriente Médio?

Essa maior cobrança da presença de atores negros nos filmes e séries vem sendo intensificada nos últimos anos, estimulada pelo compartilhamento de ideias nas redes sociais. Talvez o ponto decisivo disso tenha ocorrido no #Oscarsowhite do ano passado e após o discurso de Viola Davis ao ser a primeira intérprete negra a ganhar um Emmy de Melhor Atriz. “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”, afirmou em 20 de setembro de 2015.

Além de ser a primeira pessoa negra a dispor do trio Oscar-Emmy-Tony, Viola Davis é um dos poucos exemplos de atriz negra no protagonismo de uma série (How to get away with murder). As séries, mais queridas produções televisivas norte-americanas, foram e ainda são, em sua maioria, estreladas por atores brancos e nelas praticamente não aparecem negros. Estão nessa lista, produções de diversas épocas, Seinfeld, Friends, Sex and the City, Girls, Two and a half-man, How I met your mother, Desperate housewives...

A pouca realização de séries com atores negros parece uma espécie de apartheid cultural na TV. De um lado, muitas produções encabeçadas por brancos; do outro, algumas poucas por negros: The Jackson 5ive (1971-1972), The Cosby Show (1984-1992), Um maluco no pedaço (1990-1996), Chappelle`s Show (2003-2006), Everybody hates Chris (2005-2009). Em 2017, com o maior espaço proporcionado pelos canais por assinatura e os serviços de transmissão online, a quantidade dessas séries, pelo menos, aumentou: Greenleaf, Scandal, Empire, Black-ish, Pitch, Luther, Insecure, Mister Brad, The get down, Queen Sugar, Luke Cage, Dear White People.

Em fevereiro deste ano, ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, Viola, mais uma vez, fez um discurso contundente. Uma frase resumiu a importância dos atores para a humanidade: “Somos a única profissão que celebra o que significa viver uma vida”. Então, nada mais justo que seja ampliado esse olhar sobre a vida.

Alguém pode questionar que, em vez de presença no cinema, é preciso cobrar mais diversidade racial nas universidades, bolsas de pesquisa, chefias, exigir melhores condições de trabalho, educação, saúde. Sim, devem ser feitas essas reivindicações em diversas áreas. Evidentemente que a maior parte da população negra norte-americana está mais preocupada em não ser vítima (fatal) do racismo, do que com possíveis temas pequeno-burgueses de muitas tramas cinematográficas. Mas, enquanto houver seres humanos, questões afetivas e psicológicas serão universais e sua difusão vai colaborar, de alguma forma, para o desenvolvimento da empatia e da ideia de igualdade.

Por isso é difícil medir o quanto filmes como O sol é para todos, A cor púrpura, Preciosa, 12 anos de escravidão, Malcolm X, Um grito de liberdade, Mississipi em Chamas, Hurricane, Branco sai, preto fica, Faça a coisa certa, A outra história americana contribuíram para o crescimento dessa empatia.

Adivinha quem vem jantar é um desses filmes. Apresentou o elegante Sidney Poitier como o protagonista John Prentice, que vai conhecer os pais da namorada branca, para pedi-la em casamento. Ambientado em Los Angeles, onde a população negra sofria nas mãos de uma polícia arbitrária, o longa não mostra nenhuma situação violenta e nenhum personagem racista. O pai e a mãe (Spencer Tracy e Katherine Hepburn) da moça dizem estar apenas preocupados sobre como o casal e seus futuros filhos enfrentarão o preconceito da sociedade.

Lançado há 50 anos, até hoje esse longa deixou uma pergunta: e se Prentice não fosse um renomado médico, se não se vestisse de terno e não tivesse o cabelo bem aparado, como o público reagiria a ele? Prentice, em plena era do Black Power e dos Panteras Negras, foi pensado para ser “palatável” à plateia branca conservadora.

Cinquenta anos depois, utilizando esse mesmo gancho do rapaz negro que vai conhecer a família branca da namorada, o comediante Jordan Peele fez um dos mais surpreendentes filmes de 2017, Get out! (foto abaixo). Em vez de realizar um drama, o diretor estreante optou pelo terror e subverteu clichês do gênero.

Get Out! é um dos maiores exemplos deste ano bastante prolífico em obras audiovisuais que discutem a questão racial. Juntam-se a ele quatro imprescindíveis documentários, o brasileiro Menino 23 e três concorrentes ao Oscar de Melhor Documentário que ajudam a entender a situação dos negros nos Estados Unidos: A 13a Emenda, Eu não sou seu negro e O.J. Made in America, vencedor da categoria. Este último aborda a trajetória e o julgamento do jogador e ator OJ Simpson, também foco da premiada série de TV America Crime Story: The people vs OJ Simpson.

