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Matéria Corrida

Darel 3/6

TEXTO José Cláudio

05 de Agosto de 2019

Darel Valença, pintura sobre papel, 51 x 73 cm, década de 1980

Darel Valença, pintura sobre papel, 51 x 73 cm, década de 1980

Imagem Reprodução

Então Darel deixou as aulas de litografia e aí apareceu o emprego de diagramador no Última Hora. No jornal, de Samuel Weiner, trabalhavam também, como redatores, Vinicius de Moraes, João Cabral e Nelson Rodrigues. Alguém escrevia uma historieta tirada da vida policial, contando-a de maneira gaiata e tais historietas deviam ser ilustradas no mesmo tom. Darel, admirador de Kubin, não ia se passar para fazer ilustraçõezinhas gaiatas, e por isso o jogaram na paginação. O jornal saía com uma página inteira de desenho ora de Augusto Rodrigues ora de Nássara. Darel sempre desenhava e preparou duas páginas inteiras como as que saíam de Nássara e Augusto, esperando uma oportunidade. Um belo dia entra Samuel Weiner com as mãos na cabeça porque Augusto Rodrigues tinha ido pro Recife e não deixara a página. Aí Darel abriu a gaveta e mostrou uma página das que tinha prontas e que desenhara olhando pela janela o Morro das Sete Coroas, e que via dali do seu birô. Samuel Weiner mandou logo Vinicius escrever um texto, e a página teve o maior sucesso. Teria sido mesmo o grande acontecimento do ano. Joel Silveira então resolveu publicar um poema, ou uma coletânea de seus poemas de poeta bissexto, sob o título de O marinheiro e a noiva, com gravuras de Darel e tipografia de João Cabral, que a essa altura havia montado uma tipografiazinha para lidar com os tipos, manuseando-os ele próprio, como havia sugerido o médico para ver se o livrava, com esse trabalho manual, da dor de cabeça que o acompanha até hoje. Joel Silveira, um todo-poderoso da imprensa da época, vendeu por telefone toda a edição de cem exemplares a preço elevado, inclusive para descolar uma grana para João que naquele período estava numa pior financeiramente. Ainda sobre João Cabral, Darel informou que “o louco furioso Carlos Lacerda” acusou João Cabral de comunista baseado no fato de possuir a tal tipografia. Darel lembra expressões italianas, “porta laiella” (“traz má sorte”), “faciamo le corne” (“façamos os chifres”, gesto de fechar a mão e apontar com o indicador e o mínimo, para afastar o azar, que Carybé completa passando a mão direita no testículo esquerdo), “bocchinara” ("chupona”, em baixo calão romano, por extensão “prostituta”). Por artes de Arnaldo Pedroso d’Horta, ajudado por amigos de São Paulo e Murilo Mendes em Roma, a Fundação Rotelini me deu a bolsa para a Itália, através do Instituto Ítalo-Brasileiro, dirigido por Edoardo Bizarri (que traduziu “Grande Sertão – Veredas” para o italiano, e acho que João Cabral).

Não sei como me encontrei com Darel, se lhe deram meu endereço ou a mim o dele. O fato de eu estar em Roma havia quase um ano, afigurava-se-me compensar a diferença de currículo — de tal modo a Europa nos enche de pernosticismo —. Não cheguei humildezinho: fui logo dizendo o que ele não podia deixar de visitar na Itália. A resposta foi: “Vou tomar nota para não ver”. Mas sempre nos aproximamos, pois lembro de seu filho Bruno e da mãe dele, Creusa — revia-a anos depois numa exposição de Marcelo Grassmann em São Paulo — e pelo fato de ter-lhe transferido a única herança que deixei em Roma: a amizade do pintor Patrizio Mercuri.

Nunca mais vi Darel. Acompanhava pela imprensa o seu trabalho, a fase de desenhos de cidades, que me lembravam Perúgia e ao mesmo tempo os cárceres de Piranesi, e que Frederico Morais chamou de cidades-máquina, cidades-Usina Caten-de. Até que um dia ele apareceu aqui no Recife, veio à minha casa, já esta em que moro em Olinda, fez amizade com todos — minha mulher adora-o, Maria minha filha —, deu uma camisa e se não me engano um sapato a Mané meu filho. Eu levei ele na zona, ele fez uma exposição em que usou fotos tiradas lá. Uma das mulheres, uma magrona alta muito jovem, àquela época com 17 anos, se jogou de um prédio tempos depois, e Darel tem um desenho somente a cama e uma toalha vermelha jogada no meio da cama, em que vejo uma antecipação da suicida na poça de sangue.

Sobre sangue, em Catende, ele presenciou um administrador dar, de cima do burro, uma cipoada com o cipó-pau nas costas de um homem, a pretexto de estar com a calça rasgada — por penúria e não por imoralidade — que ele caiu botando sangue pela boca.

Darel, em sua integridade, deve considerar que isso de exaltações regionais deve ficar para aquele que está em cima do burro. Ele Darel é o que está embaixo, mesmo que o cubram de ouro, mais próximo dos servos do que dos amos bonachões por vezes homenageados nos versos do seu conterrâneo de Palmares Ascenso Ferreira. Servos cujos folguedos — mesmo estes — são transmutação da dor.

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