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Matéria Corrida

Ricardo Brennand (Cabo de Sto. Agostinho, 1927-Recife, 2020)

TEXTO José Cláudio

04 de Junho de 2020

Frans Post, 'Aldeia', óleo sobre madeira, 54,9 × 62,9 cm (acervo: Instituto Ricardo Brennand)

Frans Post, 'Aldeia', óleo sobre madeira, 54,9 × 62,9 cm (acervo: Instituto Ricardo Brennand)

Imagem Reprodução

Não faz muito tempo que vi Dr. Ricardo Brennand pela última vez, no velório do pintor Francisco Brennand. Também não deve fazer mais de duas décadas que o conheci pessoalmente aqui em casa trazido por Renato Gouvea. Logo nos entrosamos como se nos conhecêssemos de muito tempo, dado o interesse pela pintura de Pernambuco e acho não lhe desagradaria ser evocado emoldurado pela lembrança dos quadros de Frans Post e nossos pintores até hoje. O orgulho com que exibia sua coleção fazia com que nos orgulhássemos. Como disse numa reportagem exibida depois de sua morte: “Isso agora é de vocês”. Espero que esse belíssimo acervo continue inteiro e nosso.

Vejo-o andando devagar aqui dentro de minha casa, que emenda sala e atelier, solenemente carregando sua ancianidade e quilos, procurando pelas paredes alguma coisa para ver como se essa fosse sua missão no mundo, não para possuir, quadros, esculturas, objetos, mas para salvá-los do esquecimento, do desaparecimento, da destruição. Como se fosse responsável por essa reserva que acima de qualquer um nós é da humanidade.

Velho na idade, nenhum cansaço se notava na sua expressão, no seu interesse pela vida. Ele nos olhava como se quisesse aprender, como se quisesse saber de alguma coisa que tivéssemos para lhe dizer, já de antemão se colocando à nossa disposição para quem sabe alguma parceria, como se tivéssemos alguma proposta que valesse a pena. “Vamos em frente”, parecia nos dizer, “vamos fazer alguma coisa”.

Sempre vinha aqui em trajes caseiros. Não me lembro dele, pelo menos aqui em casa, de paletó nem apertado em gravata. Falava pouco. Olhava ao redor como a vagar ou à procura de alguma porta para o infinito.

Certa vez trouxe uma foto ampliada quase tamanho de uma página de jornal e me entregou sem dizer nada. Olhei e vi o castelo em meio de outras edificações e milhares de árvores numa vista aérea que abrangia sua propriedade inteira até perder-se no horizonte. “Queria que você pintasse isso.” Tornei a olhar, já nem pensando em possíveis dificuldades, a gama infinita de cores, o cuidado em manter a perspectiva aérea, mas no trabalho braçal, na execução. Perguntei o tamanho do quadro que ele queria. Não chegava a ser um painel. Coisa de pouco mais de um metro em sua maior dimensão. Calculei o preço pelo metro quadrado. Só pedi que tivesse paciência. Ia demorar. Ele disse que podia demorar o tempo que fosse preciso. Passei mais de um ano. Pintava outro quadro e voltava a ele. Dr. Ricardo nunca me ligou para saber da encomenda. Quando liguei avisando o término, ele veio na mesma hora. Olhou demoradamente. “Pensei que não ia conseguir”, ele disse. “Um quadro desse você não devia cobrar por metro e sim pelo trabalho.” Mantive o valor, embora achando que ele tinha razão.

Voltou aqui outras vezes. Numa dessas, trabalhando sobre encomenda, tudo o que tinha pintado já tinha entregue, como aliás tinha sido o caso do quadro dele. Mas havia dois quadros que tinha pintado por puro lazer ou curiosidade, mesmo sabendo que ninguém ia botar na parede. Um amigo tinha tirado uma série de fotos de um acasalamento de jumentos. Juntando um pedaço daqui outro dali, consegui montar a cena para dois quadros, um do namoro e outro da cópula, tudo bem definido. Ele adorou. De fato eu guardava esses quadros como preciosidades e só mostrei por se tratar de colecionador. E assim os viu. Até hoje tenho vontade de revê-los.

Numa dessas visitas, quando já ia saindo, perguntei sobre a disputa do nome “Brennand”, entre ele e Francisco, se de fato ocorria. Ele mal parou para responder por cima do ombro: “Quando um não quer, dois não brigam”.

Sempre compareci aos eventos do Instituto Ricardo Brennand, exposições, conferências, lançamento de livro, assim como tive oportunidade, ou melhor, necessidade de ir à biblioteca, sendo recebido pela competência e simpatia de Aruza. Ia consultar livros de pintura, mas não somente. Agradeço ao historiador Leonardo Dantas o resumo que segue.

“Biblioteca José Antônio Gonsalves de Mello

A Biblioteca José Antônio Gonsalves de Mello, localizada na torre do prédio da Pinacoteca, possui pouco mais de 51.000 itens catalogados, com especial enfoque para a história colonial brasileira, destacando-se o período Brasil-Holandês (1630-1654) e coleções outras do Instituto Ricardo Brennand.

O conjunto tem sua origem no acervo bibliográfico e documental reunido pelo historiador pernambucano José Antônio Gonsalves de Mello Neto (1916-2002), constituído de 3.318 títulos (5.175 exemplares), adquirido por Ricardo Brennand no ano de 2000.

Em 4 de março de 2015, os filhos de José Antônio (Diva, Maria Dulce e Ulysses Pernambucano de Mello), acresceram ao acervo original, cerca de três metros cúbicos de originais, anotações, diplomas, condecorações, correspondência pessoal e documentos, utilizados em vida por aquele historiador.

A peculiaridade deste acervo se prende às anotações manuscritas, ora em folhas soltas ora na própria publicação. A transcrição deste material está sendo realizada por sua filha, Diva Mello, desde 2009. Desse trabalho, nos ajustes finais, já foram produzidas mais de 3.000 folhas digitalizadas, da correspondência e anotações outras, escritas em português, inglês, holandês, espanhol e francês, que vêm trazendo um substancial incremento à pesquisa histórica em nossa região.

A Biblioteca reúne em nossos dias 42.054 volumes, que, acrescido com 9.099 avulsos, forma um total de 51.173 itens.

Dentre suas muitas preciosidades bibliográficas estão duas obras aquareladas: o Rerum per Octennium in Brasiliae, de Gaspar Van Baerle, e Historia Naturalis Brasiliae, de Willem Piso e Georg Marcgrave, edições patrocinadas pelo conde João Maurício de Nassau e impressas por Elzevier, respectivamente nos anos de 1647 e 1648. E o único exemplar conhecido do opúsculo Legatio Pernambucensis, de Franciscus Plante (Leiden, 1642), também patrocinado pelo Conde João Maurício de Nassau.

Além dos livros do renomado estudioso do Brasil Holandês José António Gonsalves de Mello, o Instituto Ricardo Brennand incorporou ao seu conjunto os acervos do estudioso da obra do sociólogo-antropólogo Gilberto Freyre, Edson Nery da Fonseca; o arquivo de música colonial brasileira reunido pelo padre Jaime Cavalcanti Diniz; da biblioteca da Sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco (1875); do Conselho Consultivo e Deliberativo do extinto Instituto do Açúcar e do Álcool - IAA, do professor Amaro Quintas e do escritor Gileno de Carli, preservando, em Pernambuco, esse imensurável conjunto bibliográfico e documental da maior importância para os Estudos Brasileiros.”

Um homem feliz. Grato à sua terra. Bonito, isso.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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