A propósito, o vencedor do Oscar de Melhor Filme, Moonlight, discute questões como identidade e sexualidade. Só com atores negros. Outros filmes marcantes: Estrelas além do tempo (adaptação do livro Figuras Ocultas – A história das mulheres afro-americanas que ajudaram a ganhar a corrida espacial, de Margot Lee Shetterly), Fences (Denzel Washington, também diretor, e Viola Davis interpretaram os mesmos papéis na Broadway e que foram premiados com o Tony Awards em 2010), Um reino unido (o presidente de Botswana se casa com uma mulher branca e é exilado de sua terra, época em que a relação inter-racial ainda era ilegal), A Torre Negra, adaptação da obra de Stephen King, protagonizada por Idris Elba – a propósito, o ator inglês estava cotado para ser o novo 007 (o primeiro 007 negro), mas Daniel Craig não resistiu ao cachê milionário e continua no papel.

Simboliza bem como o mundo funciona e ainda tem muito a melhorar uma pergunta feita num especial de stand-up na Netflix. O ator e comediante negro Deon Cole encara seriamente a plateia branca e indaga: “Por que não há band-aid preto?” Todos riem. E ele continua: “Por que a Johnson & Johnson nunca fez um band-aid preto?” O público segue gargalhando. Pode parecer um questionamento estapafúrdio e cômico. Afinal, quando os espectadores que estão ali nasceram, o band-aid já era da cor de pele. E, assim como o próprio band-aid, o termo “cor de pele” faz parte de um paradigma instaurado no imaginário coletivo: “Cor de pele” (branca). Mas a sua indagação faz sentido.

Desde o lançamento do curativo, em 1920, a Johnson & Johnson vendeu mais de 100 bilhões de unidades no mundo inteiro. Para pessoas de todas as raças. Só em 1988 foi criada “A bandagem exclusivamente projetada para pessoas de cor”, o Ebon-Aid, nos tons de alcaçuz preto, café marrom, canela e mel bege. Mas, apesar de ser popular entre ativistas, o produto vendeu pouco, sofrendo com a esmagadora concorrência da Johnson & Johnson. Depois de perder seu investimento original de US $ 2,6 milhões, a empresa Panayiotis faliu em 2002.

No final de 2015, a ideia retornou. Dessa vez, encampada pelo professor Toby Meisenheimer, pai de três crianças, duas brancas e uma negra, esta adotada. Ao ver este seu filho machucado, pensou: “Não acredito que vivi 38 anos sem perceber que os curativos vinham em um formato que só combina com um tom de pele. Isso não está certo”, contou ao Huffpost.

Criou, então, a Tru-Color Bandages, em três tons diferentes. Antes de usá-lo pela primeira vez, deu a opção ao garoto: “cor de pele” ou marrom escuro? A criança preferiu este e disse: “Esta bandagem é para mim, pai. Esta corresponde a mim". O fundador da empresa contou que vai usar a atadura escura para mostrar como é estar no lugar inverso. “Durante anos, fui de uma família só de brancos. Depois que adotamos crianças com cor de pele que não eram como as nossas, começamos a ver as coisas de forma diferente. Quis ser parte da solução. Não podemos consertar de uma vez tudo o que está errado nas questões raciais, mas podemos dar um passo nessa direção, mesmo que seja com um curativo que combina melhor com a individualidade de alguém.”

Além da performance do comediante Deon Cole, outras opções de stand-up na Netflix que discutem a questão racial são o especial de Dave Chappelle (2017) e o da força da natureza Richard Pryor (1979). Falecido em 2005, o gênio da comédia disse certa vez: “Fui para o Zimbábue. Agora sei como as pessoas brancas se sentem na América: relaxadas. Porque, quando ouvi o carro da polícia, eu sabia que não estavam vindo atrás de mim”.

A observação de Pryor teve mais uma constatação na semana passada. Um vídeo ganhou o noticiário mundial. Nele, um policial aborda uma mulher numa avenida da Georgia (EUA), um dos estados confederados. Ela fica nervosa ao ter que se movimentar dentro do carro, com medo de que o agente atire nela por imaginar que pegaria uma arma. “É que eu já vi vários vídeos de policiais…”, argumentou a motorista, em referência aos muitos casos em que a polícia atirou em condutores. O tenente Gregg Abbott a tranquilizou: “Todos os vídeos que você viu, você viu os negros serem mortos. Você não é negra. Lembre-se: nós só atiramos em pessoas negras”.

Planeta Terra, 2017.

#LibertemRafaelBraga

 

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