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Matéria Corrida

Chegada em Viena

TEXTO José Cláudio

31 de Agosto de 2017

Fritz Wotruba, 'Autorretrato', 1971-1972, bronze, 40 cm

Fritz Wotruba, 'Autorretrato', 1971-1972, bronze, 40 cm

Imagem Reprodução

Não creio, amigo Fernando Dourado, que o Homo sapiens não possa passar sem nossos relatos de viagens, muito menos das minhas ou, melhor dizendo, minha, pouco mais que uma, ou seja, uma passando por diversos lugares. Duas, contando a que resultou no livrinho Viagem de um jovem pintor à Bahia. Três, Rio Madeira com Paulo Vanzolini. Quatro, a da África, que resultou no Os dias de Uidá. Também não preciso dar satisfação quanto a ser ou não escritor. Muito ou pouco. Bem ou mal. O leitor que o diga. Se houver. Amanhã ou hoje. Já escrevi sobre isso, artigo Em defesa dos sumérios, citado inteiro no Diário de Francisco Brennand, vol. III, p. 34, tendo consciência plena de ter sido esse, o fato de citado longamente em livro de tamanha importância, e muitas vezes, a maior honra a que poderia aspirar.

Aguardo, caro Fernando, suas crônicas no Jornal do Commercio como cartas enviadas para mim, ou até, como as cidades de Ítalo Calvino, fruto de minha imaginação.

Resolvido pois o problema do preâmbulo, e da dedicatória ao escritor Fernando Dourado, passo à matéria propriamente dita, minha chegada à bela e espaçosa, essa a primeira impressão, capital da Áustria. Cabendo, aqui, uma segunda dedicatória, à única austríaca que conheço, a ilustre artista plástica tirolesa, fina escritora, Maria Tomaselli Cirne Lima. Que, por uma comida feita para o marido, o filósofo gaúcho Carlos Cirne Lima, comida chamada de kaiserschmarrn, ao pé da letra “gororoba do imperador”, esclarecendo ela, com veemência de maiúsculas, tratar-se de comida “AUSTRÍACA!!!!”, e não alemã como compreendi erradamente por causa da língua, me trouxe à lembrança a cidade de Fritz Wotruba.

Agora entra em cena outro fator. Como Fernando gosta de comer, e deve ter ficado curioso com a gororoba do imperador, sugiro à sua mulher Lavínia fazer-lhe uma surpresa na volta de uma de suas viagens, ele que vive viajando o tempo todo. Primeiro a história, como faz a amiga Lecticia Cavalcanti.

O Kaiser Franz Josef I foi caçar. Pegado por um temporal, refugiou-se em casa de um colono. Nada havia para comer. A não ser os ovos da galinha ciscando no quintal, o leite da vaca no estábulo e farinha de trigo. A mulher do colono preparou esse prato para o imperador. Ele tanto gostou que o introduziu no cardápio da corte. Com certeza algo tão puro, fresco, rústico e genuíno que nunca tinha comido. Hoje é a sobremesa mais amada e famosa na Áustria. Servida após uma gulashsuppe, por exemplo. Em tempo, história e receita ficam por conta de Maria Tomaselli.

Vamos à receita. 4 ovos separando gema e clara. Farinha de trigo e leite tipo uma xícara. Sal, uma pitada. Açúcar, 3 colheres de sopa. Manteiga, 100 gr. Misturar sal, açúcar, leite, farinha e ovos. Bater. Tem que ficar líquida a massa, mais que massa de bolo. Bater as claras em neve. Derreter a manteiga numa frigideira. Misturar suavemente a massa na neve, suavemente para não sair o ar. Colocar na manteiga levemente dourada e assar primeiro um lado. Verificar, levantando levemente com uma espátula, se já está dourado esse lado de baixo e virar, com a ajuda de uma tampa de panela em cima da frigideira, emborcando a frigideira sobre a tampa, e deslizar a “gororoba” de volta à frigideira para dourar o outro lado, o lado que estava em cima antes. Depois rasgar em pedaços médios.

Ai meu Deus. Outra receita. Cozinha austríaca ataca outra vez. Pelos ares: Salzburger Nockerln, nuvens doces de Salzburgo. Ingredientes: Gemas, 4 unidades. Claras, 4 unidades. Sal, uma pitada. Açúcar refinado, 30 gr. Açúcar baunilha, 10 gr. Raspas de limão, uma unidade. Farinha de trigo, 20 gr. Glaçúcar para polvilhar. Modo de fazer: 1. Pré-aqueça o forno. 2. Bata as claras em neve com sal até ficarem firmes, vá acrescentando colheres de açúcar e açúcar baunilha. 3. Bata as gemas com as raspas. 4. Misture a farinha de trigo, mexa bem. 5. Misture isto com as claras cuidadosamente. 6. Coloque em uma refratária untada com manteiga e farinha de trigo. 7. Forme montinhos na refratária. 8. Leve para assar em forno 150ºC por cerca de 10 minutos. 9. Polvilhe glaçúcar e sirva imediatamente.

Valei-me. Vamos ver se ainda consigo, Fernando e Lavínia, contar minha chegada em Viena. Manhã de verão. De trem. Olhei em volta senti firmeza numa senhora com uma bolsa de palha aparecendo verduras, dona de casa vindo da feira. Cumprimentei-a com a cabeça e disse em tom interrogativo: “Iugend Herberg?” Ela em resposta perguntou-me: “Vous parlais français?” “Oui.” Aí ela disse em francês: “Pegue ali aquele bonde número tal”. Era um largo muito amplo onde vi parar um bonde cor verde. “Merci”, que meu francês não era essas coisas. Num minuto chegou o bonde cujo terminal era no tal albergue da juventude. Um albergue bem grande, na frente uma baita sala de espera cheia com a rapaziada, moças e rapazes. Defronte, um bar também cabendo umas cem mesas.

Nesse primeiro dia, de noite, baixei no bar e pedi um chope. Gente que só. Eu sozinho na mesa, dessas quadradas de bar para quatro pessoas, o garçon com uma bandejona cheia de copos de chope, botou o meu e curvando-se me disse qualquer coisa ao ouvido que não entendi. Isso diversas vezes, toda vez que passava perto da minha mesa. Terra estranha, sem conhecer ninguém, fiquei meio apreensivo. Até que entendi: “Kubitschek”. Olhei para ele e disse: “Juscelino?” Foi um estrondo geral. Era o número do garçon. Todo mundo jogando dinheiro um para o outro, todo mundo me abraçando e bebi chope de graça a noite toda. A aposta era para o garçon adivinhar o nome do presidente do país a que a pessoa pertencia. Naquela noite o escolhido fui eu.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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