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Matéria Corrida

Coisas ao contrário

TEXTO José Cláudio

01 de Novembro de 2018

Imagem Reprodução

A Cepe lançou recentemente de Luís Rios a biografia de Hermilo Borba Filho e, na ocasião, do mesmo Hermilo, Dez histórias do Nordeste sobre dez desenhos de José Cláudio. A origem do nosso livrinho está bem explicada na apresentação de Wellington de Melo e prefácio da crítica de arte Clarissa Diniz. Digo “nosso livrinho” encorajado pelo fato de as ilustrações terem vindo antes das histórias, passando pois o escritor a ilustrador dos desenhos: “já é tempo de se fazer certas coisas ao contrário para ver se assim daremos um pouco de jeito nas coisas” (Hermilo, pg. 15).

Quando Hermilo me trazia as histórias escritas sobre os desenhos, uma por semana, e os desenhos também levados um por semana, eu me surpreendia com a interpretação dele, que não tinha nada com a minha, caso eu fosse escrever a história.

Devo assinalar, do texto de Clarissa, que não fui eu, e sim Hermilo, quem deu título às histórias, assim como ao livro.



Mas vamos às ilustrações. E às histórias. No primeiro desenho, da história Ladrão de cavalo, eu inda ia continuar, inventar alguma figura a partir dessa linha curva vazia que terminou não sendo nada nem no desenho nem na história. Tudo mais virou personagem, galo, cavalos, uma figura humana de que se veem uma cara e um braço, não sabendo eu a que veio essa mancha preta, talvez sugerindo a Hermilo as cenas terem se passado de noite. É possível que esse contorno fosse virar um busto de mulher. Parei para não tornar ilegível o que já estava feito.



No segundo conto, A enchente, me senti simplesmente humilhado diante da riqueza de criação de Hermilo. Partindo do nada. Mais ainda do que no caso da ilustração anterior. A única ideia que tive para ver se salvava o desenho foi esse veado, de que Hermilo nem precisou, e botou no fim, dando-lhe um destino: “No alto do frontal, na escuridão e sob a chuva, o carneiro de pedra branca, sentado, montava guarda”.



Na terceira história, Legenda de natal, me lembrei de ter ido a uma festa na Bahia, década de 1950, do lançamento da pedra fundamental de um terreiro na praia do Chame-Chame, uma noite de lua, coisa de cinema, levado pelo pai de Dna. Norma, esposa do escultor Mirabeau Sampaio, pais de Artur e Maria: eita gente boa! Lembro o som dos atabaques, da voz fina das mulheres cantando para Oxóssi: “Lá vem a cutia/com o chapéu no dente/adeus boa noite/qu’eu já vou-me embora parente”. Não me ocorre ter repetido a cantiga para Hermilo, ter dito que aquilo era uma cutia com o chapéu no dente ou se concluiu ele próprio, já que cita no texto: “quando a cutia chegou, o chapéu nos dentes”, “a cutia parou, o chapéu nos dentes”. Da mesma noite me ficou outra cantiga de Oxóssi: “Oxóssi segura o laço/que o veado vai-se embora/Oxóssi pelo mato adentro/e o veado pelo mato afora”.



Para a ilustração da quarta história, Briga de foice, fiquei querendo lembrar do quadro de Bruegel A parábola dos cegos, tirado de Lucas, 7, 39: “Pode o cego guiar outro cego? Não cairão ambos no abismo?”, um dos mais belos quadros da história da pintura, que vi no museu Capodimonte, Nápoles. Depois tentei desenhar um sapo, cabeças de mulher e não sei mais o que. Como sempre, esse quase nada, essas figuras esparsas, sem concatenação, Hermilo num estalar de dedos transformou numa hecatombe.

Para não ficar cansativo, termino no próximo número.

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