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Matéria Corrida

Frutas

TEXTO José Cláudio

01 de Agosto de 2017

"Oiti-tubá", óleo sobre tela

Pintura Roberto Ploeg

Como lembrou um colega de infância, Breno, eu detestava duas frutas: pinha e figo. Tinha gosto de percevejo-do-mato, um purgante. Figo, eu achava que era comida de passarinho, quem sabe por causa da cantiga de uma história de Trancoso: “Capinheiro do meu pai/ Não me corte meu cabelo/ Minha mãe me penteou/ Minha madrasta me enterrou/ Pelo figo da figueira/ Que o passarinho picou”. Hoje gosto das duas. Não sei quando se deu a passagem do não gostar para o gostar como não sei até que ponto sentiria falta se desaparecessem. Minto: doce de figo em calda ou caramelado são imperdíveis. Recentemente adotei a atemoia, de formato parecido com o da pinha, porque vi na televisão que era mais rica em potássio que a banana. O gosto até que lembra também. Mas quando começou a aparecer pinha, não tive mais coragem de comer atemoia.


Também vi na televisão que cebola tem potássio. Dizem que potássio evita cãibra, de que morro de medo. Já tive algumas horríveis. Passou com uns flaconetes de um remédio chamado Pidomag, que deixaram de fabricar, substituído por outro do mesmo nome, mais não sei o que, e que em mim teve efeito contrário. As piores cãibras da minha vida. Uma noite acordei Leonice minha mulher para fazer pressão apoiando as mãos com o peso de todo o corpo na parte posterior da minha canela para baixar um vergão que se levantou igual a um rebolo de cana, uma coisa inacreditável.

Quando eu era menino via cantarem Quebra quebra guabiraba/Quero ver quebrar/Quebra lá que eu quebro cá/Quero ver quebrar. Longe de mim pensar que “guabiraba” era fruta. Só se for coco, mas coco não é fruta. Até que um dia, já depois de casado, ouvi dizer que em Paudalho tinha doce de guabiraba. Aliás foi um bibliotecário da Faculdade de Direito, Pereira (José Pereira da Silva), quem nos presenteou com uma lata do doce. Fui conferir. E vi na estrada uns pés de guabiraba, altos, parecidos com mangueiras, as frutinhas imitando araçás. Será que inda existem?

Outra das minhas frutas prediletas, também lembrança dos tempos de Ipojuca, é oiticoró. Às vezes a marchand Madeline trazia da Serra da Russinha (“Entre o sétimo túnel da Russinha/ Trem da Serra descia em desfilada/ Mas de um tombo que eu dei na retaguarda/ Rebolei todo o trem fora da linha./ Atendendo a uns amigos que ali vinham/ E que alguns não podiam ter demora/ Dum cardeiro peguei, fiz uma escora/ Alavanca de dois cambão de milho/ Novamente botei o trem no trilho/ Maquinista apitou e foi embora”) e um ou outro amigo que sabiam dessa minha predileção, como Clóvis Cavalcanti, acho que de Gravatá, ou Antônio Portela, de um pé numa casa da estrada de Beberibe. Existe um pé na casa de Paulo Cavalcanti, no Fundão, onde o portão é sempre aberto, embora certa vez eu tenha visto um rapazote pulando o muro a poucos passos do portão aberto; ali hoje mora Ofélia, perto dos cem; pé esse que nunca botou, achava Paulo porque o oitizeiro coró precisa de outro por perto para produzir. Eu plantei no meu quintalzinho um pé de oiticoró que deu uma única fruta, graúda e boa, e depois as frutinhas logo ficam pretas cor de carvão. Já botei adubo, não adiantou. Uma mulher na Rua da Praia, que vende macaíba, às vezes traz oiticoró de Itapissuma, mas este ano não trouxe nenhum. O oitizeiro costuma dar pelo mês de abril ou maio. Certa vez o pintor Fernando Areias me trouxe um saco com bem uns cem oiticorós encomendados a um homem numa feira de madrugada na Praça de Casa Forte. Aliás duas vezes, de outra feita comprados por Fernando na feira de Caruaru.

Existe também o oititubá. Quem me mostrou pela primeira vez foi o moldureiro Augustinho. Depois encontrei na Rua da Praia, na mesma mulher do oiticoró. Não lembro a época. O pintor Roberto Ploeg pintou dois quadrinhos, um do oiticoró e outro do oititubá, e me deu os dois.

Minha filha Maria Júlia, que mora nos Estados Unidos, eu estava na maior torcida que chegasse ainda na safra de pitomba. Ela veio agora em junho. Manoel Vicente, o chofer que eu ando com ele, foi Maria chegando e ele aparecendo com dois belos cachos dessa frutinha de que toda moça gosta, embora quem não conheça não veja nada ali. No dia seguinte Maria deu conta dos dois cachos: saiu arrumando as cascas e caroços numa fila no pau da varanda na maior felicidade. Certa vez, a mulher do pintor sergipano Jenner Augusto, Dna. Luíza, me pediu, da Bahia onde moravam, que lhe mandasse urgente uns cachos de pitomba, que a filha grávida estava com desejo. A safra ainda nem tinha começado direito. Mandei pela Varig uns dez cachos numa caixa de papelão, as pitombas ainda verdosas. Ela agradeceu e pediu mais. Ela disse que na Bahia não existia pitomba. A filha, Kátia, devia ter conhecido pitomba no Sergipe.

Outra frutinha que não tem mais na Bahia, creio, é araçá, já que lá chamam goiaba de araçá. No disco de Caetano Araçá azul a ilustração da capa é uma baita goiaba. Em Ipojuca tinha um velho, se não me engano de nome Gaudêncio, que pegava as latas de manteiga, umas maiorezinhas, que mamãe juntava para ele, e ele trazia cheias de doce de araçá, em corte, que fazia como ninguém. No Engenho Montevidéu, em Ipojuca, íamos Breno, Henrique, eu, às vezes até nossas irmãs, apanhar araçá pelo cercado. E também cajá. Aqui no Recife os balaeiros gritavam “Jacaiu! Cajá!” cujo nome no Amazonas é taperebá. Ah, as frutas do Amazonas. Capítulo à parte. No barco, com Vanzolini, no Rio Madeira, todas dez da manhã o cozinheiro Walter botava na mesa uma jarra de “vinho”, como chamam lá refresco, de “cupu”. Cupuaçu. Os pedaços boianado.

Ah, Breno, faltou massaranduba. Será que era de massaranduba aquele pé enorme no Cupe onde os guaiamuns vinham comer?

 

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